Por Chantal Liégeois
Vinte e dois anos após a cúpula de Istambul de 2004, a Turquia sedia, pela segunda vez, uma cúpula anual dos líderes da OTAN. O 36º aniversário da OTAN ocorreu em Ancara em 7 e 8 de julho de 2026, no complexo presidencial, com a participação dos dirigentes dos 32 estados membros da Aliança. Além disso, líderes convidados, representantes de organizações internacionais, cerca de 100 ministros, numerosos diplomatas de alto escalão e milhares de convidados estrangeiros foram recebidos em Ancara.
Foi um evento marcante, com a presença de Trump e de uma numerosa delegação norte-americana. Aproximadamente 3.000 jornalistas de todo o mundo cobriram a cúpula no local. Um evento sob alta seguridade: o governo de Ancara mobilizou para esta cúpula mais de 56.000 agentes de segurança e não permitiu reuniões, manifestações ou conferências de imprensa na cidade entre 28 de junho e 10 de julho.
A importância da Cúpula
A agenda da cúpula de Ancara era a tomada de decisões formais de alto nível em matéria de segurança e crescente militarização do continente europeu, já adotada na cúpula anterior em Haia. Além do apoio a longo prazo à Ucrânia e o desenvolvimento das capacidades industriais de defesa da Aliança.
Há um ano, os membros europeus da OTAN e o Canadá prometeram aumentar os gastos com defesa para 5% do PIB até 2035, sob pressão de Trump.
Na abertura da cúpula, o secretário-geral da OTAN anunciou novos contratos de armamento no valor de bilhões de dólares, para demonstrar que a Europa está empenhada em aumentar os gastos com defesa, em resposta a Trump, irritado com vários aliados europeus por não apoiarem integralmente a posição de Washington no conflito com o Irã.
O foco da Aliança está na indústria de defesa aerospacial, com o papel crescente dos drones, demostrado tanto na guerra da Ucrania como no conflito no Irã. Foi anunciado que, até 2027, a Aliança quintuplicará o número de operadores de drones. Outro objetivo é agilizar a adjudicação de contratos de armamento através de um portal totalmente gerido pela OTAN, ou seja, controlado pelos Estados Unidos de América, sem criar um mercado de defesa europeu.
O lugar da Turquia na OTAN
A Turquia é membro da OTAN desde 1952. A reunião em Ancara destacou o papel da Turquia na nova arquitetura de segurança da OTAN, devido à sua posição estratégica no sudeste da Europa, na fronteira com a Ásia e o Oriente Médio, bem como ao seu peso militar e diplomático como potência regional e um importante centro logístico devido a uma remodelação da circulação dos fluxos à escala regional pelo bloqueio do estreito de Ormuz.
A Turquia figura entre os principais exportadores de armamentos do mundo. De acordo com dados da Assembleia dos Exportadores Turcos, as exportações do setor atingiram 5,5 bilhões de dólares em 2023, cerca de 7,15 bilhões de dólares em 2024 e devem ultrapassar os 10 bilhões de dólares em 2025. Esses produtos são exportados para mais de 180 países. A empresa Baykar, que desenvolve drones de design nacional e fabricados na Turquia, é a maior exportadora mundial de drones armados de alta tecnologia há três anos. O primeiro drone de combate turco, o Bayraktar KIZILELMA, entrou em produção em série após seu voo inaugural em 2022. Foram assinados acordos de exportação com 36 países para o Bayraktar. Esses avanços demonstram a transformação do país, que passou de importador de tecnologias para uma potência de defesa capaz de projetar e exportar seus próprios sistemas.
Ancara, uma cidade em confinamento
Uma impressionante operação de segurança isolou a capital turca, onde todas as reuniões públicas estão proibidas por treze dias. Quase 50.000 policiais, mais de 7.000 gendarmes, cerca de 600 especialistas em vigilância cibernética, um perímetro de segurança de 5 quilômetros ao redor do palácio presidencial, redes rodoviárias completamente fechadas, um aeroporto sob protocolo máximo e uma proibição de reuniões e manifestações públicas por treze días.
A presença faraônica das forças de segurança apenas reforça a sensação de uma cidade sob pressão, em um país onde a repressão recai cada vez mais sobre qualquer forma de oposição e discurso crítico. Policiais antimotim confrontaram manifestantes do Partido Comunista Turco reunidos para protestar antes da cúpula da OTAN em Ancara, em 5 de julho de 2026.
OTAN: Anúncios de contratos de US$ 50 bilhões
Segundo notícias de AFP, o valor total desses acordos ultrapassa a soma colossal dos 50 bilhões de dólares. Na área de defesa aérea, um acordo notável é com a empresa sueca Saab para substituir a frota de aeronaves de vigilância AWACS fabricadas pela empresa americana Boeing. O objetivo, segundo Mark Rutte, secretário-geral da OTAN, é fortalecer uma defesa 'made in OTAN' e reduzir gradualmente a dependência da indústria americana". Neste marco, os Estados europeus continuarão a virar-se para a indústria armamentista turca.
O programa europeu SAFE (Security Action for Europe) é um novo instrumento financeiro da UE, com um fundo inicial de €150 bilhões, alcançando €800 bilhões até 2025, concebido para fornecer empréstimos aos Estados-Membros a fim de acelerar a prontidão em matéria de defesa, com investimentos urgentes e de grande dimensão no apoio à indústria de defesa europeia. Neste marco, a Ucrânia assina em Ancara acordos de cooperação sobre drones com a Estônia, os Países Baixos e a Dinamarca.
Suspensão das sanções contra a Turquia.
Como em todas as cúpulas, os aliados de Donald Trump fazem de tudo para agradá-lo. Foi recebido no palácio presidencial por seu homólogo turco, Recep Tayyip Erdogan, no poder desde 2003, um líder autoritário que dirige a Turquia com mão de ferro, repressão à oposição, prisões de manifestantes, a marginalização da mídia não leal, repressão á minorias como a resistência curda, etc. Desde 2016, quando assinaram o acordo sobre imigração com a Turquia, os europeus fizeram a escolha de desviar os olhos da repressão em curso no país e se concentrar na colaboração em segurança.
Diante das câmeras, o chefe de Estado norte-americano o elogiou e se comprometeu a suspender as sanções impostas à Turquia que ele próprio havia imposto durante seu primeiro mandato (2020) devido à aquisição de um sistema de defesa antiaérea russo (S-400). Além disso, o governo americano notificou o Congresso dos Estados Unidos sobre a decisão de vender à Turquia várias dezenas de motores de avião sofisticados, num valor total de mais de 700 milhões de dólares. Esses motores são indispensáveis para que Ancara concretize seu projeto de caças Kaan de nova geração, previstos para 2030.
A Turquia vem, há muito tempo, investindo maciçamente na indústria de armamentos, em parte devido à sua desconfiança em relação aos fornecedores ocidentais e aos embargos decretados contra ela (notadamente durante a invasão de Chipre em 1974, ou durante as invasões das regiões curdas do norte da Síria em 2018 e 2019). Agora, o país pode se orgulhar de possuir importantes capacidades industriais e know-how perante seus aliados.
Os impactos das políticas da OTAN na Europa.
Na sua declaração final, a OTAN reafirmou o seu compromisso de reforçar a dissuasão e a defesa coletivas, leia-se armamento crescente e ampliar orçamento militar para 5% a cada país-membro, anunciou um apoio financeiro de 70 mil milhões de euros à Ucrânia e identificou a Rússia como a principal ameaça para a segurança da zona do euro-atlântica. Mark Rutte apelou aos Aliados para impedirem a Rússia e a China de aumentarem a sua presença no Ártico. Ele também afirmou que o Irã nunca deveria adquirir armas nucleares.
O continente europeu vive um agravamento das condições de vida da maioria da população com aumento da desigualdade e a redução dos gastos sociais decorrente das políticas de austeridade e do aumento dos gastos militares -crescimento anual médio do PIB per capita da União Europeia inferior a 1% entre 2007 e 2024-. Europa enfrenta sua maior guerra desde 1945, na Ucrânia, e registra o maior avanço de forças autoritárias, racistas, xenófobas e de extrema direita desde a ascensão dos nazistas, na década de 1930. Washington assiste, satisfeita, ao declínio da UE.
O crescimento do orçamento militar em cada país-membro da OTAN vai agravar essa crise econômico-social europeia, com a imposição de cortes sociais na educação e saúde e serviços públicos. A guerra na Ucrânia, provocada desde o início pela política da OTAN na Europa de Leste, estimula o crescimento da extrema-direita no continente, pela lógica e pelo discurso nacionalista e belicista.
Existe uma tendência de declínio, com perda de votos para os partidos tradicionais da social-democracia que apoiaram ou implementaram essas políticas de rearmamento e austeridade. Em contrapartida, partidos de esquerda que se opuseram às políticas de austeridade e da OTAN — La France Insoumise, na França; Die Linke, na Alemanha; e o Partido dos Trabalhadores da Bélgica — mantiveram ou ampliaram significativamente seu apoio eleitoral.
Lembrando que a expansão da OTAN para o leste nos anos 90 foi realizada em violação direta às promessas feitas por Washington ao então líder soviético, Mikhail Gorbachev, de que a aliança não avançaria “nem uma polegada” para o leste após a reunificação da Alemanha. Em vez disso, a OTAN cresceu de 17 para 32 países-membros entre 1990 e hoje e mantem deliberadamente aberta a possibilidade de adesão da Ucrânia, considerada pela Rússia uma linha vermelha devido à sua proximidade geográfica.
Além disso, a OTAN expandiu sua atuação para além da Europa, participando de guerras no Afeganistão e na Líbia, criando diversas organizações e iniciativas para preparar intervenções — como a Iniciativa de Cooperação de Istambul, o Strategic Direction-South HUB e o Escritório de Ligação em Adis Abeba — além de iniciar sua expansão para o Pacífico, com Japão, Austrália, Nova Zelândia e Coreia do Sul participando de todas as cúpulas da OTAN desde 2022.
A esquerda em toda a Europa começou a coordenar ações contra o aumento dos gastos militares por meio da criação da iniciativa Stop ReArm Europe. Sua principal reivindicação “Bem-estar, não guerra”, o dinheiro público deve ser gasto em bem-estar social, e não em guerras. Mais de 800 organizações da sociedade civil, sindicatos e movimentos convocaram manifestações em Bruxelas e em todo o continente. “Nos opomos aos planos da UE de gastar mais €800 bilhões em armamentos. Isso representa €800 bilhões roubados.” Uma transferência direta de gastos civis para gastos militares. Ativistas advertem que a Europa está embarcando em uma economia de guerra permanente que aprofunda os conflitos em vez de resolvê-los, alimentará ainda mais a corrida armamentista global e incorporará cada vez mais a militarização ao cotidiano — desde o aumento do serviço militar obrigatório e a expansão das reservas até a vigilância e a redução do espaço democrático. O rearmamento é vendido como segurança, mas a única coisa que realmente garante são os lucros da indústria bélica. O Stop ReArm Europe apela aos decisores políticos da UE e nacionais para investir em saúde, educação, trabalho decente, habitação e uma transição climática justa — não na militarização da sociedade.
REF.