POR GILBERT ACHCAR
Via Esquerda.net
Não há dúvida de que o atual compromisso não resolveu o conflito, mas transferiu-o de uma fase militar para uma fase política. Esta nova fase envolverá uma luta política que dá continuidade à guerra por outros meios.
Como devemos interpretar o recente acordo entre o movimento curdo sírio e o novo governo sírio? Será que ele marca o fim de uma década de autogoverno curdo no nordeste da Síria? Ou será apenas um acordo temporário, destinado a entrar para a longa lista de acordos no Médio Oriente anunciados como definitivos, mas que acabam por fracassar pouco tempo depois? Para responder a essa pergunta, é necessário avaliar tanto a natureza do acordo em si quanto as circunstâncias que o produziram.
O primeiro ponto a destacar é que o acordo anunciado na última sexta-feira constitui um compromisso em que a balança pende a favor do regime de Damasco. É um compromisso na medida em que foi concluído entre duas partes, nenhuma das quais perdeu a capacidade de continuar a lutar. De facto, as Forças Democráticas Sírias (FDS) continuam a deter uma força militar substancial no atual equilíbrio de poder sírio, mesmo depois de terem sido reduzidas em grande parte ao seu núcleo predominantemente curdo. Comandam dezenas de milhares de combatentes experientes — homens e mulheres — motivados por uma causa nacional forjada ao longo de um século de divisão e opressão. Além disso, a sua espinha dorsal política assenta numa corrente ideológica que se adaptou às mudanças históricas, mantendo-se assim profundamente enraizada.
Em contrapartida, as forças do novo regime sírio não são significativamente maiores do que as forças curdas e carecem de coesão. Constituem uma coligação híbrida composta por Hayat Tahrir al-Sham, outros grupos jihadistas (alguns deles não sírios) e forças diretamente leais a Ancara — unidades pertencentes ao chamado Exército Nacional Sírio.
Esta configuração significa que o equilíbrio de poder existente permitiria ao lado curdo resistir às forças de Damasco por um período considerável, desde que recebesse apoio externo para evitar o isolamento e o cerco. No entanto, ambos os atores capazes de fornecer esse apoio traíram o movimento curdo sírio. O primeiro, é claro, são os Estados Unidos, que sob a atual administração Trump passaram de confiar nas FDS na luta contra o Estado Islâmico para confiar na Turquia e no novo regime sírio patrocinado por Ancara. O segundo é o Governo Regional do Curdistão, no norte do Iraque, liderado pela família Barzani, aliados próximos de Ancara (ver o artigo da semana passada, «Os curdos e o regime sírio»,, 27 de janeiro de 2026).
Por outro lado, as forças do novo regime de Damasco gozam do apoio incondicional e ilimitado da Turquia no seu confronto com o movimento curdo. Confrontadas com esta realidade, as FDS ficam com duas opções difíceis: render-se ou travar uma guerra para preservar a sua dignidade — uma guerra que corre o risco de se tornar suicida, semelhante a algumas das lutas épicas heróicas, mas em última análise vãs, testemunhadas ao longo da história. Como resultado, as FDS optaram pelo compromisso para ganhar tempo, na esperança de uma mudança nas circunstâncias, seja a nível regional — dada a persistente volatilidade da região — ou a nível internacional, dada a imprevisibilidade de Donald Trump, a sua suscetibilidade à pressão de Netanyahu que contrabalança a influência de Erdoğan e, portanto, a possibilidade de que a sua posição ainda possa mudar.
Por seu lado, o regime de Damasco também preferiu o compromisso a lançar uma guerra feroz no norte que poderia minar os seus esforços para consolidar o controlo sobre o resto do território sírio ou aprofundar ainda mais a sua dependência de Ancara, prejudicando assim a sua imagem e limitando as suas ambições. O compromisso implicou que Damasco abandonasse a sua exigência de dissolução imediata da autogestão curda e das suas forças armadas, bem como a sua insistência em destacar grandes contingentes das forças do regime para o centro das áreas controladas pelas FDS. Em vez disso, o acordo previa o início de medidas limitadas — cuja interpretação ainda pode ser contestada — para integrar essas áreas na estrutura militar, administrativa e jurídica do novo Estado sírio.
Portanto, não há dúvida de que o atual compromisso não resolveu o conflito, mas transferiu-o de uma fase militar para uma fase política. Esta nova fase envolverá uma luta política que dá continuidade à guerra por outros meios, tal como a própria guerra é uma continuação da política por outros meios, como diz a máxima. O lado curdo procurará preservar a autogestão de facto que exerce há uma década, em cumprimento da sua legítima aspiração à autodeterminação, mesmo que esta administração seja formalmente integrada no Estado sírio.
Entretanto, Ancara pressionará de forma persistente e implacável Damasco para intensificar as suas exigências de rendição total dos curdos e submissão ao governo centralizado. A questão, pois, é se Washington conseguirá conter ambos os lados – os curdos e os turcos – de modo a manter a situação dentro dos limites de um compromisso que cada lado afirma publicamente aceitar. Esta é uma aposta muito incerta.
É mais provável que a fragilidade do acordo da última sexta-feira se torne evidente em breve e que a linguagem – e talvez até mesmo a prática – da guerra prevaleça mais uma vez sobre a linguagem do consenso, com este acordo seguido por outros igualmente temporários, num padrão bem familiar nesta parte do mundo.
Traduzido do original em árabe publicado em Al-Quds al-Arabi em 3 de fevereiro de 2026. Publicado no blogue do autor.