O que podemos – e devemos – fazer para nos defender de Trump

Juliano Medeiros

Imagem: Reprodução Brasil de Fato


O ataque de Trump contra a Venezuela, com o sequestro de Nicolás Maduro e da deputada Cília Flores, sua esposa, deram um recado para toda a América Latina: o tempo das agressões militares estão de volta. Foi o sétimo país bombardeado pelos Estados Unidos desde a posse de Trump, mas o primeiro no continente. Antes ele havia autorizado ataques na Síria, Irã, Iraque, Nigéria, Iêmen e Somália.

Não tardou para que as narrativas oficiais da Casa Branca fossem rapidamente descartadas. A ameaça de agressão, outrora justificada pela “guerra à drogas” ou pela necessidade de “levar a democracia” à Venezuela, se materializou com uma franqueza inesperada: em seu primeiro discurso após os ataques, Trump admitiu que, na verdade, tudo se resumia ao controle das reservas petrolíferas do país sul-americano, as maiores do mundo.

Para frustração geral dos apoiadores de Trump, que esperavam uma troca rápida de governo na Venezuela, o que se seguiu aos ataques foi uma série de ações legislativas que buscam flexibilizar o controle estatal sobre o petróleo e abrir o mercado para empresas estadunidenses. Enquanto isso acontecer, Delcy Rodriguez continuará governando e as acusações de associação ao tráfico de drogas, corrupção ou violação de direitos humanos – tivessem elas alguma base na realidade ou não – permanecerão devidamente sobrestadas.

Mas o impacto dos ataques a Caracas vai muito além do território venezuelano. Ele mostra que a nova “Doutrina Donroe” representa uma ameaça grave à soberania dos países da América Latina. O uso de tarifas como se fossem sanções, como aconteceu com o Brasil, e a interferência nas eleições em Honduras e na Argentina, são algumas das opções que estão sobre a mesa de Trump quando se trata de tentar determinar os rumos da região.

Afinal, o que impede o governo estadunidense de usar uma narrativa qualquer – como o combate ao narcotráfico, por exemplo – para intervir militarmente em países como Brasil, Colômbia e México, hoje governados por coalizões lideradas por presidentes progressistas? Como aconteceu na Venezuela, Trump sempre poderá contar com algum apoio na elite de cada um desses países, que aplaudiriam de pé qualquer agressão imperialista.

Foi nesse contexto que aconteceu, em Bogotá, nos dias 24 e 25 de janeiro, a conferência “Nuestra América” convocada pela Internacional Progressista e pelo governo da Colômbia para discutir as alternativas no enfrentamento à ofensiva de Trump sobre a América Latina. O encontro aprovou um documento com uma série de ações emergências que buscam fortalecer a unidade das forças populares e construir uma abordagem que demonstre a gravidade da situação.

Mas, para além das ações mais imediatas, as esquerdas precisam encontrar aqueles pontos de resistência capazes de construir maiorias sociais duradouras contra qualquer agressão estrangeira. Em outras palavras, não basta denunciar os ataques contra a Venezuela – cujo governo está politicamente isolado na região há anos também por seus próprios erros – ou exigir a libertação de Maduro. É preciso construir uma maioria social em torno de temas que podem ser usados por Trump para intervir novamente na região. Em outras palavras, “fechar os flancos” que podem nos expor. Mencionaria ao menos três: os recursos naturais estratégicos, a transparência nos processos eleitorais e o tráfico de drogas.

Assim como a Venezuela é rica em petróleo, o Brasil é o segundo maior detentor de terras raras do mundo (só atrás da China); as maiores reservas de lítio do planeta estão na Argentina, Bolívia e Chile; enquanto a Amazônia – maior reserva de água doce e biodiversidade existente – faz parte do território de nada menos que nove países. Em muitos deles, o controle do Estado sobres esses recursos está fragilizado por anos de neoliberalismo e leis que facilitaram sua exploração privada.

Ao mesmo tempo, a defesa desses recursos é cheia de significado no imaginário popular. No caso do Brasil, a campanha “O Petróleo é nosso” nos anos 1950 é apenas um exemplo, já que a América Latina é repleta de episódios em que a defesa das riquezas naturais foi o estopim para processos de transformação social. Portanto, denunciar fortemente o interesse dos EUA nessas riquezas pode gerar um grau de coesão social decisivo para fazer frente a uma nova ofensiva imperialista na região, não obstante a enorme assimetria em relação à estratégia de cada governo para o uso desses recursos.

Outro elemento que tem potencial para forjar maiorias sociais contra Trump é a defesa dos processos eleitorais que a região viverá esse ano. As duas eleições mais importantes são justamente no Brasil e na Colômbia, dois países governados por presidentes progressistas. Embora não haja um histórico recente de fraudes eleitorais em nenhum dos dois países, isso não tem qualquer importância quando se trata dos Estados Unidos.

Aqui reside um desafio adicional em comparação com a defesa dos recursos naturais: a democracia em quase todos os países da região, por seu caráter excludente e altamente elitista, não passa de um significante vazio para boa parte do povo. Por isso, o enfrentamento a Trump deve se dar não como uma abstrata “defesa da democracia” – o que poderia significar a defesa das instituições de Estado que muitas vezes se manifestam apenas em sua dimensão repressiva – mas como defesa da soberania popular e da vontade das maiorias.

Por fim, o tema mais sensível: a chamada “guerra às drogas”. A política de simples repressão ao tráfico ditada pela Casa Branca conquistou política e ideologicamente boa parte da esquerda na região. Mesmo em governos progressistas, o desequilíbrio entre repressão, redução de danos e descriminalização é gritante. Aqui reside, portanto, um calcanhar de Aquiles.

Se quase todos os governos tratam as drogas como o grande problema social do século XXI – e não a desigualdade – como rejeitar o “apoio” de um aliado tão poderoso quanto os Estados Unidos em nossos territórios? Não é uma operação discursiva fácil. Ou as esquerdas começam a abandonar o paradigma falido da “guerra às drogas” ou deixaremos sempre um flanco aberto ao inimigo.

Esse desafio é enorme. As famílias destruídas pelo uso excessivo de substâncias entorpecentes – a pior delas, em termos quantitativos, o álcool – são parte da realidade de qualquer país das Américas. Portanto, assumir de uma hora para a outra o discurso da legalização das drogas em geral não é realista e só contribuirá para o isolamento das esquerdas. Mas sem gestos concretos, que apontem um caminho alternativo, ficaremos eternamente expostos a uma intervenção militar dos EUA em nossos países.

O encontro em Bogotá foi apenas um pequeno passo para explorar esse cenário. Todos estão conscientes que o futuro da região, em especial da América do Sul, passa pelos processos eleitorais no Brasil e na Colômbia, onde esses temas estarão presentes. Se administrados com inteligência e ousadia, podem ajudar a construir vitórias e formar maiores sociais sólidas contra o imperialismo.


Juliano Medeiros é historiador, Doutor em Ciência Política pela UnB, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP-SP) e ex-presidente do PSOL (2017-2023).