Via Jacobin AL
Não é possível compreender a dimensão da batalha que a esquerda colombiana está travando sem examinar atentamente a história do país. O Pacto Histórico não representa apenas uma opção eleitoral, mas uma resposta popular a séculos de captura violenta do Estado por parte de elites inescrupulosas.
No último domingo, 8 de março, a Colômbia voltou às urnas. Não apenas se renovou o Congresso — 183 representantes à Câmara e 103 senadores —, mas também se reposicionaram as peças dentro dos diferentes blocos políticos do país. Três consultas interpartidárias disputaram o tabuleiro presidencial. De um lado, a chamada Grande Consulta, na qual confluíram a direita e a extrema direita. No centro, formou-se a Consulta das Soluções. E, paralelamente, o campo próximo ao Pacto Histórico se agrupou sob o nome de Frente pela Vida.
O Pacto decidiu participar com listas fechadas, uma aposta pensada para evitar que o voto se disperse e para frear, na medida do possível, as velhas máquinas do clientelismo e da pressão sobre o eleitorado. A direita, por outro lado, optou por listas abertas, um formato que historicamente tem convivido muito bem com essas mesmas práticas.
O Pacto Histórico terminou se consolidando como a principal força política do país ao alcançar cerca de 4,4 milhões de votos. E o fez com um obstáculo importante no caminho, já que Iván Cepeda — um dos nomes mais fortes da esquerda e favorito em várias pesquisas — ficou de fora das consultas interpartidárias após uma decisão arbitrária do Conselho Nacional Eleitoral. A consequência foi que, de fato, o voto progressista se dispersou e acabou dividido entre várias opções que, em outras condições, provavelmente teriam convergido para uma mesma candidatura.
A direita e a extrema direita chegaram à Grande Consulta com uma ampla gama de candidatos e conseguiram mobilizar um número significativo de eleitores. Cerca de cinco milhões de pessoas participaram dessa interna. A candidata apoiada pelo ex-presidente Álvaro Uribe, Paloma Valencia, acabou saindo vitoriosa. Ela obteve cerca de 3,2 milhões de votos, cumprindo assim o objetivo de se consolidar como a principal representante desse setor político.
Em segundo lugar ficou Juan Daniel Oviedo, ex-diretor do Departamento Administrativo Nacional de Estatística (DANE), que reuniu cerca de 1,2 milhão de apoios. Embora a uma boa distância de Valencia, esse resultado o deixou bastante bem posicionado dentro do espaço de uma direita que buscava se mostrar como uma alternativa mais tecnocrática e menos ligada às máquinas tradicionais.
Por sua vez, Abelardo de la Espriella, que tem cultivado um vínculo próximo ao republicanismo estadunidense dentro do universo uribista, decidiu manter-se fora da consulta, buscando preservar uma imagem de independência em relação às estruturas mais orgânicas da direita uribista. A jogada não é nova. Faz parte de uma estratégia de duas vias que o uribismo já utilizou outras vezes. Algo semelhante ocorreu em 2022, quando esse setor acabou jogando duas cartas simultaneamente: por um lado, a candidatura oficial do ex-prefeito Federico «Fico» Gutiérrez e, por outro, a do empresário Rodolfo Hernández, apresentada como uma opção supostamente independente.
Mas a expectativa de que De la Espriella se consolidasse como uma espécie de terceira via dentro desse espaço não se confirma. Seu partido, Salvação Nacional — fundado em 1990 pelo dirigente conservador Álvaro Gómez Hurtado, posteriormente assassinado — mal conseguiu captar 3,6% do eleitorado. Isso se traduziu em três cadeiras no Senado, um resultado modesto que, além disso, deixa a organização à beira de perder seu registro jurídico devido ao baixo desempenho nas urnas.
Assim sendo, Álvaro Uribe volta a se posicionar com duas candidaturas próximas à sua órbita política, ambas com um teto eleitoral bastante limitado dentro do campo da extrema direita. Nesse tabuleiro, a figura de Juan Daniel Oviedo começa a aparecer como um aliado possível para ampliar a base em direção a setores menos radicalizados. Com esses resultados, o ex-diretor do DANE — talvez o perfil mais moderado dentro desse bloco — fica bem posicionado para negociar uma eventual vice-presidência ou, até mesmo, projetar-se para uma candidatura à Prefeitura de Bogotá nas eleições de 2027.
O panorama do chamado centro político também não saiu fortalecido da jornada. O desempenho do Partido Verde e seus aliados nas legislativas acabou por diluir ainda mais a já frágil identidade desse espaço. Na Consulta das Soluções, a ex-prefeita Claudia López reuniu 574.670 votos, uma cifra que contrasta com o volume que a levou ao Palácio Liévano em 2019, quando alcançou 1.108.541 votos.
No terreno legislativo, o setor verde também saiu bastante golpeado, já que perdeu figuras importantes em ambos os lados do espectro interno. Inti Asprilla, próximo ao Pacto Histórico, ficou sem sua cadeira. Mas também não conseguiram manter seus assentos pela direita Katherine Miranda nem Angélica Lozano. O resultado deixou bastante evidente a crise do "centro verde" como projeto político.
Essa fragilidade tornou-se ainda mais evidente com a votação obtida pelo influenciador Jota Pe Hernández, conhecido por sua admiração por Nayib Bukele. Hernández conseguiu 158.457 votos e acabou se tornando o terceiro congressista mais votado dentro das listas abertas. Só o superaram Nadia Blel — integrante do clã parapolítico Blel, uma poderosa família do departamento de Bolívar — e Lidio García Turbay, também ligado a um dos clãs tradicionais desse departamento (García Turbay, vale dizer, é membro do grupo político liderado pelo ex-senador Álvaro García Romero, seu primo, que em 2010 foi condenado pela Corte Suprema de Justiça por sua participação no massacre de Macayepo em 2000, conduzido por paramilitares das Autodefesas Unidas da Colômbia).
Em síntese, as três votações mais altas das listas abertas da direita ficaram nas mãos de dois representantes de clãs políticos historicamente vinculados às redes de poder que acompanharam a institucionalização do paramilitarismo na costa do Caribe, juntamente com um projeto político de tom libertário que se inspira na estética e no discurso bucalelista.
Do outro lado do espectro político, a Frente pela Vida obteve um resultado bastante modesto. Após a decisão do CNE de impedir a participação de Iván Cepeda nas consultas interpartidárias, o Pacto Histórico decidiu não acompanhar formalmente a disputa dessa frente. Roy Barreras, que durante anos foi operador do uribismo antes de se aproximar do campo progressista, alcançou cerca de 360.000 votos.
Ainda assim, Barreras e Daniel Quintero seguiram adiante com a consulta, que finalmente reuniu 595.837 votos no total. O resultado deixou claro o desgaste político de Barreras. As máquinas regionais que durante anos apoiaram seu papel como operador político acabaram retirando-lhe o apoio, enquanto entre os setores de esquerda ele nunca conseguiu consolidar uma base própria realmente sólida. Quem aspirava a mobilizar mais de 3 milhões de votos ficou muito longe dessa meta. Hoje Barreras aparece como uma figura enfraquecida dentro do campo progressista e com uma capacidade de mobilização muito menor do que a que projetava no início da contenda.
No plano legislativo, o bloco da esquerda no governo também não conseguiu alcançar as maiorias parlamentares necessárias para superar sem dificuldades os bloqueios que já são conhecidos nem os que provavelmente virão. No entanto, para além de qualquer leitura triunfalista ou derrotista, convém olhar esse resultado em perspectiva histórica. Mesmo com suas limitações, trata-se do melhor desempenho legislativo que a esquerda já obteve. Uma esquerda que, desde suas origens, tem sido sistematicamente golpeada por uma das oligarquias mais fratricidas do continente.
A violenta democracia colombiana
Após quatro anos no governo, o avanço do Pacto Histórico no Senado começa a marcar uma tendência que não passa despercebida. Embora aos poucos, parece crescer um certo nível de confiança institucional em seu projeto político. O bloco progressista passou de 20 para 25 cadeiras na câmara alta, e a recontagem de votos ainda pode devolver pelo menos dois assentos a mais. Não seria algo inédito. Já ocorreu em 2022. Naquela ocasião, a recontagem acabou recuperando cerca de 570.000 votos que inicialmente não haviam sido contabilizados para o Pacto. Esse processo permitiu que a bancada passasse de 16 para 20 senadores. As quatro cadeiras recuperadas haviam sido atribuídas inicialmente ao Partido da U, uma coletividade que durante anos funcionou como um dos principais veículos políticos de Álvaro Uribe, antes que ele rompesse com seu sucessor Juan Manuel Santos e decidisse fundar o Centro Democrático em 2013.
No cenário atual, o Centro Democrático aparece como a segunda força no Senado, com 17 cadeiras, enquanto o Partido Liberal ocupa o terceiro lugar, com 13. Assim, o mapa político da corporação fica encabeçado pelo Pacto Histórico com 25 cadeiras, seguido pelo uribismo com 17 e pelo liberalismo com 13. A situação na Câmara dos Representantes, por sua vez, ainda está em desenvolvimento. A apuração avança com certa lentidão, portanto o panorama definitivo ainda não está completamente claro. No entanto, as projeções preliminares sugerem que o bloco progressista também pode crescer de forma significativa. De acordo com estimativas do Sistema de Mídias Públicas RTVC, o Pacto passaria de 26 para cerca de 38 assentos na câmara baixa.
Agora, o fato de que a recontagem tenha tanto peso em relação à apuração inicial levanta questões profundas sobre o funcionamento do sistema eleitoral colombiano. Uma e outra vez, o que se evidencia é a existência de uma parainstitucionalidade que atravessa todo o conjunto da vida política do país. A perda, alteração ou desaparecimento de votos dificilmente pode ser entendida como um simples "erro técnico". Faz parte de um conjunto de práticas que, ao longo da história, têm sido utilizadas para bloquear ou eliminar os adversários políticos.
Dentro desse repertório aparecem mecanismos conhecidos: compra de votos, pressões clientelistas, guerra jurídica, perseguição política, proscrições partidárias, coerção armada e até mesmo episódios de genocídio político ou magnicídio. São recursos que se ativam sempre que o sistema de poder precisa se reacomodar para proteger os interesses do que Jorge Eliécer Gaitán chamava de "país político": essa minoria de elites que administra o Estado e que, historicamente, tem mantido uma distância profunda em relação às maiorias populares que compõem o chamado "país nacional".
Breve história da eliminação política na Colômbia
Houve um momento em que a política colombiana mudou de rumo de maneira brutal. Em meados dos anos oitenta, em meio à recomposição do poder dos setores conservadores — sem grande importância o partido em que se acomodassem —, o país atravessou duas conjunturas eleitorais marcadas por sangue: 1986 e 1990. Nesses anos foram assassinados vários dos principais candidatos que representavam alternativas políticas fora das elites tradicionais e que, além disso, se encontravam à esquerda do poder que orbitava em torno do Cartel de Medellín.
A lista é conhecida, mas nem por isso menos estarrecedora. Jaime Pardo Leal, dirigente do Partido Comunista Colombiano e da União Patriótica (UP), foi assassinado em 1987. Dois anos depois caiu Luis Carlos Galán, líder do Novo Liberalismo e um dos candidatos com maior projeção presidencial. Em 1990 também foram assassinados Bernardo Jaramillo Ossa, figura central da União Patriótica, e Carlos Pizarro León-Gómez, ex-comandante do M-19 que havia acabado de depor as armas para participar da política formal.
A clausura política não terminou aí. Em 2002, quando o extermínio da União Patriótica ainda pesava sobre a memória recente do país, o Comitê Nacional Eleitoral (CNE) decidiu retirar o registro jurídico do partido. A medida foi tomada durante a ascensão política de Álvaro Uribe. Mais de uma década depois, em 2013, a Corte Interamericana de Direitos Humanos reconheceu a responsabilidade do Estado colombiano nesse extermínio e ordenou a restituição do registro jurídico à UP.
A história se repetiu, ainda que sob outras formas, em 2018. Naquele ano, o CNE bloqueou a possibilidade de que a Colômbia Humana, o movimento liderado por Gustavo Petro, se constituísse formalmente como partido político. Diante dessa decisão, Petro e sua coalizão acabaram competindo nas eleições presidenciais utilizando o registro jurídico que havia sido devolvido à União Patriótica (este ano, finalmente, a Colômbia Humana optou por se dissolver e integrar-se plenamente ao Pacto Histórico, uma decisão que, ao menos em parte, respondeu à necessidade de contornar os obstáculos que o próprio CNE tem imposto ao processo de unificação desse projeto político).
O período dos magnicídios marcou profundamente a política do país no final do século XX. Em um cenário de abertura democrática cerrada, a participação eleitoral da esquerda recuou durante décadas. Esse cenário começou a mudar apenas em 2018, quando Gustavo Petro irrompeu como candidato presidencial com uma capacidade de mobilização inédita para o campo progressista.
Durante quase três décadas — entre 1990 e o final do ciclo político do uribismo, que acabou se desgastando com o governo de Iván Duque em meio ao Paro Nacional de 2019-2021 — a abstenção eleitoral na Colômbia se manteve em torno de 53%. Esse padrão começou a se modificar a partir de 2018, quando a abstenção caiu para 44%. A queda, em boa medida, foi impulsionada pela mobilização de novos eleitores e pelo entusiasmo de setores progressistas que viam em Petro uma possibilidade real de disputar o poder. A tendência se aprofundou em 2022, quando a abstenção caiu para 41,9%, o nível mais baixo em décadas.
À luz do crescimento do voto progressista — constatado também nas eleições legislativas do último dia 8 de março —, tudo indica que essa tendência pode continuar se consolidando para o primeiro turno presidencial previsto para 31 de maio deste ano. O mapa político colombiano continua em movimento, mas, pela primeira vez em muito tempo, uma parte significativa do eleitorado parece estar convencida de que participar pode mudar alguma coisa.
Reação conservadora?
O velho bipartidarismo liberal-conservador havia conseguido reagrupar boa parte da oposição no Congresso nas eleições de 2022. No entanto, as eleições do último dia 8 de março voltaram a transformar a composição partidária do Congresso. O resultado obtido pelo Centro Democrático, partido de Álvaro Uribe, não apenas o consolida como a segunda força política do país — superando inclusive o Partido Liberal —, mas também reordena o mapa da direita. Seu avanço eleitoral enfraqueceu aqueles partidos que durante anos tiveram peso próprio (como a Mudança Radical) e empurrou o Partido Conservador para o quinto lugar na correlação de forças do Congresso.
A presença de Álvaro Uribe já havia alterado o equilíbrio do sistema político tradicional na década de 2000. Naquele momento, a recomposição da direita foi impulsionada por setores emergentes da elite econômica, os chamados "novos ricos", que consolidaram seu poder em meio à expansão de capitais ligados ao narcotráfico e à sua posterior projeção internacional durante a era de Ronald Reagan.
Com o passar do tempo, essa fração da burguesia acabou se integrando de maneira estável à paisagem do poder na Colômbia. Sua consolidação foi acompanhada por episódios recorrentes de vinculação entre setores políticos e empresariais com as redes de narcotráfico, paramilitarismo, exportação de mercenários e distintos escândalos relacionados ao tráfico de armas em zonas de fronteira, sobretudo quando essas regiões ficam sob governos considerados "incômodos" para os Estados Unidos.
Esse bloco de poder político, financeiro e militar opera de forma relativamente coesa e se move em sintonia com os interesses geopolíticos alinhados a Washington. Em termos estruturais, trata-se de uma burguesia de caráter transnacional. Nesse sentido, a suposta derrota eleitoral de Álvaro Uribe como candidato ao Senado se parece menos a uma retirada do que a um simples movimento tático dentro desse mesmo bloco de poder.
Mais do que um "colapso da direita", o que está em curso é um processo de reorganização interna. O crescimento do Centro Democrático e o retrocesso do Partido Conservador sugerem uma redistribuição de papéis dentro desse mesmo campo político. O uribismo volta agora a ocupar a posição ofensiva, enquanto o conservadorismo lhe abre caminho e funciona — como tem feito historicamente — como celeiro administrativo e fachada institucional para os setores mais concentrados do poder real.
A base política de Álvaro Uribe tem estado envolta em polêmicas desde seus tempos como congressista nos anos noventa. Diversas investigações apontaram vínculos entre setores de seu entorno político e familiar e o Cartel de Medellín. Mais adiante, durante seus dois mandatos como presidente (2002-2010), as investigações impulsionadas por Gustavo Petro e Iván Cepeda contribuíram para tornar visível a dimensão do fenômeno da "parapolítica", no qual mais de 35% do Congresso chegou a ser investigado por supostos vínculos com as Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC) e com circuitos associados ao narcotráfico.
Esse emaranhado nunca foi julgado em sua totalidade. As investigações avançaram de maneira fragmentada e deixaram amplas zonas de impunidade na relação entre poder político, paramilitarismo e economias ilegais. Nesse contexto, a chamada "plata doce" — os fluxos de capital provenientes dessas redes — se torna uma variável-chave para entender como a direita colombiana se reorganiza hoje.
Os episódios recentes parecem reforçar tal leitura. As operações do Plano Democracia da Polícia Nacional detectaram cerca de 4 bilhões de pesos que supostamente seriam utilizados para a compra de votos. Os escândalos atingiram tanto setores do Centro Democrático quanto do Partido Liberal. No entanto, esses casos mal arranham a superfície de um fenômeno muito mais profundo, assentado na persistência de estruturas de poder que combinam dinheiro ilícito, influência política e capacidade coercitiva.
Diferentes denúncias feitas pelo presidente Gustavo Petro apontam, além disso, a possível existência de um esquema conhecido como a "Nova Junta" do narcotráfico. As acusações alegam que se trata de uma rede que opera por meio de conexões políticas e financeiras que ultrapassam amplamente o território colombiano. E traça o alcance de seus nodos logísticos e financeiros até mesmo até Dubai, capital dos Emirados Árabes Unidos, o que dá uma ideia do nível de transnacionalização que essas estruturas alcançaram.
Nesse contexto, o processo eleitoral colombiano deste 2026 não é apenas uma disputa eleitoral entre partidos. É uma oportunidade para vislumbrar com maior clareza os fios da recomposição de um bloco de poder que combina política, capital e redes ilegais, e que continua tendo uma enorme capacidade de influenciar o rumo institucional do país.
O peso do antibolivarianismo
A origem divisionista e profundamente militarizada dessa burguesia colombiana transnacionalizada pode ser rastreada na reação histórica contra um dos projetos políticos mais ambiciosos que surgiram após as independências: a ideia bolivariana de uma América Latina integrada. Tal horizonte tomou forma concreta no Congresso Anfitriônico do Panamá de 1826, convocado por Simón Bolívar com o objetivo de reunir as novas repúblicas e construir uma confederação que combinasse diplomacia, defesa e política comum frente às potências estrangeiras. Dois séculos depois, aquela tentativa precoce de integração continental fica distante na memória. Mas já em seu próprio tempo, aquele projeto enfrentou obstáculos enormes. As rivalidades entre elites locais, os interesses comerciais divergentes e as pressões externas acabaram enfraquecendo o sonho bolivariano de uma América politicamente articulada.
A história pessoal de Bolívar, de certa forma, reflete o fracasso desse projeto político. O Libertador morreu doente e empurrado à inanição quando tentava abandonar o país rumo ao exílio, partindo de Santa Marta. Algo semelhante ocorreu com vários daqueles que tentaram dar continuidade ao seu legado político na Colômbia. Um deles foi o general José María Melo, militar bolivariano que liderou um breve governo reformista em 1854. Seu projeto acabou derrotado pela aliança de setores conservadores e liberais tradicionais. Após anos de exílio e combates na América Central, Melo foi assassinado em 1860 no sul do México.
Décadas depois, Rafael Uribe Uribe, general liberal e uma das últimas figuras que levantou a possibilidade de uma reintegração territorial entre Colômbia e Venezuela, teve uma sorte igualmente trágica. Em 1914, foi assassinado a golpes de facão no centro de Bogotá, a poucos metros do centro histórico da cidade e da praça que hoje leva o nome de Simón Bolívar.
No início do século XX, a perda do Canal do Panamá e a ascensão de uma hegemonia conservadora terminaram consolidando uma mudança profunda na orientação internacional do país. A doutrina Respice Polum ("olhar para o norte"), impulsionada pelo presidente conservador Marco Fidel Suárez entre 1918 e 1921, propunha que a política externa colombiana deveria orientar-se prioritariamente para os Estados Unidos, fazendo de Washington o principal referencial estratégico do país.
Essa orientação acabou gerando uma inércia política duradoura. Com o passar do tempo, a relação privilegiada com os Estados Unidos se tornou um dos eixos estruturais da política externa colombiana, deslocando os projetos de integração regional autônoma que haviam marcado o horizonte bolivariano do século XIX. Nesse quadro, foi-se consolidando uma elite política e econômica que encontrou nessa relação assimétrica uma forma eficaz de reproduzir seu poder, deixando como legado uma longa tradição de dependência geopolítica.
Os Valencia e a questão caucana
O departamento de Cauca parece estar condensando hoje boa parte das tensões históricas do país. Não é por acaso que tanto Iván Cepeda quanto sua contraparte política, Paloma Valencia, sejam oriundos dessa região do sudoeste colombiano, onde os sobrenomes funcionam quase como arquivos da história. Em lugares como Popayán, as linhagens familiares ainda contam — e muito — para entender como se distribuíram o poder, a terra e a política ao longo dos séculos.
O sobrenome Valencia nos remete a uma genealogia que atravessa vários momentos decisivos da história colombiana: a economia escravista da Colônia, o conservadorismo aristocrático do século XX e as estratégias contrainsurgentes que marcaram a Guerra Fria na América Latina. Paloma Valencia, atual senadora e figura do uribismo, provém justamente dessa linhagem. Sua família faz parte dos clãs que dominaram durante séculos a elite de Popayán e que estiveram vinculados à exploração mineira e latifundiária do Pacífico colombiano, sustentada por mão de obra africana e indígena escravizadas.
A origem desse poder familiar pode ser rastreada até o século XVIII, com Pedro Agustín de Valencia y Fernández del Castillo, primeiro Conde de Casa Valencia em Popayán. Como integrante da aristocracia colonial caucana, sua riqueza baseava-se na posse simultânea de fazendas, minas de ouro e escravos. Suas explorações se estendiam por territórios próximos aos rios Yurumanguí, Cajambre e Naya, no Pacífico, onde quadrilhas de africanos escravizados eram obrigados a trabalhar na mineração aurífera, que abastecia o circuito colonial do ouro. Foi em torno dessas minas e fazendas que a família Valencia consolidou sua posição econômica e social, tornando-se uma das linhagens mais influentes da aristocracia payanesa.
No início do século XX surge outra figura-chave dessa mesma linhagem: Guillermo Valencia. Poeta modernista, dirigente do Partido Conservador e candidato presidencial em 1930, seu nome costuma ser lembrado mais por sua obra literária do que por sua influência política. Mas Guillermo Valencia representava um setor do conservadorismo colombiano que, nas décadas de 1930 e 1940, olhava com simpatia para as correntes hispanistas e corporativistas que se expressavam no regime de Francisco Franco e na doutrina da Falange Espanhola.
A continuidade do poder familiar projetou-se depois em seu filho, Guillermo León Valencia, presidente da Colômbia entre 1962 e 1966. Seu governo coincidiu com um dos momentos mais intensos da Guerra Fria na América Latina, quando os Estados Unidos promoviam estratégias contrainsurgentes para conter a expansão de movimentos guerrilheiros no continente. Foi nesse contexto que, em 1964, o governo lançou a ofensiva militar contra Marquetalia, um importante enclave da resistência camponesa armada.
A chamada Operação Marquetalia — denominada oficialmente Operação Soberania — começou em 18 de maio de 1964 por ordem do presidente Valencia. O exército colombiano mobilizou cerca de 16 mil soldados para atacar uma zona onde viviam aproximadamente mil habitantes. Desses, apenas algumas dezenas de camponeses estavam armados, liderados pelo liberal Manuel Marulanda Vélez e pelo dirigente comunista Jacobo Arenas. Após a operação militar, esse pequeno grupo conseguiu recuar para a montanha. Com o tempo, dessa experiência surgiria o núcleo fundador das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).
O alcance da figura da candidata uribista Paloma Valencia, então, só é compreensível à condição de situá-la nessa longa continuidade histórica que vai desde as minas escravistas do Pacífico colonial até as estratégias contrainsurgentes da Guerra Fria. Sua trajetória política ilustra como certas linhagens familiares conseguiram atravessar diferentes etapas do Estado colombiano, adaptando-se a cada momento do poder. Hoje não é diferente.
A história política do Cauca ajuda também a compreender a persistência dos conflitos na região. Ali nasceram múltiplas experiências organizativas que desafiaram as estruturas tradicionais dos clãs escravistas, como a guerrilha indígena que tomou o nome do líder nasa Quintín Lame, ativa entre 1984 e 1991, a Frente Primeira das FARC, o Conselho Regional Indígena do Cauca (CRIC) ou o Processo de Unidade Popular do Sudoeste Colombiano (PUPSOC). Todas essas iniciativas, de diferentes maneiras, questionaram a herança colonial e as hierarquias raciais que ainda marcam a arquitetura urbana e a estrutura social de cidades como Popayán.
Em 16 de maio de 2015, Paloma Valencia propôs dividir o departamento de Cauca em dois: um indígena e outro mestiço. Para muitos setores sociais e indígenas da região, tal ideia evocou uma lógica de segregação territorial no pior estilo apartheid. Ao longo de sua carreira, a senadora tem defendido posições extremistas em matéria de segurança, apoiando políticas fortemente questionadas por organizações de direitos humanos, como o caso dos chamados "falsos positivos", a perseguição de dirigentes de esquerda ou os bombardeios que assassinaram menores de idade em zonas de conflito.
Quilcué contra a Pomba da guerra
Frente a essa velha tradição oligárquica do Cauca, com clãs que concentraram poder político e econômico durante séculos, surge hoje uma figura que provém do mesmo território, mas de uma história completamente distinta. Trata-se de Aida Marina Quilcué Vivas. Na última segunda-feira, 9 de março, o dia posterior às eleições legislativas, o candidato presidencial do Pacto Histórico, Iván Cepeda — filho do senador caucano e comunista Manuel Cepeda, assassinado em 1994 durante o extermínio da União Patriótica — anunciou que a atual senadora indígena será sua vice na chapa para as eleições de 31 de maio.
Com essa decisão, a campanha do Pacto Histórico busca projetar no cenário presidencial lideranças que nasceram nas lutas sociais e territoriais, especialmente de povos que durante séculos estiveram à margem do poder estatal. Quilcué, de 53 anos, é hoje uma das vozes indígenas mais reconhecidas do país. Nasceu no povo nasa, no resguardo Piçkwe Tha Fiw, no Cauca, e sua trajetória está profundamente ligada ao movimento indígena colombiano. Participou de espaços-chave como o Conselho Regional Indígena do Cauca (CRIC) e a Organização Nacional Indígena da Colômbia (ONIC), de onde tem impulsionado mobilizações, processos de defesa do território e propostas de paz construídas desde as comunidades. Também foi uma das lideranças que interveio nos diálogos com as antigas FARC e participou da elaboração do capítulo étnico do Acordo Final de Paz, assinado em 2016.
Em 2022, Aida Quilcué chegou ao Senado por meio da circunscrição especial indígena com o aval do Movimento Alternativo Indígena e Social (MAIS). Desde então, tem feito parte da Comissão Primeira, um dos espaços legislativos mais influentes do Congresso, onde tem trabalhado em temas relacionados aos direitos humanos, à construção da paz e ao reconhecimento das jurisdições próprias dos povos indígenas. Dois anos depois, em 2024, foi eleita presidente da Comissão Legal de Paz e Pós-Conflito, o que consolidou sua presença dentro do bloco progressista próximo ao governo de Gustavo Petro.
Sua trajetória política também é atravessada pelo conflito armado. Em 2008, seu marido, Edwin Legarda, foi assassinado por membros do Exército na estrada entre Inzá e Popayán. O Estado colombiano acabou reconhecendo sua responsabilidade nesse crime e seis militares foram condenados. Desde então, Quilcué tem vivido sob constantes ameaças. Em 2022, seu esquema de segurança foi atacado a tiros e, em fevereiro, há apenas algumas semanas, ela foi sequestrada no Cauca, sendo libertada graças à pressão e à mobilização da guarda indígena.
Iván Cepeda apresentou sua candidatura como uma aliança pela defesa dos direitos humanos, pela paz e pelas lutas históricas dos povos indígenas. A liderança de Quilcué surge como a expressão de uma longa tradição de resistência comunitária que tem enfrentado décadas de violência, racismo, despojo e exclusão a partir dos territórios.
As pedras de Sísifo
O resultado das eleições de 8 de março revela um paradoxo difícil de ignorar. Por um lado, a esquerda obtém um dos avanços mais importantes de toda a história republicana colombiana. Ao mesmo tempo, evidencia-se a continuidade de uma dinâmica de poder fechada que, a partir do Congresso, se projeta para boa parte dos órgãos de controle do Estado, atingindo inclusive o próprio Comitê Nacional Eleitoral.
O CNE, criado em 1888 durante o período conhecido como Hegemonia Conservadora, é composto por magistrados eleitos pelo próprio Congresso. Em outras palavras, aqueles que dominam as maiorias parlamentares acabam influenciando diretamente a instituição encarregada de fiscalizar as regras do jogo eleitoral. Na prática, isso gera que o mapa político do Congresso se reflita quase automaticamente dentro do CNE. Nos últimos anos, o órgão tem sido composto por figuras orgânicas do uribismo, como Álvaro Hernán Prada, condenado por manipulação e compra de testemunhas no caso do ex-presidente Álvaro Uribe, e o congressista César Lorduy, acusado de feminicídio e também ligado a esse mesmo setor político.
Mas essa forma de reprodução do poder não se limita apenas ao âmbito eleitoral. Dinâmicas semelhantes podem ser observadas em outras instituições-chave do sistema político e judicial colombiano, como o Conselho de Estado, as altas cortes, a Procuradoria-Geral da Nação, a Procuradoria-Geral Adjunta e a Controladoria-Geral. Em conjunto, essas estruturas tendem a consolidar um clima institucional no qual as direitas conseguem prolongar sua influência para além do terreno estritamente legislativo.
Outro elemento preocupante está relacionado com as cadeiras de paz, criadas após os acordos firmados em 2016 entre o Estado colombiano e as FARC com o objetivo de ampliar a representação política em territórios rurais atingidos pelo conflito. Em alguns casos, esses assentos acabaram nas mãos de figuras ligadas a círculos familiares do paramilitarismo (um dos exemplos mais polêmicos é o de Jorge Tovar, filho de Rodrigo Tovar Pupo, alias "Jorge 40", um dos perpetradores mais conhecidos das AUC).
Diante desse panorama, corrigir o que muitos consideram um "sequestro institucional" exigiria uma reforma política profunda. No entanto, uma transformação dessa envergadura dificilmente conseguiria passar pelo filtro do Congresso atual. Por isso, os setores do progressismo começam a vislumbrar outra saída: impulsionar uma grande mobilização nacional que abra caminho para uma assembleia constituinte. Para um eventual governo liderado por Iván Cepeda, essa discussão poderia se tornar uma das tarefas políticas mais urgentes diante dos bloqueios persistentes do sistema político.
DIANA CAROLINA ALFONSO
Historiadora, jornalista e analista internacional colombiana.