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Em Amsterdã, a esquerda quer disputar o poder

23 de fevereiro de 2026

Sintetizamos um artigo de Vijay Prashad, publicado na Jacobina sobre o surgimento do “De vonk” (A Faísca), um novo partido de esquerda em Amsterdã, na Holanda.


Após anos de organização à margem da política eleitoral, um novo partido de esquerda em Amsterdã está concorrendo a uma vaga na câmara municipal. Seus líderes argumentam que os movimentos sociais não precisam apenas se manifestar — eles também precisam tomar o poder do Estado.

Amsterdã já foi uma das grandes capitais do mundo, o ponto de partida de grandes navios rumo às Américas e às ilhas da Indonésia para comercializar e conquistar. Há lembranças dessa história por toda a cidade, resquícios de seu passado imperial. Mas a grandeza que ainda existe hoje parece um tanto decadente, com a cidade marcada por um declínio nos investimentos em seus serviços públicos e uma ampla insatisfação com seus líderes políticos. Amsterdã ainda é uma cidade portuária, mas agora é principalmente uma cidade turística: um município com menos de um milhão de habitantes que atrai mais de vinte milhões de turistas por ano.

Há grafites por toda Amsterdã que também remetem à enorme manifestação do ano passado, com 250 mil pessoas, contra o apoio do governo holandês ao genocídio de Israel contra os palestinos, e ao vandalismo dos apoiadores do clube de futebol judaico Maccabi Tel Aviv, que tomaram a cidade clamando pela morte dos árabes.

Chris Kaspar de Ploeg nasceu em Amsterdã em 1994 (32 anos), alguns anos depois do colapso da União Soviética. Criado por pais que lhe transmitiram um forte senso de justiça, o fato de vir de uma família mista de armênios e judeus sefarditas também contribui para isso — a memória do genocídio em sua própria história familiar ainda está viva em sua consciência. Chris conta sobre a Amsterdã que ele quer construir, uma Amsterdã “livre de genocídio”. “Vamos nos livrar de empresas cúmplices de genocídio, como a Booking.com”, diz ele. “Assim como dos fundos de investimento que estão comprando nossas casas, como a Blackstone.” O “nós” aqui se refere ao “De Vonk” (A Faísca), uma nova formação de esquerda na Holanda que lançará candidatos nas eleições municipais de Amsterdã em 2026. Chris De Ploeg encabeça a lista do partido nessas eleições.

Os estudantes têm o direito de sonhar

Na segunda década do século XXI, quando Chris ingressou na Universidade de Amsterdã, as contradições da guerra e da globalização atingiram a Europa com força. Tendo-se unido a uma nova “OTAN global” durante a “guerra ao terror”, os países europeus se viram cada vez mais envolvidos em guerras terríveis, provocadas em grande parte pelos Estados Unidos. Para jovens como Chris, a sensação era de que viviam em uma civilização da guerra, com a OTAN remodelada no mundo pós-Guerra Fria como um exército imperial.

Em 2015, os problemas criados pela guerra e pela globalização culminaram em uma das revoltas mais significativas da história recente da Holanda. A administração da Universidade de Amsterdã anunciou um projeto (Profiel2016) para direcionar recursos para cursos que levassem a carreiras específicas, reduzindo drasticamente o investimento em humanidades. Os estudantes se organizaram e ocuparam o Bungehuis, o prédio da faculdade de humanidades. Após onze dias de ocupação, estudantes e professores simpatizantes também ocuparam o Maagdenhuis, o centro administrativo da universidade. Por quase dois meses, o prédio administrativo foi transformado em um experimento auto-organizado. Os Países Baixos estavam assolados por cortes orçamentais e as ideias que germinaram na universidade repercutiram por todo o país.

Os estudantes tinham uma profunda percepção do ataque de classe à universidade. Isso era acompanhado por uma crescente sensação de inquietação sobre como o governo havia começado a usar o conhecimento como arma contra os oprimidos. A Universidade de Amsterdã exigia um currículo mais progressista e também pedia a adesão aos princípios do movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) contra Israel. “A solidariedade deixou de ser uma ideia”, diz Chris sobre aquele período, “e se tornou uma prática — algo que te alimenta, te completa, te transforma.”

Construindo intimidade democrática

A política holandesa é profundamente frustrante, com os partidos de antigas tradições de esquerda e centro-esquerda (como o GreenLeft e o Partido Trabalhista) servindo agora como apologistas neoliberais da OTAN, enquanto a velha direita foi ainda mais para a direita, tornando-se abertamente racista e imperialista.

Para esse movimento de jovens, não havia espaço na política holandesa convencional. Formaram Aralez, uma rede anticolonial de base para educação política e construção de movimentos. Eles tinham em mente o projeto de moldar um novo tipo de força política. Muito antes do genocídio na Palestina despertar uma nova geração, eles já uniam diversos movimentos, grupos e comunidades, fundamentando-os em práticas de solidariedade internacional, para “renovar a cultura de resistência” na Holanda. Este não era apenas um projeto de crítica, mas também de construção de poder político, visto que criaram programas de treinamento para ativistas de diversos movimentos aprimorarem suas habilidades e pensamento estratégico.

O objetivo era reunir pessoas de diferentes organizações e movimentos, construindo uma intimidade democrática entre elas. “Em todo lugar”, diz Chris, “as pessoas estão criando fissuras no sistema. E essas fissuras contam uma história”. “A confiança é fundamental para qualquer projeto político. E é a intimidade entre iguais que ajuda a construir confiança e manter conexões, mesmo que pequenas diferenças políticas possam surgir.” Existem lutas maiores do que pequenas diferenças, e esse processo de reconstrução de uma sociedade de esquerda contribuiu imensamente para preparar Amsterdã para o surgimento do BIJ1 e De Vonk.

As origens do De Vonk

A organização BIJ1 (palavra holandesa para “juntos”) foi fundada em 2017 pela apresentadora de TV e rádio Sylvana Simons para concorrer às eleições com base em um programa antirracista (o nome do partido era inicialmente Artikel 1, em referência ao primeiro artigo da Constituição holandesa, que proíbe a discriminação racial). A forma inicial do partido tinha raízes nas comunidades afro-holandesas ligadas às antigas colônias da Holanda e, em menor grau, às comunidades de imigrantes muçulmanos que sentiram o impacto da guerra contra o terror.

O BIJ1 era amplamente de esquerda, mas não tinha uma posição ideológica clara sobre o mundo e sobre a posição da Holanda nele. Essa falta de unidade ideológica levou a constantes disputas internas, com sete dos oito conselheiros em todo o país abandonando o partido ou se separando.

Em 2024, o De Vonk surgiu de uma cisão com o BIJ1, impulsionado principalmente pelo desejo dos membros do novo grupo de seguir uma linha de massas e construir um partido de massas de esquerda. Eles reuniram vários pequenos partidos de esquerda da cidade, incluindo o maior partido estudantil da Universidade de Amsterdã (o Activistenpartij UvA) e Partido Socialista Revolucionário, que surgiu da insatisfação com a velha guarda do Partido Socialista (Socialistische Partij). Este último expulsou toda a sua ala jovem em 2021 após alegar que haviam se inclinado demais para a esquerda e governou a cidade de Amsterdã entre 2018 e 2022 com o Partido Popular para a Liberdade e a Democracia (VVD), de direita, partido do atual secretário-geral da OTAN, Mark Rutte.

A esquerda na Holanda, mesmo em sentido amplo, encontra-se em seu ponto mais baixo na história do país, detendo não mais que 20% das cadeiras no parlamento. Sem um espaço crível na esquerda parlamentar, o De Vonk começou a atrair pessoas que nunca depositaram sua fé em partidos políticos, algumas das quais estão se filiando pela primeira vez na vida, como é o caso de Chris. O grupo se baseia em anos de organização fora da política eleitoral, junto a movimentos locais, e adota suas plataformas como centrais para suas reivindicações (como o Manifesto da Habitação, o Manifesto Move, a Constituição de Rider, o Manifesto das Reparações, o Manifesto contra a Islamofobia, o Manifesto Negro e as Demandas do BDS).

O De Vonk propõe reformas abrangentes na cidade que viabilizariam transporte público gratuito, construção em larga escala de moradias sociais, energia verde acessível e produção de alimentos, além da arborização da cidade e da erradicação da pobreza. Eles querem financiar esses programas aumentando os impostos sobre o turismo e a propriedade, mas também argumentam que ir além da reforma será necessário.

Numa cidade com mais casas vazias do que sem-teto, a expropriação dos ricos e poderosos parece inevitável. Alcançar tais objetivos exige organização, e é exatamente assim que pretendem usar sua plataforma na câmara municipal: como um meio de fortalecer os movimentos da cidade. Em seu programa eleitoral, menciona:

É por isso que nós, como partido, devemos nos manter fiéis a uma linha revolucionária. Ouvimos as ruas, não Haia [a capital dos Países Baixos] ou a Stopera [prefeitura]. Nossa lealdade vai para os movimentos que lutam dia após dia por um mundo justo. Nossa lealdade vai para todas as iniciativas de bairro e para os moradores de Amsterdã que simplesmente fazem o melhor que podem. Somos parte integrante desses mesmos movimentos, não uma máquina política que só almeja cadeiras.

Um mundo cheio de feridas

Em fevereiro de 2022, Chris já havia escrito seu livro “Ukraine in the Crossfire” [Ucrânia no Fogo Cruzado], a primeira análise profunda e de esquerda sobre o conflito a ser publicada, editada pelo marxista ucraniano Volodymyr Ishchenko.

Um dos aspectos mais cativantes da personalidade de Chris é sua insistência no futuro. “O mundo não deveria ser dividido entre ricos e pobres, ou poderosos e impotentes, mas entre aqueles que acreditam que a mudança é possível e aqueles que não acreditam — e que muitas vezes buscam impedi-la.” A desigualdade de riqueza e poder é central em seu pensamento, mas ainda mais importante é o desejo de transformar o mundo, afastando-o da hierarquia e aproximando-o do igualitarismo. “Herdamos um mundo cheio de feridas”, diz Chris. “Mas as feridas também são aberturas. Através dessas aberturas respiramos, observamos e nos movemos.”

As eleições municipais de Amsterdam se realizarão no 18 de março de 2026.