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Malvinas e a questão nacional

27 de julho de 2026

Uma bandeira na Copa do Mundo reabriu um debate que vai além das Malvinas. Diante de um internacionalismo que subestima as hierarquias imperiais e de um anti-imperialismo que apaga a luta de classes, a esquerda precisa recuperar uma concepção democrática de nação, soberania e internacionalismo.


A semifinal do Mundial entre Argentina e Inglaterra produziu uma cena inesperada. Ao final da partida, vários jogadores argentinos desfilaram no gramado uma bandeira em que se lia "As Malvinas são argentinas". O gesto foi surpreendente em uma seleção que, nos últimos anos, havia se mostrado, na melhor das hipóteses, apática em relação à política e, nos poucos pronunciamentos públicos de alguns de seus integrantes, não raramente abertamente de direita.


Desta vez, no entanto, os jogadores desafiaram uma proibição explícita da FIFA, que havia impedido a entrada de bandeiras e símbolos relacionados às Malvinas, uma medida respaldada pelo próprio governo ultradireitista argentino. Milei, que, como qualquer presidente, aspirava a se beneficiar da atmosfera de otimismo criada por um triunfo esportivo dessa magnitude, viu-se de repente desconfortável com a guinada política das comemorações. Após a exibição da bandeira, chegou a classificar os jogadores de "mononeuronais", em uma reação típica de sua desmedida.


Os jogadores sabiam que poderiam estar sujeitos a sanções, como a FIFA efetivamente começou a avaliar após a partida. Mas perceberam algo elementar: contra a Inglaterra, as Malvinas conectavam-se a um sentimento popular que precedia o jogo e transbordava amplamente o futebol.


Diante dessa imagem, Bhaskar Sunkara, fundador da Jacobin nos Estados Unidos, observou que "As Malvinas são argentinas" havia sido o lema de uma ditadura militar que assassinou milhares de ativistas e buscou salvar-se por meio de uma aventura irredentista. Argumentou que nunca houve uma população nativa deslocada e que se tratava, em todo caso, de dois Estados igualmente coloniais disputando um território. Acrescentou que deveria ser respeitada a vontade dos ilhéus e que a esquerda não deveria se extraviar em uma etapa desnecessariamente nacionalista da luta política.


As respostas argentinas foram imediatas, massivas e, frequentemente, agressivas. Muitas não se limitaram a questionar sua interpretação sobre as Malvinas. Negaram que nos Estados Unidos ou na Europa exista uma esquerda que não seja, em última instância, um instrumento do imperialismo. Na versão relativamente moderada, a esquerda estadunidense seria apenas um apêndice do Partido Democrata; na mais rudimentar, uma prolongação da CIA. Voltarei mais adiante a essa reação, que revela um problema distinto, embora complementar, ao erro de Bhaskar. Antes, é preciso estabelecer os elementos básicos da reivindicação argentina.


Uma questão colonial


A posição de Bhaskar parte de um erro de interpretação sobre a reivindicação argentina. Em 1833, o Reino Unido ocupou as ilhas à força, expulsou as autoridades e o núcleo de gaúchos, crioulos e trabalhadores estabelecidos sob a jurisdição de Buenos Aires, e instaurou uma administração colonial que a Argentina nunca reconheceu. Desde 1965, a própria ONU considera que se trata de um caso pendente de descolonização e não reconhece os kelpers (ilhéus) como um povo com direito a dirimir o diferendo mediante a autodeterminação.


Os kelpers não são uma população originária, mas sim uma comunidade constituída sob a potência ocupante e cuja composição foi moldada por ela. Converter o resultado demográfico da colonização no fundamento da soberania equivaleria a reconhecer como fonte de direito o fato colonial consumado. A guerra criminosa de 1982 não criou nem anulou a reivindicação argentina; apenas permitiu que a ditadura tentasse se apropriar de uma causa anterior a ela.


Também não estamos diante de uma mera relíquia cartográfica. As Malvinas são um enclave militar britânico no Atlântico Sul. O complexo de Mount Pleasant abriga infraestrutura aérea, naval e terrestre e faz parte do dispositivo militar externo de uma das principais potências da OTAN. Sua posição facilita a projeção britânica sobre o Atlântico Sul e o acesso à Antártida.


O controle territorial permite ainda administrar recursos pesqueiros, marítimos e de hidrocarbonetos. A questão Malvinas reúne, assim, território, força militar, recursos e posição estratégica. Não se trata apenas de uma disputa herdada do século XIX, mas de uma relação colonial ainda ativa.


Nada disso explica por si só o lugar singular que as Malvinas ocupam na cultura política argentina. Enquanto inúmeras controvérsias territoriais sobrevivem apenas nos arquivos diplomáticos, a questão Malvinas atravessou governos, gerações e clivagens políticas muito diversas. Há muito tempo deixou de ser unicamente um território ocupado para se tornar o ponto de condensação de múltiplas demandas insatisfeitas, articuladas em torno da aspiração a uma soberania nacional ainda incompleta.


A questão nacional e o socialismo


O interesse das Malvinas excede, portanto, o litígio territorial. Obriga a retomar uma questão que a política socialista ainda explorou de maneira insuficiente: que significado têm hoje a nação e as demandas nacionais para um projeto emancipador.


Durante boa parte do século XX, a nação ocupou um lugar central na reflexão marxista. As controvérsias entre Lênin, Rosa Luxemburgo e o austromarxismo, a elaboração gramsciana sobre o nacional-popular ou as teorias anticoloniais partiam de um pressuposto compartilhado: a nação constituía uma realidade política que não podia ser ignorada. Esse debate, no entanto, foi se eclipsando com o passar das décadas.


A nação não possui um conteúdo político fixado de antemão. As nações não agem nem falam. Sempre há forças sociais que falam em seu nome, disputam sua representação e procuram identificar seus próprios interesses com os do conjunto. A nação não constitui um sujeito homogêneo. É o terreno sobre o qual se trava uma luta para definir o interesse geral.


O marxista austríaco Otto Bauer definiu a nação como uma "comunidade de caráter" formada historicamente por uma "comunidade de destino". A ênfase recaía sobre a história material, não sobre a natureza. A nação não é uma raça, uma língua nem uma essência imutável, mas o sedimento de uma experiência compartilhada. Bauer entendeu a nação como o espaço histórico no qual grupos profundamente diferentes, unidos pelas condições materiais de sua vida comum, forjam uma cultura e um destino entrelaçados.


Nesse sentido, a nação tampouco deve ser entendida principalmente como uma identidade cultural. É, sobretudo, a forma histórica que assume a aspiração ao autogoverno democrático. A globalização não modificou esse fato. Os direitos, a cidadania, a representação política, os impostos, os bens públicos e os conflitos distributivos continuam se organizando, no essencial, dentro de comunidades nacionais. A nação não é o horizonte definitivo da emancipação, mas continua sendo a principal escala na qual as sociedades tentam governar a si mesmas.


Em um sentido semelhante, Gramsci deslocou a discussão desde a identidade nacional em direção à hegemonia. A pergunta decisiva não é o que a nação expressa, como se possuísse uma voz própria, mas sim que força consegue construir uma vontade coletiva capaz de se apresentar como nacional. O nacional-popular designa o processo mediante o qual interesses inicialmente particulares se transformam em um projeto de organização do conjunto social. A nação deixa de ser uma tradição estática para se tornar uma construção política.


Por isso é equivocado entregar o patriotismo à direita, como assinalou Jacopo Custodi. Retirar-se do terreno nacional permite que outros ocupem um dos sentimentos mais resilientes das sociedades modernas e definam a pertença comum em termos étnicos, autoritários ou excludentes. O risco é ainda maior em um contexto de crise das identidades partidárias e ideológicas, quando a nação conserva uma capacidade de interpelação que outras formas de pertencimento perderam.


As Malvinas adquirem, então, um significado diferente. Não representam apenas a restituição de umas ilhas. Condensam a aspiração de uma comunidade política à autodeterminação coletiva. Sua persistência provém de uma experiência histórica: a percepção, amplamente difundida, de que as decisões fundamentais sobre o país são tomadas com demasiada frequência fora dele. Em termos gramscianos, essa percepção contém um núcleo de bom senso, embora apareça formulada de maneira imperfeita. As decisões antipopulares não são tomadas unicamente por poderes externos, mas também por uma classe dominante local que participa ativamente dessas relações de subordinação. Mas esse núcleo continua oferecendo um ponto de apoio dentro do senso comum para uma política socialista.


O imperialismo depois de Lenin


A importância das Malvinas remete, então, à relação desigual entre uma potência militar e colonial e uma sociedade periférica. A teoria clássica sobre o imperialismo (Hilferding, Bukharin, Lênin) acertou ao mostrar que o capitalismo não produz um mercado mundial homogêneo, mas sim uma hierarquia de Estados com capacidades econômicas, políticas e militares muito desiguais. Mas essa teoria se mostra hoje insuficiente. A concentração e os monopólios não eliminaram a concorrência; a exportação de capital não implica por si só o estagnação da periferia; o capitalismo não entrou em uma fase de esgotamento definitivo; e a rivalidade entre potências não conduz inevitavelmente a guerras diretas, como mostra um pós-guerra sem conflagrações interimperialistas comparáveis às da primeira metade do século XX. Muitas dessas fragilidades levaram alguns marxistas (desde Hardt e Negri até William I. Robinson) a considerar superada a própria categoria de imperialismo. Mas das limitações da teoria clássica não se segue que o imperialismo tenha desaparecido, mas sim que deve ser pensado de outro modo. Embora seja tema para outro artigo, vou me limitar a precisar alguns elementos.


David Harvey propôs uma distinção útil entre a lógica da acumulação capitalista e a lógica territorial dos Estados. A primeira busca lucros, mercados e recursos; a segunda, controle estratégico, segurança e posição geopolítica. O imperialismo pode ser entendido como o ponto de interseção, sempre instável, entre ambas. Uma teoria atualizada deve conservar a intuição de Lênin, mas reconhecer que essas lógicas não são idênticas e têm origens distintas: a expansão territorial dos Estados é anterior ao capitalismo, enquanto a acumulação burguesa responde à concorrência pela rentabilidade. Também deve abandonar toda ideia de um esgotamento definitivo do capitalismo. O imperialismo designa, assim, a articulação variável entre a expansão mundial do capital e a concorrência dentro de um sistema desigual de Estados.


As Malvinas tornam visível essa articulação. O enclave militar britânico, a projeção sobre o Atlântico Sul e a Antártida respondem a uma lógica geopolítica; o controle de recursos pesqueiros, marítimos e de hidrocarbonetos, a uma lógica de acumulação. A ocupação persiste porque ambas as dimensões se reforçam mutuamente.


O falso anti-imperialismo


As reações ao comentário de Bhaskar puseram em relevo um problema inverso. Uma velha ideia do nacionalismo conservador argentino sustenta que nos países centrais não existe uma esquerda verdadeira, mas apenas distintas variantes políticas do imperialismo.


A tese, é claro, carece de sustentação histórica. Desde o século XIX, as classes trabalhadoras da Europa e dos Estados Unidos construíram sindicatos, partidos socialistas, organizações comunistas e movimentos contra a guerra e o colonialismo. Também algumas das maiores campanhas contemporâneas de solidariedade internacional surgiram dentro dessas sociedades e contra seus próprios governos, desde as mobilizações contra a invasão do Iraque até o atual movimento em apoio à Palestina.


Por trás dessa negação supostamente anti-imperialista reaparece um tópico conhecido: esquerda e direita seriam categorias estrangeiras, incapazes de captar a singularidade argentina. Essa "excepcionalidade" costuma reciclar os tópicos anticomunistas do nacionalismo de direita: o marxismo como doutrina importada e a convicção de que toda esquerda dos países centrais termina sendo, em última instância, uma expressão política de seu próprio imperialismo. O percurso não deixa de ser paradoxal. Começa-se negando a existência de uma esquerda nos Estados Unidos ou na Europa e termina-se pondo em questão a própria distinção entre esquerda e direita. Quem nega uma esquerda autêntica nos países centrais acaba negando a esquerda como tal, também em seu próprio país, e esvaziando de conteúdo o anti-imperialismo, que requer internacionalismo e solidariedade entre as lutas de diferentes povos. Como observava ironicamente Alain Touraine, quando alguém sustenta que já não existem a esquerda e a direita, o mais provável é que seja de direita.


O efeito político é claro. Se a nação constitui uma unidade homogênea confrontada com inimigos externos, a aliança com alguma fração da burguesia local ou com uma direita que se proclama patriótica aparece como uma consequência natural. Lá fora, todos imperialistas; cá dentro, todos irmãos. O nacionalismo mais rasteiro substitui a luta de classes.


É muito comum que nesses debates se evoque o nome de José Carlos Mariátegui contra o marxismo proveniente dos países centrais. Sua fórmula "nem calco nem cópia" costuma ser repetida como um mantra para desconfiar de toda categoria produzida fora da América Latina. Mas Mariátegui, um autor muito mais citado do que lido, como insiste Martín Bergel, foi exatamente o oposto de um pensador encerrado na particularidade peruana. Analisou seu país em diálogo com o melhor do marxismo e da cultura europeia de seu tempo. Sua originalidade não nasceu do isolamento, mas de uma apropriação cosmopolita e criadora. "Nem calco nem cópia" significava traduzir criticamente, não se enclausurar na particularidade latino-americana.


Anti-imperialismo e luta de classes não são alternativas. Alguns apagam o primeiro e reduzem o mundo a uma oposição abstrata entre capitalistas e trabalhadores. Outros apagam a segunda e convertem a nação em uma unidade sem antagonismos. Os primeiros não distinguem entre uma potência imperial e uma sociedade subordinada. Os segundos apagam a luta de classes em nome do anti-imperialismo e subordinam as classes populares à burguesia local ou a uma direita nacionalista em nome do interesse nacional.


A soberania como promessa democrática


As Malvinas importam porque condensam, em um país periférico, aspirações profundamente enraizadas de soberania nacional e popular. Essa promessa excede a restituição territorial. Inclui o controle dos recursos, a capacidade de resistir a pressões externas e a possibilidade de organizar a vida coletiva sem tutelas imperiais. São, precisamente, as dimensões que um governo de extrema direita, alinhado incondicionalmente aos Estados Unidos, coloca em perigo.


Isso não torna progressiva toda reivindicação nacional. A questão nacional é sempre um terreno de disputa. Pode assumir formas militaristas, xenófobas ou autoritárias. Pode ser instrumentalizada para fins reacionários, como ocorreu quando a ditadura tentou se apropriar da bandeira das Malvinas em 1982. Mas também pode se converter na linguagem política de uma demanda por emancipação democrática.


Esse é, precisamente, o significado político das Malvinas na Argentina contemporânea. Expressa a percepção, profundamente enraizada, de que a soberania do país permanece incompleta. Por isso a bandeira desfraldada pelos jogadores após a partida com a Inglaterra encontrou um consenso muito mais amplo do que qualquer governo ou força política. Nomeava uma experiência histórica compartilhada.

As Malvinas sobreviveram à ditadura porque nunca lhe pertenceram. A Junta tentou se apropriar de uma causa anterior a ela, mas não conseguiu fixar definitivamente seu significado. Reduzir a reivindicação à aventura militar de 1982 equivale, paradoxalmente, a aceitar que a ditadura pôde transformar as Malvinas em patrimônio exclusivo de seu nacionalismo reacionário.


A tarefa de uma esquerda internacionalista não consiste em abandonar esse terreno, mas em disputá-lo. Deve ligar a soberania nacional à soberania popular, o anti-imperialismo à luta de classes e o patriotismo democrático à solidariedade entre os povos. Enquanto existirem relações imperialistas, a questão nacional continuará sendo uma das formas fundamentais que assume a luta pela democracia e pelo socialismo.



MARTÍN MOSQUERA

Bacharel em Filosofia, docente da Universidade de Buenos Aires e Editor Principal da Jacobin América Latina.