Voltar ao site

Iván Cepeda fala sobre o risco de interferência dos EUA nas eleições colombianas

UMA ENTREVISTA COM IVÁN CEPEDA

29 de janeiro de 2026

UMA ENTREVISTA DE Pablo Castaño

TRADUÇÃO
PEDRO SILVA

O candidato presidencial colombiano de esquerda, Iván Cepeda, conversou com a Jacobin sobre as realizações de Gustavo Petro, o ataque dos EUA à Venezuela e as perigosas intervenções do governo Trump na América Latina.

Iván Cepeda é senador pelo Pacto Histórico, a aliança de esquerda que apoiou a eleição do presidente colombiano Gustavo Petro, e seu candidato para sucedê-lo na presidência nas eleições gerais de maio e junho de 2026. Defensor dos direitos humanos, Cepeda tem uma longa carreira política que o levou, em diferentes momentos, a atuar no Partido Comunista, na União Patriótica, na Aliança Democrática M-19 (partido que surgiu após a desmobilização do grupo guerrilheiro M-19 em 1990, ao qual Petro pertencia) e, posteriormente, no Polo Democrático, agora fundido com outras forças no Pacto Histórico.

Cepeda é conhecido por seu papel em diversos processos de paz com o extinto grupo guerrilheiro Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e com o Exército de Libertação Nacional (ELN), uma força guerrilheira que permanece ativa após várias negociações fracassadas. Seu pai, Manuel Cepeda, deputado federal pela União Patriótica — partido que surgiu de um processo de paz com as FARC — foi assassinado em 1994 por paramilitares em uma campanha de extermínio dos líderes do partido, pela qual a Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou o Estado colombiano. Após o assassinato de seu pai, Cepeda promoveu o Movimento Nacional pelas Vítimas, com o objetivo de obter justiça para as pessoas assassinadas por agentes do Estado e paramilitares.

Cepeda também esteve envolvido no processo judicial que culminou na condenação inicial do ex-presidente Álvaro Uribe por obstrução da justiça em um caso relacionado às suas supostas ligações com grupos paramilitares. Mesmo com o desfecho do processo ainda incerto, ele se tornou o julgamento mais famoso da Colômbia na história recente e enfraqueceu Uribe, que continua sendo a principal figura da direita colombiana.

Passou pouco mais de uma semana desde o ataque dos EUA contra a Venezuela e o sequestro de Nicolás Maduro por ordem de Donald Trump, que também ameaçou repetidamente o presidente colombiano, quando nos encontramos com Cepeda. Ao contrário de Petro, conhecido por seu estilo hiperbólico e uso frenético das redes sociais, ele responde às perguntas com um tom firme, porém ponderado.

A Jacobin conversou com Cepeda em Madri, durante sua viagem para se encontrar com o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez e para realizar encontros com a grande diáspora colombiana no país.

PABLO CASTAÑO

Como você avalia o ataque dos EUA contra a Venezuela e as ameaças de Donald Trump contra a Colômbia e outros países da região?

IVÁN CEPEDA

Não considero esses eventos aleatórios ou isolados. Todos eles estão contidos na nova doutrina dos Estados Unidos em relação ao hemisfério ocidental, claramente definida na Estratégia de Segurança Nacional divulgada em dezembro. Essa estratégia possui uma seção intitulada “O Corolário Trump à Doutrina Monroe”, onde afirma explicitamente que os Estados Unidos têm o direito de exercer hegemonia sobre todo o hemisfério ocidental para manter seus objetivos e metas estratégicas e exercer controle político, econômico e militar sobre a região.

Isso indica claramente como operar: classificar governos como amigos ou, se forem contrários aos seus interesses estratégicos, como inimigos. Consequentemente, serão tratados com chantagem e pressão caso não sigam as diretrizes de Washington. Ou simplesmente serão depostos ou eliminados, como vimos na Venezuela e começamos a ver na Colômbia. Essas não são ações aleatórias; nem devem ser consideradas separadamente, mas sim dentro dessa visão global da extrema-direita neofascista internacional.

Somos uma zona de paz e não aceitamos interferência estrangeira.”

PC

Você dá credibilidade às ameaças de Trump contra o presidente Gustavo Petro?

IC

É preciso dar total credibilidade, não sei se a uma intervenção direta, mas certamente à hostilidade de Trump e do governo dos EUA contra o nosso governo, e à intenção de impedir o avanço do progressismo na Colômbia. O presidente Petro foi incluído na “Lista Clinton”, que reúne os cidadãos que os Estados Unidos consideram traficantes de drogas ou que possuem bens ligados ao narcotráfico. Trata-se de um ato abertamente hostil, sem qualquer justificativa pública. É a primeira vez que isso acontece contra um presidente da Colômbia.

Também vimos bombardeios em nossas costas e a descredenciação da Colômbia [como nação que combate o narcotráfico] após um imenso esforço nesse sentido. Tudo indica que estão preparando o terreno não só para dificultar cada vez mais a governança de Petro, mas também para frustrar minha possibilidade de ser eleito.

PC

Você teme uma intervenção direta dos Estados Unidos nas próximas eleições?

IC

Sim. Quando uma potência estrangeira emite opiniões contrárias a um governo durante um período eleitoral, afirmando que esse governo tem uma postura favorável em relação a organizações criminosas e que isso pode ter um efeito prejudicial na região, isso tem um propósito. Figuras próximas ao presidente Trump, tanto congressistas quanto funcionários do governo, já se manifestaram nesse sentido.

PC

Além das declarações, você acredita que poderia haver uma intervenção mais direta do governo dos EUA durante a campanha e as eleições presidenciais e legislativas deste ano na Colômbia?

IC

Veremos. Existe um perigo real. Há precedentes.

PC

A conversa telefônica entre Petro e Trump em 8 de janeiro resolve a situação ou será apenas uma pausa?

IC

É bem-vindo o apelo se o objetivo for reduzir a hostilidade. Mas certamente não é apenas com telefonemas que a situação se resolve. Há fatos evidentes: um gigantesco porta-aviões na costa da Colômbia, uma presença militar sem precedentes e o presidente na lista de narcotraficantes. Apelos são bem-vindos, mas esses fatos permanecem.

Miami e a Flórida se tornaram um centro da política internacional, coordenando os esforços da extrema direita hemisférica.”

PC

Durante o ano de 2025, Trump realizou atos hostis contra vários países da América Latina, mas nenhuma organização regional — como a CELAC ou a Unasul — conseguiu chegar a um consenso sobre uma posição comum. Você acredita que, após o ataque contra a Venezuela, uma maior unidade poderá ser alcançada na região, inclusive com governos conservadores?

IC

Mais do que um evento específico, é preciso compreender o momento político e histórico em que nos encontramos e a clara orientação adotada pelo governo dos EUA. Sem uma visão panorâmica, corre-se o risco de adotar um comportamento reativo ou adaptativo. Os eventos continuam a ocorrer e declarações caóticas são feitas. Cada golpe é mais severo que o anterior, mas reagimos como se fosse possível reverter a tendência.

Devemos agir com uma visão estratégica, que transcenda eventos isolados. Devemos estabelecer uma posição estratégica: Somos um continente soberano. Somos países independentes. Temos processos de unificação, que cultivamos há muito tempo, e que devem ser fortalecidos. Somos uma zona de paz. E não aceitamos interferência estrangeira. É assim que governos e povos devem se alinhar.

PC

A esquerda foi derrotada nas eleições recentes no Chile, Honduras, Argentina e Bolívia, em vários casos pela extrema-direita. Como você explica o rápido crescimento da extrema-direita na América Latina nos últimos anos?

IC

Seria preciso analisar cada caso individualmente — não creio que possam ser generalizados sem considerar as condições específicas. Mas a influência do governo Trump é significativa. Miami e a Flórida se tornaram um centro da política internacional, coordenando os esforços da extrema-direita hemisférica. Elas contam com poderosos conglomerados econômicos, que recorrem a todos os tipos de métodos. Ao contrário da política praticada pela esquerda, os métodos sujos da política são comuns na extrema-direita. Essa ofensiva estratégica no continente — tudo isso contribui para o cenário. Há também um fortalecimento da esquerda em certos países e mobilizações sociais em todos eles.

PC

Como reagiu a direita colombiana às ameaças de Trump?

IC

A extrema-direita está alinhada com Trump e com os setores mais reacionários dos Estados Unidos, a começar pelo seu líder, Álvaro Uribe. Diariamente, eles recorrem à mídia para promover a intervenção dos EUA na Colômbia.

PC

Essa posição poderia prejudicá-los eleitoralmente?

IC

Sem dúvida. Pode haver algum apoio em certos setores, tão desprovidos de dignidade, a tal proposta, mas no país existe um sentimento de soberania e respeito pela nossa nação. Isso, acredito, tem efeitos eleitorais.

PC

A esquerda chegou ao poder na Colômbia pela primeira vez há quatro anos com um ambicioso programa de reformas sociais. Qual a sua avaliação da presidência de Gustavo Petro?

IC

Este é o primeiro governo que promoveu mudanças sociais, [embora] nem todas as mudanças desejadas tenham sido concretizadas e não estejam isentas de erros, lacunas e falhas — por exemplo, tivemos que lidar com a corrupção, um problema grave que precisa ser erradicado, e as condições devem ser criadas para que isso não volte a acontecer em um governo de esquerda. Há conquistas sociais evidentes, confirmadas por dados estatísticos, organizações internacionais e pelo simples fato de haver uma base social muito ampla que apoia nosso governo e minha candidatura.

“O governo de Petro conseguiu tirar mais de dois milhões de pessoas da pobreza.”

Foi o primeiro governo a implementar uma reforma agrária séria, distribuindo uma quantidade de terras sem precedentes, incomparável aos governos anteriores, e formalizando os títulos de propriedade para comunidades camponesas, afrodescendentes e indígenas. Iniciou transformações territoriais; conseguiu tirar mais de dois milhões de pessoas da pobreza; aumentou significativamente o salário mínimo e implementou reformas trabalhistas e previdenciárias. É o primeiro governo a realizar uma reforma tributária que segue o princípio da tributação progressiva: quem tem mais deve pagar mais. Há uma longa lista de conquistas sociais, que se refletem no apoio popular ao governo e à minha candidatura.

PC

Quais são as principais tarefas pendentes da esquerda colombiana?

IC

Devemos nos concentrar em reformas sociais específicas, aprofundá-las para que se tornem irreversíveis. Para tirar muitos colombianos da pobreza, é necessário combater a desigualdade social com medidas profundas de mudança e reforma dos programas sociais. É a isso que me dedicarei. A melhor maneira de fazer isso é priorizando e fortalecendo um conjunto relativamente pequeno de iniciativas.

PC

Petro propôs alcançar a “paz total”, mas o conflito interno permanece ativo na Colômbia. Se você for eleito presidente, o que fará para pacificar o país?

IC

Devemos nos empenhar na resolução do problema nos territórios afetados pelo conflito. Se não houver mudanças sociais nesses territórios — mudanças básicas, como o fornecimento de água, eletricidade e vias de comunicação — será muito difícil para a economia camponesa e agrícola prosperar.

Sem isso, toda a área fica vulnerável ao controle econômico do território por meio da exploração de recursos minerais, mineração ilegal de ouro e tráfico de drogas. Nessas circunstâncias, em que as economias estão atreladas aos processos sangrentos de exploração de recursos e pessoas, o conflito encontra um terreno muito mais fértil para se intensificar.

PC

Gustavo Petro venceu as eleições de 2022 após uma forte mobilização social antineoliberal. Qual o papel que os movimentos sociais desempenharam no governo de Petro e qual será o seu papel na campanha da esquerda?

IC

Do meu ponto de vista, um papel central, de liderança e indispensável. Não pode haver um novo governo progressista que não esteja intimamente e organicamente ligado aos movimentos sociais. É com eles que se deve governar.

PC

Como isso é feito na prática?

IC

É feito com cuidado e atenção, priorizando-o como uma questão essencial. Deve haver uma presença e um diálogo permanentes, uma atitude constante de escuta e diálogo. Não se trata de um diálogo sem contradições ou desacordos, mas ele deve ser feito, levando em consideração o que [os envolvidos nos movimentos sociais] pensam, como lutaram, como afirmaram seus programas e aspirações.

é jornalista freelancer e cientista político. É doutorado em Política pela Universidade Autónoma de Barcelona e escreveu para Ctxt, Público, Regards e The Independent.

Iván Cepeda

é um senador colombiano do Pacto Histórico e candidato à presidência nas eleições de 2026.