POR NELSON PEREIRA
Via Esquerda.net
O primeiro médico palestino a ocupar um cargo efetivo num hospital israelense, nomeado várias vezes para Nobel da Paz pelo ativismo em prol da reconciliação entre israelenses e palestinos, diz que "é tempo de travar a expansão colonial e ideológica de Israel”.
“A questão do direito de Israel existir deve ser colocada de outra forma. Israel não pode existir como um Estado étnico e colonial”, afirma o Dr. Izzeldin Abuelaish, conhecido por ser o primeiro médico palestino a ocupar um cargo efetivo num hospital israelense, na década de 1990.
“Israel não pode existir como sistema de nacionalismo, só pode existir se baseado no direito internacional”, reitera o obstetra.
Abuelaish aponta o dedo a um modelo supremacista inviável, estabelecido com o objetivo de expansão e colonialismo. “Israel é o único país com fronteiras indefinidas, para se poder expandir. Não tem constituição. Então, onde e como existe? E os vizinhos, e a existência dos palestinos?”
Em Janeiro de 2009, Abuelaish fazia o seu relato diário ao Canal 10 de Israel, a partir do interior da zona de guerra em Gaza, quando bombas israelenses atingiram a casa da sua família, matando três das suas filhas – Mayar, Aya e Bessan – e a sobrinha, Noor.
A perda das suas filhas e sobrinha não foi a última tragédia que viveu. Em 7 de novembro de 2023, um ataque aéreo israelense atingiu a casa onde os seus familiares estavam abrigados no campo de refugiados de Jabalia, matando 22 membros da sua família alargada.
Apesar de todo o sofrimento, o Dr. Izzeldin Abuelaish insiste em defender a igualdade entre palestinos e israelenses. "Continuarei a defender os nossos direitos, a nossa justiça, a vida dos palestinos, a liberdade dos palestinos, a igualdade entre palestinos e israelenses".
Mas para que isso seja possível, "é tempo de travar a expansão colonial e ideológica de Israel", sublinha. "Vejam o que está acontecendo na Cisjordânia, a asfixia dos palestinos. E a expansão dos colonatos no Líbano, na Síria e em outras áreas."
Tudo isto deriva de uma ideologia “que considera Israel o Estado de um povo eleito com o direito de expandir aquilo a que chamam o Grande Israel”, afirma Abuelaish, acrescentando que este projeto só persiste graças à imunidade concedida a Israel pelo governo norte-americano e por alguns países ocidentais. “Têm violado o direito internacional e precisamos que sejam responsabilizados pelos seus atos. É tempo de retomar a confiança na comunidade internacional e de defender os direitos humanos internacionais.”
Acusado por vezes de promover a normalização de um sistema de violência israelense, Izzeldin Abuelaish nega categoricamente. “Nunca disse que promovo a coexistência e a normalização. O que sempre quis foi que os israelenses nos vissem, palestinos, como seres humanos e abandonassem o ódio. Quero que vejam a dor dos palestinos como igual à dos israelenses. O ódio é uma doença.”
Após o assassinato das suas três filhas e sobrinha pelo exército israelense, o obstetra mudou-se para Toronto e interpôs um processo contra o Estado de Israel, exigindo um pedido oficial de desculpas e indemnização pelo crime. Em novembro de 2021, o Supremo Tribunal de Israel rejeitou o recurso de Abuelaish, que já tinha sido negado por um tribunal inferior.
Traído e ignorado, não desistiu da luta, determinado a fazer com que o mundo visse o lado humano dos palestinos e o seu sofrimento, num mundo endémico de desinformação e de meios de comunicação tendenciosos que descrevem os palestinos como monstros.
“Somos pessoas como as outras. Somos pessoas que procuram a sua liberdade e a sua justiça. E é da responsabilidade dos israelenses agir para pôr fim ao sofrimento dos palestinos, acabando com a ocupação e libertando a Palestina”, conclui o médico de Gaza.
Nota:
Cinco vezes nomeado para o Prémio Nobel da Paz, Izzeldin Abuelaish é professor na Escola de Saúde Pública Dalla Lana da Universidade de Toronto.
Abuelaish escreveu um livro de memórias sobre a sua experiência: “Não odiarei: a viagem de um médico de Gaza no caminho para a paz e a dignidade humana”, publicado em 2001. O documentário franco-canadense "I Shall Not Hate", realizado por Tal Barda e lançado em 2024, foi adaptado do livro.