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EUA podem forjar delação contra líderes de esquerda da América Latina

5 de agosto de 2026

Venezuela é o epicentro da ação de Washington.

O presidente Donald Trump, que controla diretamente o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, pode usar ex-dirigentes da Venezuela para forjar delação contra líderes de esquerda da América Latina.


Esta possibilidade cresceu desde que o empresário Alex Saab foi preso em Caracas e deportado para os Estados Unidos no início de 2026, numa reversão histórica bancada pela presidenta em exercício Delcy Rodríguez.

Saab foi próximo de Hugo Chávez e era tido como ‘laranja’ de Nicolás Maduro por autoridades estadunidenses.

Maduro foi sequestrado no 3 de janeiro e levado para Nova York, onde segue preso com a primeira dama Cilia Flores.

No dia 16 de janeiro o diretor da CIA, John Ratcliffe, tornou-se a primeira autoridade de alto escalão do governo Trump a desembarcar em Caracas.

Historicamente, a Venezuela foi um hub dos Estados Unidos para vigiar a América do Sul e especialmente o Caribe. A Direção dos Serviços de Inteligência e de Prevenção (DISIP) venezuelana era quase um braço da CIA.

O terrorista Luis Posada Carriles, cubano naturalizado venezuelano, recebeu treinamento da CIA e foi informante da DISIP. Ele teve extensa participação em ações contra Cuba e o governo sandinista da Nicarágua.

Carriles é o mentor intelectual de um dos primeiros atentados contra a aviação civil no planeta: a derrubada do vôo 455 da Cubana de Aviación, que partiu de Barbados e explodiu no ar no dia 6 de outubro de 1976. Morreram 73 civis, dentre os quais uma equipe de esgrima de Cuba que havia disputado um torneio na Venezuela.

Reviravolta no caso Saab

Alex Nain Saab Morán nasceu na Colômbia. Ele se naturalizou venezuelano. Foi, de fato, homem de confiança de Hugo Chávez, que ao assumir o poder em 2 de fevereiro de 1999 rompeu os laços entre a CIA e a DISIP, que mudaria de nome.

Ao longo de sua carreira, o empresário teve contratos com o governo chavista. Foi acusado por lavagem de dinheiro e outros crimes na Colômbia, Estados Unidos, Suíça e Reino Unido. As acusações sempre se confundiram com a campanha deliberada movida por Washington contra Chávez.

Em 12 de junho de 2020, Saab estava em missão não oficial da Venezuela quando foi detido em uma das ilhas de Cabo Verde. Seu jatinho havia feito escala para reabastecer. O destino era o Irã.

Extraditado

Saab foi extraditado para os Estados Unidos. Acusado por lavagem de dinheiro e supostamente ‘esconder’ U$ 350 milhões da Venezuela em contas bancárias estadunidenses, poderia pegar até 20 anos de prisão.

Em 2023, o governo de Joe Biden aceitou trocar Saab por nove estadunidenses que estavam presos na Venezuela. Ele recebeu clemência e retornou a Caracas.

Voltou de forma triunfal e ascendeu ao posto de ministro da Indústria e Produção Nacional. Ocupou o cargo entre 18 de outubro de 2024 e 16 de janeiro de 2026.

Após o sequestro de Nicolás Maduro, Saab foi defenestrado por Delcy Rodriguez. Ele foi preso numa operação conjunta entre Estados Unidos e Venezuela no dia 4 de fevereiro deste ano.

“Alex Saab supostamente usou bancos americanos para lavar centenas de milhões de dólares roubados de um programa alimentar venezuelano destinado aos pobres e provenientes da venda ilegal de petróleo venezuelano”, disse o Procurador-Geral Adjunto A. Tysen Duva, da Divisão Criminal do Departamento de Justiça. “Isso é inaceitável. A Divisão Criminal não permitirá que agentes estrangeiros explorem o sistema financeiro americano e o usem como um refúgio seguro para os lucros de sua corrupção.

Wall Street e a City de Londres são historicamente os maiores beneficiários da lavagem de dinheiro praticada nos chamados ‘refúgios fiscais’. Valores lavados são depois destinados ao mercado imobiliário e financeiro.

O verdadeiro ‘crime’ de Saab teria sido o de ajudar os governos Chávez e Maduro a driblar as sanções internacionais dos EUA contra a Venezuela.

Envolvimento da DEA

Da coletiva em que Saab foi denunciado também participaram agentes do FBI e da DEA:

“A DEA investiga há muito tempo os supostos crimes financeiros e as redes ligadas a Alex Saab e ao antigo regime de Maduro”, disse o Administrador Terrance Cole, da Agência de Combate às Drogas (DEA). “Essas acusações são resultado direto do compromisso contínuo da DEA em desmantelar as redes corruptas que operam em toda a Venezuela. O apoio desta Administração às forças da lei e a busca incansável da DEA por aqueles que facilitam as atividades dos cartéis nos permitiram, juntamente com nossos parceiros da Força-Tarefa de Alto Nível (HSTF), trazer Alex Saab de volta aos Estados Unidos para que ele seja julgado novamente.”

É inusitado que um preso que tenha recebido clemência de um governo dos EUA seja preso e indiciado pela segunda vez.

Para além de retirar da Venezuela um possível estorvo para o governo aliado de Delcy Rodríguez, a nova extradição de Saab pode resultar em um acordo pelo qual ele denuncie Maduro e outras lideranças de esquerda da América Latina em colaboração premiada.

Aos 54 anos de idade, Saab está diante de uma pena de 20 anos.

Delações dirigidas

Como se viu na Lava Jato, cabe tudo em delações premiadas.

A principal proposta da Revolução Bolivariana, de uma região autônoma na política e economia, sempre foi ameaça à hegemonia estadunidense. Matar o chavismo na Venezuela é, portanto, um objetivo de longo prazo.

Em 1991, através de Bush pai, os EUA propuseram a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), projeto que foi detonado em 2005, em Mar del Plata, na Argentina, pelos presidentes Lula, Chávez e Nestor Kirchner.

“ALCA ao carajo!”, famosamente gritou Chávez.

O ex-presidente do Equador, Rafael Correa, que esteve próximo de retornar ao poder através de uma aliada, em eleições recentes, passava boa parte de seu tempo em Caracas. Agora, pediu asilo e vive em Bruxelas, na Bélgica.

Correa foi quem fechou a base militar estadunidense em Manta, cidade portuária do Equador.

Um dos objetivos políticos da Casa Branca sob Trump é ‘redesenhar’ o mapa político da América Latina, afastando de vez lideranças que, no passado, propuseram autonomia regional e se aproximaram de China e Rússia.

O golpe de Honduras

Desde que ‘herdou’ o poder de Nicolás Maduro, Delcy Rodríguez vem colaborando com Washington com o objetivo de não ceder poder à opositora Maria Corina Machado.

Mais recentemente, Delcy aceitou retirar a Venezuela do Tribunal Penal Internacional, que os Estados Unidos pretendem demolir — especialmente depois que o TPI emitiu mandado de prisão contra o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu.

Trump, por sua vez, fez uma grande reforma no Departamento de Justiça, demitindo ou forçando à demissão funcionários de carreira e preenchendo vagas com colaboradores próximos. Todd Blanche, que hoje comanda o departamento, foi advogado de Trump em uma série de casos criminais.

Desde que Trump reassumiu o poder, o DOJ abandonou centenas de casos que não interessavam politicamente ao presidente.

Trump perdoou aliados judicialmente e indultou o ex-presidente de Honduras Juan Orlando Hernández, condenado a 45 anos de prisão nos EUA por tráfico de cocaína e crimes relacionados a armas.

Em 2025, o partido de Hernández voltou ao poder em Honduras com a eleição de Nasry Asfura, que teve o apoio explícito de Donald Trump e do secretário de Estado Marco Rubio. Sob denúncias de fraude, Asfura venceu com apenas 26.338 votos de vantagem.

Hernández está de volta a Honduras, onde vai responder a processos, mas com o Partido Nacional de volta ao poder tudo indica que as ações vão terminar em pizza.

Trump também interveio diretamente nas eleições legislativas da Argentina, para garantir votos a Javier Milei. Há suspeitas de ação clandestina dos EUA na derrota de um aliado de Gustavo Petro nas eleições da Colômbia.