Via Brasil de Fato
No plebiscito, a reforma constitucional é aprovada para limitar a influência militar e fortalecer o poder popular.
A eleição geral na Tailândia, realizada em 8 de fevereiro de 2026, consolidou o Partido Bhumjaithai, liderado pelo primeiro‑ministro Anutin Charnvirakul, como a força dominante no Parlamento. Segundo resultados não oficiais apurados por 94% das seções eleitorais, o Bhumjaithai obteve cerca de 193 a 194 dos 500 assentos na Câmara dos Representantes, um avanço significativo em relação a pleitos anteriores.
Apesar de não alcançar a maioria absoluta de 251 cadeiras, o desempenho coloca o partido em posição de negociar alianças e formar o novo governo. Para isso, Anutin já iniciou conversas com outras legendas, em um cenário político que busca estabilidade após anos de disputas internas.
Além de questões econômicas e sociais, a campanha foi fortemente marcada por temas de segurança e nacionalismo, discurso que Anutin e o Bhumjaithai utilizaram para ampliar seu apoio, especialmente em áreas rurais e tradicionalmente conservadoras. A ênfase em defesa da soberania é um elemento chave da mobilização eleitoral, fortemente influenciado pelo conflito fronteiriço com o Camboja, descrito como o mais grave em décadas na região.
Durante 2025, os confrontos ao longo de cerca de 800 quilômetros de fronteira resultaram em dezenas de mortos e quase 1 milhão de deslocados nos dois países. Escolas foram fechadas, comércio interrompido e milhares de famílias precisaram se mudar para áreas mais seguras
O tema da fronteira e da defesa nacional reforçou a narrativa nacionalista do Bhumjaithai, influenciando o apoio em regiões estratégicas e rurais. A segurança externa foi determinante para o desempenho do partido nas urnas.
Outros partidos obtiveram resultados mais modestos: o People’s Party conquistou cerca de 116 assentos, enquanto o Pheu Thai Party ficou com aproximadamente 74 cadeiras, evidenciando a necessidade de coalizões para formar governo.
Conflito com o Camboja: o pior em décadas e seus efeitos
No pano de fundo do pleito estava a escalada do conflito fronteiriço entre Tailândia e Camboja, disputa que se intensificou ao longo de 2025. A fronteira de cerca de 800 quilômetros, definida em parte por mapas coloniais do início do século 20, vinha sendo motivo de impasse diplomático e militar antigo.
Os confrontos ao longo de julho e especialmente em dezembro de 2025 foram descritos como os mais graves em décadas entre os dois países, envolvendo artilharia pesada, tanques e ataques aéreos. Ao final de dezembro, havia sido anunciado um acordo de cessar‑fogo que buscava interromper semanas de intensos combates.
Nas fases mais recentes da confrontação, pelo menos dezenas de pessoas morreram no conflito, incluindo civis e militares em ambos os lados da fronteira.
O Ministério do Interior cambojano relatou que mais de 500 mil pessoas foram deslocadas em seu território por causa das hostilidades, incluindo mulheres e crianças.
Autoridades tailandesas informaram que centenas de milhares de civis também tiveram de deixar suas casas em províncias fronteiriças devido à violência e risco de ataques.
Esse deslocamento maciço de civis e o número significativo de vítimas tornaram o episódio um dos mais críticos em termos humanitários no Sudeste Asiático nos últimos anos, contribuindo para que a narrativa de segurança nacional — explorada durante a campanha — ganhasse maior ressonância entre eleitores.
Referendo Constitucional: Pressão Popular por Reformas
Paralelamente às eleições, a Tailândia realizou um referendo constitucional no qual cerca de 60% dos eleitores manifestaram apoio à revisão da Constituição de 2017, uma carta política elaborada após o golpe militar de 2014. O referendo reflete a crescente pressão popular por reformas que busquem reduzir a influência militar no governo, especialmente no Senado, que continua a ser controlado em grande parte por militares e aliados. A proposta visa restaurar a participação civil e aumentar o controle parlamentar, elementos centrais para o fortalecimento da democracia tailandesa, que ainda enfrenta desafios profundos relacionados à intervenção militar na política.
Apesar da vitória das forças conservadoras nas urnas, o resultado do referendo indica um descompasso entre os eleitores e o governo conservador. Embora o apoio popular à reforma constitucional seja uma clara resposta ao autoritarismo do golpe militar de 2014, a implementação das mudanças enfrenta uma forte resistência por parte dos setores militares, que ainda detêm grande poder no cenário político e na administração do país. Este cenário coloca em dúvida até que ponto as reformas podem avançar, dada a falta de vontade política por parte dos conservadores, que podem ver a diminuição da influência militar como uma ameaça ao seu domínio.
Os próximos meses serão decisivos para a formação do governo, a estabilidade interna e a resposta às demandas sociais e econômicas da população, em um país que enfrenta desafios históricos e pressões geopolíticas em um dos pontos mais dinâmicos do cenário global.
O papel da Tailândia no Sudeste Asiático
A Tailândia ocupa uma posição estratégica na Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean) e no Sul da Ásia. Sua estabilidade política e segurança interna têm efeitos diretos na cooperação regional, no fluxo de comércio e nas relações diplomáticas entre os países vizinhos.
Além disso, potências externas, como China, Japão e Estados Unidos, observam atentamente os desdobramentos políticos no país, dada a sua relevância para a estabilidade da região. A promoção de políticas nacionalistas em meio a tensões fronteiriças, e a necessidade de construir coalizões para governar, coloca desafios tanto internos quanto externos para a nova legislatura.
