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A ocupação israelense da Cisjordânia é um perigo para as mulheres

9 de fevereiro de 2026



Na Cisjordânia, as mulheres enfrentam assédio diário por parte de colonos e tropas israelenses. Embora Israel frequentemente se apresente como um país avançado em termos de direitos das mulheres, a ocupação esmaga a autonomia das mulheres palestinas e as expõe à violência.


Ser mulher na Palestina implica experimentar a violência em dois planos paralelos. Por um lado, a violência exercida pelo Estado israelense, seu exército e os colonos. Por outro, a violência perpetrada por homens, sejam soldados, colonos ou maridos. Além das manifestações mais visíveis da ocupação israelense — execuções arbitrárias, demolições de casas, confiscação de terras e deslocamentos forçados —, estas violências também vão desgastando lentamente o tecido da sociedade palestina.


As feministas palestinas e as assistentes sociais reconheceram há muito tempo o vínculo entre a violência interna, sustentada por códigos culturais patriarcais, e a violência externa imposta pelo exército e pelos colonos israelenses. Esta relação opera em múltiplos níveis e torna extraordinariamente difícil o trabalho das organizações feministas. Por um lado, o assédio e os ataques cotidianos que sofrem as comunidades da Cisjordânia reduzem de maneira constante a participação das mulheres na vida social, empurrando-as novamente para o âmbito doméstico. Por outro, o trauma coletivo e a humilhação individual intensificam a violência interpessoal e o desgaste gradual dos vínculos afetivos. O resultado é que a violência se transmite dos poderosos para os mais vulneráveis, tendo mulheres e crianças como principais vítimas.


"Onde a ocupação é mais severa, particularmente na Área C [a zona da Cisjordânia sob controle total de Israel], nos campos de refugiados ou em cidades como Hebron que contêm assentamentos, observamos um aumento significativo da violência de gênero e contra crianças, em comparação com a Área A", explica Khawla Al Azraq, diretora geral da ONG palestina Centro de Aconselhamento Psicossocial para Mulheres (PSCCW). Isto se aplica tanto à violência exercida pelas forças de ocupação quanto à violência dentro das famílias. Esta situação já se verificava antes de 7 de outubro de 2023: segundo um relatório do PSCCW publicado quatro semanas antes, cinco mulheres de Hebron denunciaram que soldados israelenses as despiram e as ameaçaram com armas e cachorros na frente de seus filhos. Ao mesmo tempo, a deterioração das condições de vida contribui para o aumento dos transtornos de estresse pós-traumático que, na ausência de um sistema público de atenção ao trauma psicossocial, costumam derivar em violência direcionada para o interior do lar, contra membros da família.


"Esta observação não busca, em nenhum caso, justificar os agressores", ressalta Al Azraq. Trata-se, antes, de reconhecer a realidade concreta no terreno. "Também trabalhamos em escolas e universidades para conscientizar sobre os direitos das mulheres e das crianças, oferecemos educação afetiva e questionamos a violência sistêmica nos tribunais e hospitais palestinos". Ainda assim, acrescenta, "é um fato que onde a ocupação é mais dura, especialmente nos campos de refugiados, também aumenta a violência de gênero dentro das famílias".


Existem razões concretas para isso. Muitas mulheres palestinas que antes trabalhavam e participavam da vida cotidiana em cidades e zonas rurais deixaram progressivamente de sair, estudar ou trabalhar por medo de violações, nudez forçada ou invasões de sua privacidade. "Isso também as impede de denunciar abusos ou abandonar seus lares, porque não dispõem de outros espaços seguros nem de empregos que lhes garantam independência econômica", explica Al Azraq. Isso restringe ainda mais a autonomia das mulheres e as torna mais vulneráveis à violência masculina. "Na prática, a dureza da ocupação desencoraja a resistência à violência doméstica ou mesmo a ideia de que escapar seja possível. Oferecemos apoio psicológico a centenas de mulheres que permanecem em casamentos violentos por essas razões".


Em 2025, o Escritório Central de Estatísticas da Palestina informou que 19,8 por cento das mulheres casadas na Cisjordânia declarou ter sofrido pelo menos uma forma de violência. Este número é amplamente considerado uma subestimação: as autoridades palestinas acreditam que pelo menos 46,5 por cento das mulheres não denunciam os abusos devido à falta de serviços de apoio e alternativas, ou por causa do estigma social. O PSCCW não atua apenas no plano psicológico — em 2024, atendeu 1.300 pessoas por meio de terapias de grupo, cerca de 200 com terapia individual e 194 através de acompanhamento de casos —, mas também fornece assistência legal e financeira nos tribunais palestinos e exerce pressão política quando enfrenta resistência institucional. "Recentemente, acompanhamos uma mulher cujo marido amputou três de seus dedos. O hospital se recusou a classificar o fato como violência doméstica e a polícia se recusou a detê-lo", relata Al Azraq. "Somente após semanas de pressão midiática e de e-mails enviados ao Ministério do Interior da Autoridade Palestina, o homem foi finalmente detido".


Outro objetivo central da organização é a educação e o empoderamento das mulheres através da formação profissional, também como forma de combater o casamento infantil. Embora esta prática tivesse diminuído nas últimas décadas, agora voltou a aumentar. Segundo relatórios da Girls Not Brides referentes a 2019-2020, 2 por cento das mulheres entre quinze e quarenta e nove anos se casou antes dos quinze anos. A partir de 7 de outubro de 2023, no entanto, "a grave crise econômica, o abandono maciço de escolas e locais de trabalho por medo das forças de ocupação e o adensamento de famílias numerosas em espaços cada vez mais reduzidos devido ao deslocamento contribuíram para o aumento do casamento infantil", assinala Al Azraq. O acompanhamento deste fenômeno é particularmente difícil, acrescenta, porque muitas destas uniões ilegais não são registradas, apesar de o matrimônio antes dos dezoito anos — salvo em casos excepcionais — ser ilegal na Palestina.


O PSCCW também trabalha com crianças, oferecendo atividades recreativas para ajudar a processar o trauma psicológico, programas de apoio escolar — "em casos em que o rendimento é limitado por dificuldades psicossociais e não cognitivas, alcançando 2.297 beneficiários em 2024" — e campanhas de conscientização dentro dos comitês escolares, centradas nos direitos e nas necessidades da infância.


Diante da ausência de uma governança capaz de garantir sua proteção, as mulheres palestinas protegem-se umas às outras. Organizam-se de maneira autônoma e encontram força na sororidade. O apoio de ONGs como o PSCCW tornou-se indispensável. "Sem o apoio psicológico e as sessões de grupo do PSCCW, provavelmente hoje eu estaria morta", afirma Hala Khalil Abu Saltah. Além do confinamento forçado no lar devido às incursões do exército e dos colonos, a impossibilidade de sustentar rotinas adequadas às normas culturais contribuiu para o aumento da depressão entre as mulheres. "Tenho um marido violento e estou em tratamento por um câncer metastático. Antes de encontrar este espaço, me sentia irremediavelmente sozinha, não conseguia me agarrar a nenhum fio de esperança", diz.


Abu Saltah nasceu e cresceu no campo de refugiados de Balata, em Nablus, onde a violência da ocupação esteve presente de maneira constante desde a primeira intifada, no final da década de 1980. "Nem mesmo sozinha em meu quarto encontrava paz. No campo, as casas são construídas parede com parede; a janela dos meus vizinhos dá diretamente para o meu dormitório. Todo mundo pode ver e ouvir o que faço. Para as mulheres palestinas, a privacidade é fundamental, e me privaram dela toda a minha vida".


O deslocamento forçado expõe ainda mais as mulheres à violência masculina. "Milhares de pessoas foram expulsas de seus lares nos campos de Jenin e Tulkarem e buscaram refúgio em escolas e edifícios governamentais", explica Alaa Abu Hashish, integrante da equipe do PSCCW que trabalha no norte da Cisjordânia. "Isso implica milhares de mulheres vivendo junto a milhares de homens, sem qualquer garantia para sua segurança". Embora o objetivo declarado do PSCCW seja promover o bem-estar psicológico e os direitos socioeconômicos, as condições impõem outras tarefas: "Nestas circunstâncias, isso se torna quase impossível. Formalmente, fornecemos apoio psicossocial, mas na prática acabamos fazendo de tudo: distribuímos água, alimentos e medicamentos".


Antes de 7 de outubro de 2023, o PSCCW conseguia chegar a todos os distritos onde se propunha trabalhar, especialmente a zonas marginalizadas como a Área C e os campos de refugiados. Desde então, no entanto, o Estado israelense impôs o que Abu Hashish descreve como "um endurecimento adicional das restrições à liberdade de movimento: centenas de novos postos de controle, novas limitações à distribuição de ajuda e a revogação das permissões de trabalho dos duzentos mil palestinos que trabalhavam dentro de Israel". Como resultado, chegar às comunidades e responder às necessidades das mulheres tornou-se cada vez mais difícil. "Quando o exército entra em Balata — o que ocorre em média uma vez por semana —, as mulheres que apoiamos não podem chegar aos nossos escritórios em Nablus para as sessões de grupo. Outras simplesmente não podem pagar o transporte devido à crise econômica". Conclui: "Mesmo que nossos serviços não sejam mais do que um paliativo diante de um problema estrutural, estes obstáculos nos impedem até mesmo de aplicar esse paliativo. A ocupação bloqueia nossa capacidade de abordar os problemas sociais internos, e muito mais os produzidos pela própria ocupação".


Fundado em 1997, o PSCCW operou historicamente de maneira exclusiva na Cisjordânia. No entanto, desde o início do genocídio, seu pessoal sentiu a necessidade de estender seu trabalho também para Gaza. "A população feminina ali ficou devastada", explica Al Azraq. "Junto com várias ONGs europeias, tentamos organizar a distribuição de absorventes higiênicos e facilitar grupos de apoio psicológico para ajudar as mulheres a sobreviver à vida cotidiana em meio à morte e à destruição". Nas cidades de Deir al-Balah e Khan Yunis, em Gaza, instalaram tendas para a distribuição de medicamentos ginecológicos, "clínicas de beleza" destinadas a restaurar uma mínima sensação de normalidade e cuidado pessoal, e grupos terapêuticos.

Este trabalho em Gaza não recebe financiamento formal. "Tudo é realizado através de trabalhadoras voluntárias, a quem apoiamos daqui na medida do possível", assinala Al Azraq. Outra prioridade é o acesso à água potável, "um direito fundamental que em Gaza é negado quase por completo". Conclui: "Na economia política do genocídio, a dignidade das mulheres é totalmente pisoteada. Além dos bombardeios, elas suportam condições tão degradantes que mal posso descrevê-las clinicamente; o transtorno de estresse pós-traumático não é suficiente para nomeá-lo". Sua feminilidade é apagada, sua privacidade desaparece, o autocuidado se torna inacessível. "Muitas mulheres raspam a cabeça porque nem sequer dispõem das condições higiênicas mais básicas. Não há água corrente e milhares de pessoas são obrigadas a compartilhar alguns poucos banheiros. Nossas sessões de grupo lhes dão apenas a força necessária para seguir em frente. Mas a violência infligida às mulheres em Gaza deixará cicatrizes profundas, que se transmitirão de geração em geração".

ANNAFLAVIA MERLUZZI

Annaflavia Merluzzi é jornalista freelance especializada em África Oriente Médio, com particular interesse em direitos humanos, conflitos e movimentos sociais.