Via Revista Forum
CDU, partido do chanceler Friedrich Merz, retorna ao poder após 35 anos na Renânia-Palatinado, enquanto extrema-direita alcança votação histórica e pressiona sistema político alemão.
De BERLIM | O partido União Democrata Cristã (CDU), legenda do chanceler alemão Friedrich Merz, venceu as eleições regionais na Renânia-Palatinado neste domingo (22), com cerca de 30,5% a 31% dos votos, segundo projeções das emissoras públicas ARD e ZDF. O resultado encerra 35 anos consecutivos de governo do Partido Social-Democrata (SPD) no estado.
As estimativas indicam o SPD em segundo lugar, com cerca de 26%, enquanto o Alternativa para a Alemanha (AfD), de extrema direita, alcançou aproximadamente 20% — mais que dobrando seu desempenho em relação a 2021 e registrando seu melhor resultado histórico no oeste do país.
O resultado confirma uma mudança relevante no cenário político regional e reforça tendências já observadas em outras eleições recentes no país.
Gordon Schneider, candidato do CDU que deve assumir o governo da Renânia-Palatinado, comemorou o resultado do pleito afirmando que os eleitores optaram pela “mudança” e por “uma política educacional melhor, uma política de segurança diferente, uma política de saúde diferente e uma política econômica diferente”.
Merz comemora vitória e pressiona por reformas
O chanceler Friedrich Merz celebrou o resultado como um “grande sucesso” e afirmou que a vitória reforça a necessidade de avançar com reformas econômicas no país.
“Entendo que o SPD está enfrentando dificuldades com esse resultado”, disse. “Mas minha convicção é clara: só conseguiremos avançar juntos, focando nos problemas reais do país.”
Merz defendeu a continuidade da coalizão com os social-democratas e insistiu na necessidade de um “caminho de reformas” para tentar reativar a economia alemã, que enfrenta um período de estagnação.
Eleições expõe crise dos partidos tradicionais
O resultado na Renânia-Palatinado se soma a uma sequência recente de eleições que vêm redesenhando o cenário político alemão em 2026.
Duas semanas antes, nas eleições estaduais de Baden-Württemberg, os Verdes venceram por margem apertada, seguidos de perto pela CDU. Na ocasião, o AfD também apresentou forte crescimento, alcançando 18,8% e consolidando-se como terceira força, enquanto o SPD despencou para apenas 5,5%, seu pior desempenho histórico no estado.
Esse padrão — crescimento da extrema direita, colapso da social-democracia e dificuldade dos conservadores em se firmar — tem se repetido em diferentes regiões do país e indica uma transformação estrutural no eleitorado alemão.
AfD cresce
O dado mais significativo das eleições é o avanço contínuo do AfD. Na Renânia-Palatinado, o partido atingiu cerca de 20%, ampliando sua presença em uma região onde tradicionalmente tinha menos apoio.
O crescimento ocorre em meio a um processo de radicalização política. Embora a Justiça tenha suspendido temporariamente sua classificação formal como organização extremista, autoridades alemãs apontam que há evidências consistentes de atuação contra a ordem democrática.
Fundada em 2013 como uma legenda eurocética, a AfD passou por uma transformação ideológica ao longo da última década, aproximando-se de posições ultranacionalistas e da extrema direita radical.
Relatórios de inteligência indicam que o partido promove uma visão étnico-nacionalista de sociedade, marcada por retórica anti-imigração e anti-islâmica. Há também registros de vínculos de membros com círculos neonazistas e episódios envolvendo discursos associados ao nazismo.
Entre os casos mais emblemáticos estão o uso de slogans nazistas por lideranças e a participação de membros em reuniões nas quais foram discutidos planos de “remigração” em massa — conceito associado a movimentos extremistas e que inclui a expulsão de pessoas com histórico migratório, inclusive cidadãos alemães.
Para analistas, o AfD não atua como uma oposição democrática tradicional, mas como uma força que tensiona instituições, ataca adversários políticos e deslegitima a imprensa.
Sistema político pressionado
Apesar do crescimento da AfD, o partido segue isolado politicamente pelo chamado Brandmauer, o “cordão sanitário” adotado pelas demais siglas para impedir alianças com a extrema direita.
Na prática, isso força acordos entre partidos tradicionais, como CDU e SPD, mesmo diante de disputas e perda de apoio popular. Na Renânia-Palatinado, uma coalizão entre os dois pode se tornar a única alternativa viável de governo.
O cenário evidencia uma contradição: enquanto a extrema direita cresce, os partidos tradicionais perdem força, mas permanecem dependentes entre si para sustentar a governabilidade.
Alemanha entra em ano eleitoral sob tensão
As eleições em Baden-Württemberg e Renânia-Palatinado marcam o início de um ciclo decisivo para a política alemã em 2026, com novos pleitos previstos ao longo do ano.
Os primeiros resultados já indicam uma transformação profunda no sistema político do país. O avanço da AfD, aliado ao desgaste de CDU e SPD, aponta para um cenário de maior fragmentação, instabilidade e polarização.