Via Esquerda.net
A Turquia regista desde finais de junho uma nova onda repressiva em larga escala, obviamente relacionada com a 36ª cúpula da organização militar aliada que regressa pela segunda vez ao país que possui o segundo maior exército da OTAN.
A polícia turca deteve na manhã de domingo, 5 de julho, dezenas de pessoas em ações simultâneas em diversas províncias do país, e nas vésperas da cupula da OTAN que decorreu entre 7 e 8 de julho na capital Ancara.
Entre os detidos encontram-se jornalistas, advogados, académicos, estudantes, sindicalistas e membros de diversos grupos socialistas, todos associados a uma investigação sobre “terrorismo” e na sequência de uma operação policial semelhante que ocorreu na semana passada, revelou o site informativo independente Bianet.
As operações ocorreram em Istambul, Ancara, Izmir, Kocaaeli, Antália, Dersim, Urfa, Çanakkale e Bursa. Entre os detidos, no decurso de “raides” a suas casas, encontram-se Abbas Vural, um correspondente da Bianet, e Ceren Erdoğdu, editor da OdaTV, que recentemente lançou a petição “Não à iniciativa da OTAN” e integrada por muçulmanos que contestam a organização militar ocidental.
Em Istambul, a Associação Progressista de Advogados (ÇHD) anunciou que o seu responsável pela seção de Istambul, o advogado Ezgi Önalan, e outro membro foram presos em operações similares. “Fim das operações políticas que prometem à OTAN um roseiral sem espinhos”, exigiu a Associação em comunicado.
Na província de Antália, foram detidas pelo menos 35 pessoas, incluindo 11 membros do grupo Halkevleri (Casas do Povo), uma organização da sociedade civil envolvida em atividades culturais, educacionais e ambientais, para além de dirigentes políticos e diversos ativistas sindicais.
Em Ancara, no bairro de Tuzluçayır, a polícia irrompeu na noite de sábado passado numa delegação da Associação de Cultura e Investigação Anatolia (AKA-DER) e prendeu pelo menos nove pessoas.
As ações repressivas estenderam-se a outras regiões, com a detenção de ativistas políticos, jornalistas, membros de associações culturais.
Na grande metrópole de Istambul, as forças policiais concentraram-se nas Associações de Juventude Revolucionária e no Movimento Revolucionário (que congrega ativistas curdos e organizações socialistas e comunistas), enquanto a Associação Cultura e Amizade denunciou a prisão de vários dos seus membros em Istambul e Izmir. Diversa imprensa alternativa, incluindo o Partizán, também foi alvo de buscas e de detenções.
Numa ação paralela, o académico Sibel Özbudun e o escritor Temel Demirer foram presos em Istambul no âmbito de uma investigação com contornos pouco claros conduzida pelo procurador de Muğla.
Repressão instalada e generalizada
Numa anterior ação repressiva que decorreu entre 23 e 24 de junho, foram detidas cerca de 220 pessoas, incluindo jornalistas, académicos, ativistas ambientais e estudantes, todos sob a acusação de “terrorismo”. Após decisão do tribunal, 103 destes ativistas permanecem na prisão.
A intensificação da repressão – também muito recorrente na Turquia do Presidente Recep Tayyip Erdogan e do seu Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP), no poder desde finais de 2002 – foi de novo confirmada na passada sexta-feira, com a detenção do célebre humorista Deniz Göktas, de imediato enviado para uma prisão na Trácia oriental.
O seu espetáculo Ölü Deniz (Mar Morto), um olhar satírico sobre a situação política no país e com uma incisiva abordagem rara na Turquia, foi visto mais de dez milhões de vezes no Youtube. A sua prisão, sob a acusação de “ofensas” ao Presidente e ao Islã, não foi surpreendente, mas assinala um novo golpe na liberdade de expressão e quando se confirma o aumento da repressão, incluindo os ataques do Governo ao principal partido da oposição (Partido Republicano do Povo, CHP), a todos os níveis.
Em finais de junho 26 presidentes de câmara do CHP estavam na prisão, e as ações repressivas prosseguiram, em particular dirigidas ao seu líder Özgür Özel, que após a sua eleição para a liderança do partido obteve uma vitória histórica nas municipais de março de 2024, tornando o seu partido o mais votado a nível nacional, um cenário que não ocorria há décadas e que garantiu ao CHP o controle das principais cidades do país, até ao “contra-ataque” governamental.
A Cupula da OTAN Ancara 2026, a 36ª da organização militar e a segunda que decorre em território da Turquia, ocorreu no Complexo Presidencial e reuniu os dirigentes dos 32 Estados-membros.
Os responsáveis oficiais não relacionaram estas novas ondsa de prisões com a realização da Cúpula, mas a “coincidência” não deixa muitas dúvidas. Cerca de 40.000 agentes dos serviços de segurança foram mobilizados para o evento. Nas ruas e avenidas em direção ao Complexo Presidencial, com a circulação apenas acessível aos dignitários visitantes e suas comitivas, já estão colocados os painéis, cartazes e anúncios que glorificam a indústria de Defesa da Turquia e da OTAN..