Por Gilbert Achcar, na Jacobin | Tradução: Antonio Martins
De um lado, Netanyahu e dois partidos neonazis. De outro, Eisenkot, um general extremista. Parte da população, alarmada, vota nos grupos árabes – que, porém, submetem-se ao sionismo. A democracia sucumbe quando triunfam ideias coloniais.
Na terça-feira, 27 de outubro, eleitores judeus e árabes com cidadania israelense compareceram em massa às urnas para as eleições do parlamento israelense, o Knesset. É o primeiro pleito desde a formação, em 2022, do governo mais reacionário da história do Estado sionista. Nos últimos quatro anos, essa coalizão de extrema-direita uniu o partido Likud de Benjamin Netanyahu e os grupos neonazistas liderados por Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich, juntamente com partidos religiosos ultraortodoxos.
Como previsto pelas pesquisas, o bloco governista comandado pelo primeiro-ministro Netanyahu e a aliança de oposição liderada pelo ex-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas de Israel, Gadi Eisenkot, terminaram a disputa em um empate, segundo as estimativas atuais. Pode levar alguns dias até que os resultados definitivos sejam anunciados e várias semanas de negociações entre as facções do Knesset até que a composição do próximo gabinete seja conhecida.
A particularidade mais crucial das recentes eleições é que foram as primeiras realizadas desde a operação liderada pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, que desencadeou a guerra genocida lançada pelo exército israelense contra Gaza, que eliminou seus habitantes e arrasou seus edifícios em larga escala. Tudo isso foi agravado por uma escalada perigosa e sem precedentes da violência dos colonizadores sionistas contra a população palestina na Cisjordânia, o que constitui claramente uma campanha de limpeza étnica semelhante à testemunhada na maior parte da Palestina durante a Nakba de 1948 e, mais recentemente, na Faixa de Gaza.
As novas eleições também ocorreram em um momento de tensão crescente na sociedade israelense entre os apoiadores da coalizão governista e a oposição sionista. A tensão já estava no auge antes de 7 de outubro, manifestando-se na época em grandes manifestações da oposição centradas em questões judiciais. A operação liderada pelo Hamas reuniu grande parte da sociedade judaica israelense em torno do ódio aos palestinos, particularmente aos de Gaza, mas também a todos os demais, incluindo aqueles com cidadania israelense. Em outras palavras, o ódio racista sionista atingiu seu ápice na sociedade nos últimos três anos; e ainda não diminuiu significativamente.
Como resultado, nenhuma das principais questões que envolvem o novo ciclo eleitoral afeta de fato o consenso sionista reacionário que se solidificou recentemente. A Palestina definitivamente não está no centro de seus argumentos. Na verdade, está quase totalmente ausente do debate entre Netanyahu e seus oponentes, exceto pelas acusações mútuas de que ambos os lados servem ao Hamas. Todos os partidos sionistas, da extrema direita ao que resta da “esquerda” sionista, declaram sua rejeição até mesmo à criação de um Estado palestino remanescente, como a atual Autoridade Palestina em Ramallah. Ou, na melhor das hipóteses, vinculam tal possibilidade a um controle ainda mais rígido sobre a população palestina, tornando-a muito menos “soberana” do que até mesmo os antigos bantustões da África do Sul, na época do apartheid.
Diante dessa situação deplorável, uma parcela dos eleitores judeus, maior qeu em todas as eleições anteriores, declarou sua intenção de votar em um dos dois blocos partidários árabes. Os mais “moderados” apoiaram a Lista Unida, co-liderada por um líder islâmico de direita e um judeu sionista. Judeus mais progressistas, que anseiam pela coexistência pacífica com o povo palestino, optaram pela Lista Conjunta. Um desempenho significativo desta última, como previsto pelas pesquisas e aparentemente confirmado pelas últimas estimativas de votos, representaria o melhor resultado possível das eleições em curso.
Contudo, o fato de judeus progressistas terem votado nos partidos árabe-israelenses é, antes de mais nada, uma prova de sua incapacidade de formar uma organização política predominantemente judaica que se oponha ao consenso sionista. Tal oposição rejeitaria o princípio de um “Estado judeu” e abraçaria a reivindicação de um “Estado para todos os seus cidadãos”, defendida pelos partidos de oposição árabes progressistas. Além disso, exigiria a retirada do exército de ocupação e dos colonos sionistas de todos os territórios ocupados em 1967, bem como o apoio ao direito de retorno ou indenização dos refugiados palestinos, como parte do direito inalienável deste povo à autodeterminação.
Mansour Abbas, líder da Lista Conjunta, está empenhado em buscar um acordo com a oposição sionista. Seria um arranjo semelhante ao que firmou quando participou, sem pasta ministerial, do governo de 2021-2022. liderado por Naftali Bennett (um líder sionista de extrema-direita rival de Netanyahu), e Yair Lapid (descrito pela mídia como moderado, embora supere Netanyahu em questões como a eliminação do Hamas ou um ataque ao Irã). Hoje, o principal líder da oposição sionista é Eisenkot. Ele supervisionou pessoalmente a implementação, no Líbano, da doutrina militar de que é autor. Defende a destruição completa de áreas onde forças inimigas estejam presentes, sem poupar civis e, portanto, em flagrante violação do direito internacional.
Mansour Abbas busca cooperar com Eisenkot e contornar a recusa deste em se aliar a um partido árabe, por meio de condições como a exigência de que declarem o Hamas como “terrorista”. Essa exigência é particularmente difícil para Abbas, já que ele próprio pertence à mesma Irmandade Muçulmana da qual o Hamas se originou. Abbas tentou superar essa barreira incluindo um policial judeu sionista na linha de frente de sua lista, na esperança de que Eisenkot o aceitasse como ministro em um futuro governo, caso conseguisse obter maioria parlamentar com o apoio da Lista Unida.
A Lista Conjunta anunciou sua disposição em fornecer o que chamou de “rede de segurança” nas votações do Knesset para a oposição a Netanyahu, desde que a oposição se comprometesse a atender às demandas urgentes relacionadas às condições de vida dos palestinos dentro de Israel e expressasse apoio ao estabelecimento de um Estado palestino. No entanto, o consenso existente entre a coalizão governista e a oposição sionista em rejeitar um Estado palestino torna a oferta da Lista Conjunta impossível. Talvez seja algo positivo, já que nenhum opositor palestino do sionismo deveria oferecer qualquer tipo de apoio a partidos sionistas hostis ao seu povo — seja dentro das fronteiras do Estado sionista ou, mais certamente, fora delas.
Um governo liderado por Eisenkot certamente não se desviaria do consenso sionista em relação aos esforços contínuos para eliminar o Hamas e controlar Gaza, bem como aos ataques ao Irã em cooperação com os Estados Unidos e ao Hezbollah no Líbano. O que poderia distinguir um governo liderado por Eisenkot do atual, além da controvérsia em torno do recrutamento de estudantes judeus ultraortodoxos, é conter os colonos sionistas extremistas, incitados por Ben-Gvir e Smotrich para atacar palestinos na Cisjordânia. O próprio Netanyahu expressou certo descontentamento com as ações desses fanáticos, devido aos danos adicionais que infligem à reputação internacional de Israel.
O objetivo de Eisenkot, no entanto, é manter o controle do Estado sionista sobre a maior parte da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, com a meta de eventualmente anexar esses territórios. As áreas restantes ficariam abertas à implementação do chamado plano de paz de Donald Trump, uma medida que o próprio Netanyahu seria forçado a aceitar caso Trump retomasse seus caprichos após o atual foco no Irã e na Ucrânia.
Dito isto, se nenhum dos dois principais blocos conseguir estabelecer uma aliança majoritária no Knesset, não se descarta a possibilidade de uma reconfiguração do cenário político sionista, com Netanyahu possivelmente rompendo com seus dois aliados nazistas, Ben-Gvir e Smotrich, a fim de abrir caminho para a formação de um “governo de unidade nacional” entre ele e os atuais partidos de oposição, com os quais compartilhou o poder recentemente. Antes de chegar a tal acordo, porém, ele certamente se esforçará para separar do bloco de oposição aqueles mais à direita e, portanto, mais dispostos a colaborar com sua atual coalizão de extrema-direita.