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Das fake news à deep fake: como a IA interfere na disputa eleitoral?

12 de agosto de 2026

Por Redação Radar Internacional

A inteligência artificial já se transformou em um dos principais campos de disputa política do século XXI, com repercussão no cenário eleitoral. Se há poucos anos o debate sobre eleições digitais estava concentrado nas fake news que circulavam em aplicativos de mensagens rápidas e nos algoritmos das redes sociais, hoje o cenário é outro: campanhas eleitorais em diferentes partes do mundo já utilizam imagens, vídeos, vozes sintéticas e avatares produzidos por IA para persuadir eleitores, atacar adversários e moldar a agenda pública. É cada vez mais difícil identificar, em um primeiro olhar, o que é verdade e mentira nesse terreno.

A eleição presidencial da Argentina, em 2023, já foi um marco dessa transformação. As campanhas de Javier Milei e Sergio Massa recorreram amplamente à inteligência artificial para produzir imagens e vídeos satíricos, memes e peças de propaganda capazes de circular rapidamente nas redes sociais. O caso foi tão emblemático que o The New York Times perguntou, ainda durante a campanha, se a Argentina estaria vivendo "a primeira eleição da inteligência artificial". A novidade não era apenas tecnológica: a IA passou a fazer parte da linguagem cotidiana da disputa política.

Em 2024, a tecnologia ganhou novas aplicações. Na Índia, políticos utilizaram sistemas de clonagem de voz e tradução automática para falar simultaneamente em diversos idiomas, ampliando o alcance de suas campanhas em um país com centenas de línguas e dialetos. Ao mesmo tempo, vídeos manipulados e conteúdos sintéticos passaram a circular em países como Paquistão, Indonésia, Bangladesh e Estados Unidos, demonstrando que a IA podia ser utilizada tanto para ampliar a comunicação quanto para desinformar.

Nos Estados Unidos, a campanha de 2026 inaugurou uma nova etapa. Pela primeira vez, anúncios eleitorais produzidos com vídeos altamente realistas gerados por inteligência artificial passaram a integrar a publicidade oficial de campanhas partidárias. Embora alguns desses materiais fossem identificados como produzidos por IA, os avisos apareciam de forma discreta, levantando dúvidas sobre a capacidade dos eleitores de distinguir conteúdos reais de conteúdos sintéticos. Especialistas alertam que a combinação entre baixo custo de produção, hiperpersonalização e rápida circulação pode alterar profundamente o ambiente informacional das democracias. Nada diferente do expediente utilizado contra Ivan Cepeda, candidato de Gustavo Petro, nas eleições presidenciais da Colômbia neste ano de 2026.

No Brasil, o debate ganhou força antes mesmo do início oficial da campanha eleitoral, levantando novas preocupações sobre a preservação da já frágil democracia brasileira. Na convenção nacional do PL, que lançou a candidatura de Flávio Bolsonaro, um vídeo feito com Inteligência Artificial simulou a presença digital de Jair Bolsonaro, atualmente condenado e preso pela tentativa de golpe de Estado de 2023, no evento. Isso ajudou a antecipar um debate jurídico e político sobre os limites para o uso de IA nas eleições de 2026.

O Tribunal Superior Eleitoral tem discutido regras específicas para o uso de IA nas eleições, incluindo restrições ao uso de deepfakes, responsabilização sobre conteúdos sintéticos e mecanismos de identificação obrigatória. Ao mesmo tempo, pesquisadores e organizações de verificação registraram um crescimento expressivo de conteúdos produzidos com o objetivo de gerar desinformação política, indicando que as eleições de 2026 seriam as primeiras do país marcadas pela presença sistemática dessas ferramentas.

O tema ganha mais relevância porque o uso de deep fakes na campanha eleitoral brasileira pode representar um grave risco democrático, em um contexto em que a IA passa a ser cada vez mais utilizada em geral pelos candidatos na hora de traduzir discursos, adaptar mensagens para públicos específicos, produzir peças gráficas, gerar locuções, responder eleitores por meio de chatbots e criar avatares digitais capazes de representar lideranças políticas.

A história das tecnologias de comunicação mostra que nenhuma inovação é neutra. O rádio, a televisão, a internet e as redes sociais alteraram profundamente a forma como a política é feita, cada um em seu tempo histórico. Agora, a inteligência artificial inaugura um novo ciclo. A diferença é que, desta vez, não estamos apenas diante de uma nova mídia. Estamos diante de uma tecnologia capaz de produzir discursos, rostos, vozes e identidades artificiais praticamente indistinguíveis dos reais, o que compromete a transparência, a confiança pública e a integridade eleitoral.

As próximas eleições brasileiras e em diferentes países indicarão se as democracias conseguirão construir regras para resistir a uma indústria de manipulação política em escala inédita. A disputa eleitoral do futuro já começou e ela será travada também entre algoritmos.