Por: Tarek Nassif
Com US$ 38 bilhões já gastos, alta no custo de vida e rejeição popular recorde, avanço da oposição no Congresso expõe o impacto doméstico da guerra nas eleições de novembro.
A medida, aprovada em 15 de setembro por 220 votos a 204, recebeu o apoio de todos os democratas presentes e de sete republicanos, três a mais do que nas votações anteriores. A resolução dificilmente encerrará, por si só o conflito iniciado em 28 de fevereiro, mas a ampliação das dissidências dentro do Partido Republicano ocorre em um momento de crescente rejeição popular à guerra, aumento de seus custos econômicos e da proximidade das eleições legislativas de novembro.
Votação na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos sobre resolução para encerrar a participação militar norte-americana na guerra contra o Irã, em 15 de setembro de 2026. A medida foi aprovada por 220 votos a 204, com apoio de 213 democratas e sete republicanos. Fonte: U.S. House of Representatives – Office of the Clerk.
Os sete republicanos que apoiaram a resolução foram Thomas Massie, Tom Barrett, Warren Davidson, Brian Fitzpatrick, Nancy Mace, Mariannette Miller-Meeks e Zach Nunn. Os três últimos aderiram à iniciativa pela primeira vez. Nunn afirmou que operações militares prolongadas agora precisam de autorização do Congresso e declarou que não apoiaria outra guerra sem prazo definido. Miller-Meeks, por sua vez, cobrou da Casa Branca um plano para encerrar o conflito, relacionando a questão à necessidade de trazer militares norte-americanos de volta ao país e reduzir os preços - de combustível e alimentos - enfrentados pela população.
As mudanças de posição de Nunn e Miller-Meeks são particularmente relevantes porque ambos representam Iowa e disputam a reeleição em distritos competitivos. A guerra já provocou a morte de 18 militares norte-americanos, incluindo dois oriundos do estado, enquanto o aumento dos preços dos combustíveis passou a ocupar espaço nas campanhas locais. Embora sete dissidentes ainda representem uma parcela pequena da bancada republicana, a terceira votação mostrou que a oposição à continuidade do conflito deixou de estar restrita aos democratas e ao grupo de republicanos que já contestava anteriormente os poderes militares da Presidência.
A movimentação no Congresso acompanha uma deterioração da opinião pública sobre a guerra. Pesquisa Reuters/Ipsos divulgada em 4 de setembro mostrou que apenas 25% dos norte-americanos consideravam que o conflito valia a pena. Outro levantamento, da Marquette Law School, realizado entre 2 e 9 de setembro, encontrou resultado semelhante: 79% afirmaram que a guerra não valeu seus custos, enquanto somente 21% disseram o contrário. Na mesma pesquisa, apenas 13% consideraram que os Estados Unidos haviam alcançado seus objetivos no conflito e a aprovação da condução da guerra por Trump ficou em 26%.
O desgaste não se limita à política externa. Após quase sete meses de operações, o conflito passou a atingir diretamente uma das principais preocupações dos eleitores norte-americanos: o custo de vida. Um relatório divulgado pelo Congressional Budget Office (CBO) estimou que as operações contra o Irã custaram aproximadamente US$ 38 bilhões entre 28 de fevereiro e 1º de agosto, e que a manutenção da guerra pode acrescentar entre US$ 2 bilhões e US$ 3 bilhões por mês aos gastos federais. O órgão também identificou pressão sobre os estoques norte-americanos de munições e impactos econômicos associados à interrupção do comércio de energia pelo Estreito de Ormuz.
A crise energética tornou-se uma das principais conexões entre uma guerra travada a milhares de quilômetros do território norte-americano e a vida cotidiana nos Estados Unidos. As restrições ao fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz contribuíram para levar o barril da commodity novamente acima de US$ 100, pressionando combustíveis e inflação. A Marquette registrou apenas 20% de aprovação à maneira como Trump lida com os preços da gasolina e 19% em relação à inflação e ao custo de vida. O mesmo levantamento apontou inflação e custo de vida como a principal preocupação dos entrevistados.
O impacto político aparece também nos índices gerais do presidente. Pesquisa Reuters/Ipsos divulgada em 14 de setembro registrou 35% de aprovação a Trump, depois de o presidente ter atingido 33%, seu menor índice no atual mandato. No mesmo levantamento, 44% dos entrevistados disseram preferir candidatos democratas para o Congresso, contra 37% que optaram pelos republicanos.
Esses números são retratos do momento, e não previsões do resultado das eleições de novembro, mas ajudam a explicar porque parlamentares de distritos competitivos passaram a tratar a duração da guerra, os preços dos combustíveis e seus custos fiscais como temas de campanha.
A pressão sobre os gastos militares também chegou ao Senado. Em 17 de setembro, 46 senadores democratas enviaram uma carta ao secretário de Defesa, Pete Hegseth, cobrando informações sobre o custo total das operações e sobre os recursos adicionais solicitados pelo Pentágono. Os parlamentares pediram esclarecimentos sobre um novo pedido de US$ 67 bilhões, além dos US$ 34 bilhões anteriormente aprovados, incluindo despesas com reposição de armamentos, reparos em bases militares e manutenção de equipamentos.
Em meio à pressão doméstica, Trump também passou a sinalizar a possibilidade de uma saída diplomática. Em 16 de setembro, o presidente afirmou que os Estados Unidos estavam, segundo suas palavras, “hopefully toward the end” (finalmente rumo a um fim) da guerra e disse ter mantido contatos diretos com autoridades iranianas. Teerã, porém, não confirmou a retomada de negociações diretas. Mohsen Rezaei, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, afirmou que não haveria novas conversas enquanto as condições iranianas não fossem atendidas. Paralelamente, canais de mediação envolvendo Paquistão, Omã e países do Golfo continuam ativos.
A terceira votação da Câmara, portanto, não representa por si só o encerramento da guerra. As duas resoluções anteriores não conseguiram interromper as operações e a atual iniciativa ainda enfrenta obstáculos no Senado e uma possível oposição presidencial.
Mas a votação ocorre em um cenário diferente daquele do início do conflito: após sete meses de hostilidades, a maioria dos norte-americanos ouvidos rejeita os custos da guerra, seus impactos econômicos chegaram aos preços de energia e às projeções de inflação, e um número ainda pequeno, mas crescente, de republicanos passou a apoiar restrições aos poderes militares de Trump.
A aproximação das eleições legislativas adiciona outra variável a esse cenário. A guerra contra o Irã, inicialmente apresentada pela Casa Branca como uma operação de duração limitada, tornou-se também uma questão de política doméstica nos Estados Unidos, e o debate sobre como encerrá-la passou do campo de batalha para o Congresso e para as campanhas eleitorais.
Tarek Nassif é integrante do Observatório de Conflitos Internacionais do Oriente Médio (OCOM) - projeto do Grupo de Estudos de Conflitos Internacionais da PUC-SP (GECI): pucsp.br/geci