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Palestina Livre! Leia a carta aberta de Macklemore

25 de setembro de 2026

No dia 4 de setembro o rapper Macklemore abriu o show de Ed Sheeran no estádio MetLife em Nova Jersey e declarou: “Uma grande parte da razão pela qual eu quis fazer esta turnê foi para poder subir em estádios como este e dizer duas palavras que são muito importantes para mim: ‘Palestina Livre’”. Seu show de abertura inclui “Hind’s Hall”, uma música que ele fez sobre os manifestantes pró-Palestina na Universidade Columbia, que ocuparam um prédio e o nomearam em homenagem a Hind Raja, uma menina de seis anos morta pelo exército israelense

Organizações pró-Israel o denunciaram por discurso de ódio e antisemita e apresentaram petição pedindo que o removessem da turnê de Ed Sheeran. A cantora pop judia Pink chegou a compartilhar um post repercutindo essa denúncia


No dia 14 o rapper Macklemore publicou em seu perfil que havia sido removido da turnê, detalhando como chegaram nessa decisão, e aproveitando o momento para denunciar o lobby israelense, a cumplicidade do silêncio das pessoas famosas e pedindo que a atenção mundial continue sendo sobre a palestina

No dia seguinte outros artistas se retiraram da turnê do Ed Sheeran, entre eles Finneas, Lukas Graham, Aaron Rowe e a banda Beoga, em solidariedade ao Macklemore, ou melhor, à Palestina!

Leia, a seguir, a carta-aberta na íntegra:

"Não tenho certeza de como começar isso. Então, vou falar de coração e compartilhar a verdade. Ed Sheeran e sua equipe tomaram a decisão de me retirar da turnê Loop.


Mas antes, quero dizer algo que deveria ser óbvio. Neste momento, acho que isso é importante. Eu não sou uma vítima. Ed Sheeran não é uma vítima. Pink não é uma vítima. Temos carreiras, dinheiro, oportunidades, segurança e fãs no mundo todo. Quaisquer que sejam as consequências que a gente enfrente pelo que dizemos, nós podemos voltar para casa, para nossas famílias.


A vítima é o povo palestino. Os homens, mulheres e crianças que foram mortos, passaram fome, foram deslocados e forçados a vivenciar uma violência inimaginável. Mais de 20.000 crianças foram mortas apenas em Gaza. Pessoas estão sendo mortas hoje, e pessoas serão mortas amanhã. Quero me assegurar que não percamos isso de vista.


Ed é meu amigo. Eu o conheço há 13 anos. Nós compartilhamos madrugadas, gravações e palcos. Ele tem essa magia contagiante que eu aprendi a amar. Eu o considero um irmão. E por causa disso, tivemos algumas conversas difíceis na semana passada. O tipo de conversa baseada em amor e respeito mútuo, mas que ainda assim termina em um lugar de discordância fundamental.


Nada do que estou escrevendo aqui é por ódio ou porque quero destruí-lo. Mas, como eu disse ao Ed várias vezes no telefone, nossa amizade não pode impedir minha responsabilidade de contar a verdade sobre o que aconteceu.


Na última segunda-feira, no meio de toda a atenção da mídia em torno da Pink e do que eu disse no MetLife, Ed me contou que Robert Kraft ligou para ele. Estávamos programados para tocar no Gillette Stadium no final deste mês, que é propriedade do Kraft Group.


Ed também me disse que Kraft afirmou que eu não teria permissão para me apresentar em seu estádio. Ed também me disse que Kraft havia reunido alguns dos outros donos de estádios e, coletivamente, eles lhe deram um ultimato: se Macklemore continuar na turnê, vocês não terão permissão para se apresentar em nossos espaços.


Ed estava em uma posição muito foda. Ele sabia disso. Sua típica postura apolítica estava sendo desafiada de uma forma que nunca havia sido antes. Ele me disse que as palavras "Palestina Livre" e a imagem da bandeira palestina eram dolorosas para muitas pessoas com quem ele conversou.


Eu disse a ele que se essas palavras eram mais ofensivas do que as dezenas de milhares de crianças palestinas sendo mortas por Israel, então havia uma desconexão fundamental entre o posicionamento dessas pessoas e o meu. Mas ele não conseguia abrir mão de sua imagem pública de "Eu sou imparcial".


E eu entendo por que as pessoas não fazem isso. Tomar partido pode lhe custar muito. Dinheiro, contratos com marcas, patrocínios, festivais, shows particulares, contatos e acesso. Eu perdi todas essas coisas. Mas não há posição neutra entre opressor e o oprimido. Quando um lado tem as bombas e o apoio financeiro e militar inesgotável dos Estados Unidos, recusar-se a tomar partido não te coloca no meio.


O que eu disse no MetLife, eu tenho dito em palcos ao redor do mundo por quase três anos. Então por que isso é um problema agora? Porque agora estou dividindo um palco com um dos maiores artistas do mundo, em alguns dos maiores estádios dos Estados Unidos. Em certo nível de exposição, "Palestina Livre" se torna um risco muito grande.


Se eu continuasse fazendo os shows, dizendo Palestina Livre, com Ed apoiando implicitamente, a multidão fazendo barulho e mostrando inegável apoio à libertação palestina, qual artista poderia se manifestar depois? O palco se torna resistência. Talvez seja por isso que desta vez se tornou tão importante me silenciar.


E uma das maneiras mais eficazes de impor esse silêncio tem sido instrumentalizar a acusação de antissemitismo. O antissemitismo é real. E é exatamente por isso que essa palavra importa demais para ser usada como um escudo contra as críticas ao Estado israelense. Quando criticar Israel, opor-se ao sionismo ou dizer “Palestina Livre” é confundido com ódio ao povo judeu, isso não protege o povo judeu. Isso protege Israel de ser responsabilizado.


Espero que este não seja o fim da minha relação com Ed. Treze anos de amizade não desaparecem por causa de um desentendimento doloroso. Espero que ambos continuemos ouvindo, estudando o que está acontecendo na Palestina e discutindo sobre o que a neutralidade significa em um momento como este. Minha porta sempre estará aberta para continuar essa conversa.


Quando meu irmão Omar estava fazendo as legendas para o vídeo que postei do MetLife, eu o agradeci. Ele me disse que existe uma frase em árabe:


لا شكر على واجب


"La shukra ala wajeb." "Não se agradece por uma obrigação".


Isso me marcou. Porque é isso que se tornou para mim e para milhões de outras pessoas ao redor do mundo. Um dever. Não é algo que mereça elogios ou gratidão. Não é ser corajoso. É ser humano.


Quem está ganhando a internet, quem está sendo cancelado, quem pode tocar no estádio e quem não pode, tudo isso se torna tão pequeno quando comparado ao que estamos realmente testemunhando em Gaza e na Cisjordânia. Um povo inteiro sendo deslocado, passando fome e sendo morto enquanto o mundo debate quais palavras podemos usar para descrever o que está acontecendo, como essas palavras nos fazem sentir, e se o nosso desconforto importa mais do que as pessoas que estão vivendo um genocídio.


Eu não precisava que Ed me desse 10 shows. Eu precisava de 2. Duas chances de estar diante de 90.000 pessoas e dizer as palavras que de alguma forma se tornaram perigosas demais para serem ditas.


Palestina Livre.


Mas se essas palavras me custaram o palco, ao mesmo tempo em que trouxeram a conversa de volta para a Palestina, então foi a turnê mais bem-sucedida da qual já participei."