Entrevista realizada por Adriano Campos.
1 - Portugal parece passar por uma conjuntura contraditória. Num cenário de crescimento económico, baixos níveis de desemprego e relativo aumento dos salários nominais, a pressão inflacionista, alimentada pelo aumento dos preços dos combustíveis, da habitação e dos bens essenciais, impede uma melhoria objetiva das condições de vida de grande parte da população. Por outro lado, o Governo parece apostado em beneficiar os patrões com uma descida do IRC e com uma tentativa (falhada) de precarizar ainda mais as leis laborais. Como olhas para este cenário económico?
A contradição que descreves é real, mas convém dizer com exatidão onde está. Portugal cresce, o desemprego está em mínimos históricos e os salários nominais subiram, mas o que também é verdade, e bem mais relevante, é que os salários reais caíram abruptamente em 2022 e 2023 e que a recuperação ainda não repôs o que então se perdeu. E que, para quem ganha o salário mínimo, 920 euros brutos por mês, nenhum aumento recente paga o sítio onde vive: a renda de um apartamento de dois quartos em Lisboa ultrapassa os 1300 euros. A média sobe, mas a renda não sabe que a média subiu.
Os preços contam o resto. O cabaz alimentar essencial medido pela DECO, a associação de consumidores, custava no fim de setembro 254 euros, mais 35% do que em janeiro de 2022. O gasóleo atingiu em setembro o máximo histórico, 2,21 euros por litro: encher um depósito de 50 litros custava 82 euros em março e passou a custar 110. A inflação voltou aos 3,3% em agosto, com a energia a subir 12%. E o Banco Central Europeu reabriu o ciclo de subida dos juros, o que acrescentou até 70 euros por mês à prestação de um crédito à habitação típico.
Do outro lado da mesa estão os lucros. A banca lucrou 6,3 mil milhões de euros em 2025, quinto recorde consecutivo, segundo o Banco de Portugal. A Galp, a petrolífera, fechou 2025 com 1154 milhões, mais 20%, e cresceu 44% no primeiro semestre de 2026. Portugal é dos raríssimos países da OCDE onde as margens das empresas crescem mais depressa do que os salários. Não é uma conjuntura contraditória. É uma distribuição.
Foi aqui que o Governo fez a sua escolha. Baixou o imposto sobre os lucros das empresas, o IRC, de 21% para 20% em 2025 e legislou a descida até 17% em 2028. Nas contas do próprio Ministério das Finanças, cada ponto custa 300 milhões de euros por ano, cerca de mil milhões quando a medida estiver completa. Quem recebe esse dinheiro? Segundo a Autoridade Tributária, 0,16% das empresas, as 830 maiores, pagam 45% de todo o IRC. Não é uma medida para o café da esquina. É uma transferência para as grandes empresas, com a banca e a energia à cabeça. A resposta ao custo de vida, em contrapartida, foi uma descida do imposto sobre o rendimento das pessoas que dá, pelas contas do Governo, 5 euros e 44 cêntimos por mês a quem ganha 1500 euros, e uma taxa sobre os lucros das petrolíferas que só se paga em setembro de 2027. As famílias pagam o depósito hoje. A Galp paga daqui a um ano.
O pacote laboral era a peça final desta arquitetura. Michał Kalecki explicou em 1943 que o pleno emprego é intolerável para o patronato não por razões económicas mas por razões políticas: dá força a quem trabalha. Quando o desemprego baixa, procura-se disciplinar o trabalho pela lei. O pacote fazia exatamente isso: mais horas sem pagamento adicional, contratação coletiva asfixiada, precariedade eternizada. Era uma redução salarial por engenharia, não por decreto. Caiu no Parlamento a 19 de junho, depois de duas greves gerais e sem o apoio de uma única central sindical. O primeiro-ministro prometeu não desistir. Nós também não.
2 - Portugal é o país da UE onde os preços das casas mais subiram nos últimos anos. Enquanto cerca de 35% dos trabalhadores recebem até 920 euros mensais (salário mínimo), alugar uma casa na grande Lisboa ou no grande Porto pode facilmente ultrapassar os 1000 euros. Ao contrário do que acontece noutros países, este Governo parece apostado em favorecer os grandes proprietários e os fundos imobiliários. O que podemos esperar nos próximos anos?
O Eurostat colocou Portugal no topo da subida dos preços da habitação na União Europeia e o Banco de Pagamentos Internacionais registou, no primeiro trimestre de 2026, a maior subida real entre cerca de sessenta economias, mais 15%, num trimestre em que os preços caíram no resto do mundo. Segundo o Instituto Nacional de Estatística, as casas encareceram 17,6% em 2025, o maior aumento desde que há registos, e mais de um terço desde que este Governo tomou posse. Numa década, diz a OCDE, subiram quatro vezes mais depressa do que os salários. Vendem-se cada vez menos casas, cada vez mais caras, para cada vez menos gente.
Não é azar. É obra. Cada medida deste Governo encareceu a casa que prometia baratear. A isenção de impostos na compra para jovens foi engolida pelos preços, como concluiu um estudo universitário do ISCTE. A garantia pública ao crédito dos jovens subiu de 1200 para 2300 milhões de euros contra os avisos do Banco de Portugal, que em agosto teve de apertar as regras do crédito porque o Governo as afrouxava: o Estado acelera, o banco central trava. O alojamento turístico foi devolvido à especulação. Inventou-se uma “renda moderada” de 2300 euros por mês, num país com um salário mínimo de 920, e baixou-se para 10% o imposto de quem a cobra. Até o presidente da associação de proprietários reconheceu o óbvio: as rendas vão subir até esse valor, porque o teto virou piso.
Depois veio a lei a que chamamos “lei do despejo de quem paga”. Com os despejos a subir 44% num ano, o Governo da direita aprovou, na generalidade, que um inquilino que se atrase oito dias, mais de três vezes num ano, mesmo pagando tudo com juros e indemnização, pode ser posto na rua. Querem acabar com o tímido limite aos aumentos de renda nos novos contratos que tínhamos na lei. As cauções deixaram de ter teto. A lei passou porque o Chega, o partido de extrema-direita de André Ventura, se absteve a troco de um acordo divulgado minutos antes da votação. Esse acordo não repõe o travão às rendas: promete dinheiro público para compensar senhorios e para apoiar quem a própria lei vai despejar. Não trava a lei. Orçamenta-a. Estamos agora na luta social para obrigar o governo a recuar, tal como fizemos no pacote laboral.
O que esperar? Mais do mesmo, porque o Orçamento para 2027 mantém tudo e os juros estão a subir. A habitação tornou-se o maior mecanismo de transferência de riqueza do nosso tempo: dos novos para os velhos, de quem trabalha para quem já tem. Hoje, uma empresa com três apartamentos paga a mesma taxa de imposto sobre o património, 0,4%, que um fundo com quinhentos milhões em casas. Isto não é um imposto, é uma cortesia. Propusemos duplicar a receita desse imposto, criado pela esquerda em 2017 e consignado às pensões, com taxas progressivas para os grandes patrimónios e 1% ao ano sobre cada casa avaliada em mais de um milhão de euros, seja de quem for.
Propusemos que a Caixa Geral de Depósitos, o banco público, que lucrou 913 milhões num semestre e é o maior credor de habitação do país, absorva a subida dos juros em vez de a repassar às famílias. E repor o travão às rendas, devolver o alojamento turístico ao arrendamento e construir habitação pública a sério: temos 2% do parque habitacional, contra cerca de 8% na média europeia. Nenhum mercado resolveu isto sozinho em lado nenhum. Em Glasgow, em 1915, foram as mulheres em greve de rendas que obrigaram o Parlamento britânico a congelá-las. Em Viena, nos anos vinte, foi um município socialista que construiu mais de sessenta mil casas com impostos sobre o luxo. A casa nunca foi uma dádiva do mercado. Foi sempre uma conquista.
3 - Portugal é também um país envelhecido e com uma baixa taxa de natalidade. Nos últimos anos, os imigrantes contribuíram com uma enorme fatia das contribuições para a Segurança Social, desempenhando funções essenciais em diversos setores da economia portuguesa. O atual Governo conhece a ânsia dos patrões por mais força de trabalho, mas, ao mesmo tempo, tenta disputar com o CHEGA o terreno do ataque aos direitos dos imigrantes, como se provou na recente convergência no Parlamento. Julgas que estaremos perante a tentativa de criação de um regime de subcidadania?
Sim, e não é uma hipérbole, é uma descrição. O que está a ser construído tem três andares.
O primeiro é administrativo. A AIMA, a agência de migrações, tem mais de 124 mil processos pendentes nos tribunais administrativos, contra pouco mais de 6600 em todas as outras áreas dessa jurisdição somadas. O tempo médio de decisão em primeira instância ultrapassa os 860 dias. Há títulos de residência impressos que não chegam aos titulares, enquanto a polícia exige nas ruas e nas empresas um documento válido. O Estado fabrica a irregularidade e depois pune-a. Quando perguntei ao Governo, em julho, respondeu-me que tudo decorria com “total normalidade”. Três dias antes tinha aprovado um pacote de emergência para a mesma agência.
O segundo andar é legal. A nova Lei da Nacionalidade, aprovada em abril pela direita com a extrema-direita, subiu os prazos de residência para sete e dez anos e, mais grave, passou a contá-los só a partir da emissão do título, apagando os anos em que as pessoas esperaram pelo próprio Estado. Fez depender a nacionalidade das crianças nascidas em Portugal da residência legal dos pais, com risco de apatridia. E inscreveu a perda de nacionalidade como pena, norma que o Tribunal Constitucional voltou a declarar inconstitucional, por unanimidade, em maio. A chamada “Lei do Retorno”, a nova lei de estrangeiros e asilo, teve o destino que lhe previ: o Tribunal Constitucional chumbou-a por unanimidade em agosto. Era o único destino possível para uma lei cruel.
Entretanto, os dados do próprio Ministério do Trabalho dizem que os trabalhadores imigrantes, cerca de um quinto dos contribuintes, entregam mais de 12% das contribuições para a Segurança Social, com um saldo positivo na ordem dos três mil milhões de euros por ano, e que as suas contribuições duplicaram em quatro anos. São sobretudo jovens e trabalham nos setores que o país não quer ver: agricultura, construção, restauração, cuidados. O patronato quer-lhes os braços e a direita quer os votos do medo que eles suscitam. A sociologia tem um nome para quem trabalha, desconta e paga impostos sem ter os direitos de quem é cidadão: Tomas Hammar chamou-lhes “denizens”, residentes sem cidadania. T. H. Marshall descreveu a cidadania moderna como a soma dos direitos civis, políticos e sociais. O que se desenha em Portugal é a subtração programada dos três: uma residência sem direitos, uma contribuição sem proteção, um trabalho sem futuro. Chamar-lhe subcidadania é apenas ser exato.
4 - Portugal continua a apresentar grandes fluxos de emigração, nomeadamente em direção aos países do norte e do centro da Europa. Essa emigração segue canais de empregos qualificados, mas também está presente nos setores da construção civil e dos serviços, menos qualificados. A posição periférica do país no contexto da UE parece determinar a manutenção desses fluxos. Ao mesmo tempo, os diversos Governos deixaram degradar os serviços consulares e a ligação às comunidades portuguesas no estrangeiro. Não é verdade?
É verdade, e é verdade há muito tempo. Portugal é o país europeu com maior proporção de emigrantes. Segundo as estimativas das Nações Unidas trabalhadas pelo Observatório da Emigração, há cerca de 1,8 milhões de portugueses a viver fora, quase 1,3 milhões deles na Europa: França, Suíça, Reino Unido, Luxemburgo, Alemanha. Se contarmos os descendentes, para os quais não existe estatística, a diáspora europeia anda pelos dois a três milhões. E a emigração não parou com a democracia nem com a integração europeia: quase um terço dos portugueses entre os 15 e os 39 anos nascidos no país vive hoje no estrangeiro, mais de 850 mil pessoas. Os que ficam saem de casa dos pais, em média, aos 29 anos.
Costumo dizer aos jovens que não emigram por gosto pela aventura. Emigram por matemática. Um enfermeiro recém-formado ganha em Portugal pouco mais do que o salário mínimo e, no Luxemburgo ou na Suíça, duas a quatro vezes mais. Formámos a geração mais qualificada da nossa história e exportámo-la. A posição periférica de que falas é estrutural. Fornecemos trabalho barato e qualificado ao norte da Europa e recebemos de volta turismo e capital imobiliário que encarece as casas de quem ficou. As duas pontas são a mesma: o país que não paga a renda a quem fica é o mesmo que exporta quem formou.
Sobre os serviços consulares. Em agosto, um cidadão português dos Açores esteve cerca de um mês detido num centro do ICE, a polícia de imigração norte-americana. O Ministério dos Negócios Estrangeiros falava em “comunicação com as autoridades” quando a Convenção de Viena obriga à visita consular. O portal oficial de conselhos aos viajantes não avisava sequer para o risco que ele correu. Em março, quando foi preciso retirar portugueses do Médio Oriente, o Estado cobrou 600 euros por pessoa pelo voo de repatriamento. E o partido que venceu o círculo eleitoral da emigração europeia nas últimas legislativas, o Chega, propôs em julho suspender o espaço Schengen e repor controlos na fronteira terrestre com Espanha. Quem atravessa essa fronteira em agosto, às dezenas de milhares de carros por fim de semana, são as famílias emigrantes que vêm a casa. A extrema-direita agradece-lhes o voto e põe-nas numa fila.
Uma esquerda que leve a sério o problema da emigração portuguesa sabe que a sangria só acaba vencendo a batalha pelo salário direto e indireto, ou seja, habitação e serviços públicos.
5 - Voltemos ao Governo. O executivo de Luís Montenegro parece apostado em navegar a sua minoria com dois apoios no Parlamento, o Partido Socialista (PS) e o CHEGA. Enquanto o PS viabilizou os Orçamentos do Estado e a nova Prestação Social Única (PSU), o CHEGA garantiu a aprovação de uma gravosa Lei da Nacionalidade, que ataca os migrantes e as suas famílias. Ao mesmo tempo, há uma ameaça de revisão constitucional aprovada pela direita no horizonte. Como vês a evolução deste cenário?
Há uma pergunta prévia sobre esta legislatura: quem governa Portugal? Formalmente, a Aliança Democrática, a coligação de direita de Luís Montenegro. Na prática, cada medida estruturante passa por uma negociação com o Chega. A Lei da Nacionalidade foi escrita com o Chega. A lei dos despejos passou com o Chega. Na Prestação Social Única, seis das sete exigências do Chega foram aceites, apesar da lei no final ter sido viabilizada pelo PS. Os quatro novos juízes do Tribunal Constitucional foram eleitos em junho por uma lista conjunta do PSD, do Chega e do PS. E em junho o PSD e o Chega acordaram o calendário da revisão constitucional: projetos até 30 de dezembro. A AD governa com a aritmética. O Chega governa com a agenda.
O PS escolheu dar estabilidade a este arranjo. Absteve-se na autorização legislativa da Prestação Social Única, uma reforma que apertou o acesso aos apoios dos mais pobres e introduziu trabalho obrigatório não remunerado como condição para os receber. E anunciou a 30 de setembro que se abstém no Orçamento para 2027, depois de “garantias” do primeiro-ministro. Veja-se quais foram as condições do PS: a Constituição, o Chega, as pensões, a reconstrução depois das tempestades. Nenhuma sobre o preço do gasóleo. Nenhuma sobre a prestação da casa. Nenhuma sobre o cabaz alimentar. Um Orçamento numa crise de custo de vida em que a oposição não impõe uma única condição sobre o custo de vida não é responsabilidade. É ausência. E já nem o argumento do medo serve: o novo Presidente da República, António José Seguro, disse como candidato e repetiu como Presidente que chumbar um Orçamento não dissolve o Parlamento e que há sempre um segundo Orçamento. O PS não pode dizer à segunda-feira que o Governo não tem soluções e à terça-feira deixar passar as soluções que o Governo tem.
A revisão constitucional tem uma lógica simples. O Chega apresenta uma e outra vez propostas inconstitucionais e vê-as chumbadas pelo Tribunal. Conclui, com coerência, que o problema é a Constituição. O projeto que entregou em maio inscreve na lei fundamental o que ela hoje proíbe: a prisão perpétua, disfarçada de “revisão periódica”, a perda de nacionalidade e, o mais grave, a eliminação dos limites materiais da revisão, as cláusulas que impedem uma maioria parlamentar de mexer no sufrágio universal, na separação de poderes e nos direitos fundamentais. Propõe ainda apagar a incriminação dos agentes da polícia política da ditadura. Não é descuido. É programa. A Iniciativa Liberal quer rever “toda a constituição económica”. E o PSD, que já votou com o Chega leis declaradas inconstitucionais, remete a discussão para 2027 e cala-se. A ambiguidade é cumplicidade.
A revisão exige dois terços, 154 deputados. A direita, somada, tem-nos. A única pergunta é se o PSD a faz com o Chega ou com o PS, e a abstenção socialista no Orçamento não tranquiliza ninguém. A nossa posição é dupla: defesa intransigente da Constituição de Abril, que não é um texto de 1976, é a tradução jurídica de uma revolução, e propostas próprias que alarguem direitos. Porque o maior problema de Portugal não é a Constituição. É a falta de vergonha de quem, não conseguindo dobrá-la pela legislação ordinária, se propõe demoli-la pela porta da revisão. E a complacência de quem, podendo travar, prefere abrir caminho.
6 - No plano internacional, enquanto outros governos destoam do alinhamento atlantista e do silêncio sobre o genocídio na Palestina, o Governo e a direita em Portugal seguem cúmplices e submissos. Como analisas essa opção?
Começo por reconhecer o que é devido, porque é isso que torna o resto inatacável: Portugal reconheceu o Estado da Palestina a 21 de setembro de 2025 e votou nas Nações Unidas a resolução que exigia o fim da ocupação. O problema é que reconhecer um Estado enquanto se deixa destruir o seu povo é um gesto notarial, não é uma política. Que ato concreto da política externa portuguesa decorreu desse reconhecimento? Não conheço nenhum.
O direito internacional já não permite a ignorância confortável. O Tribunal Internacional de Justiça emitiu três despachos de medidas provisórias vinculativas sobre Gaza e um parecer que declara ilícita a presença de Israel nos territórios ocupados e obriga todos os Estados a não auxiliar a sua manutenção. A Comissão de Inquérito das Nações Unidas concluiu, em setembro de 2025, que Israel cometeu genocídio. A relatora especial Francesca Albanese chamou-lhe “um crime coletivo”, sustentado pelos Estados que continuam a fornecer armas e cobertura diplomática. Segundo os dados das Nações Unidas, entre outubro de 2023 e maio de 2026 morreram mais de 72 mil palestinianos. Quando a flotilha humanitária foi intercetada em águas internacionais, em abril, e dois ativistas foram levados para uma prisão israelita, exigi ao Governo que condenasse a interceção e pedisse a sua libertação. Em política externa, o silêncio também é uma posição.
A submissão atlântica tem um nome e um lugar: a Base das Lajes, nos Açores. Em fevereiro, nas semanas que antecederam a ofensiva dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, a base registou um aumento sem precedentes de tráfego militar norte-americano. O Governo falou numa “autorização condicional”: ações defensivas, proporcionais, contra alvos militares. Donald Trump descreveu a operação como uma mudança de regime. Depois, o secretário de Estado Marco Rubio agradeceu publicamente a Portugal por ter dito sim antes de saber qual era o pedido. E o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, explicou em Bruxelas que as operações a partir das Lajes “não têm de ser autorizadas, nem conhecidas, nem comunicadas a Portugal”. Isto não é soberania condicionada. É soberania abdicada. Apresentei perguntas, uma carta aberta com cerca de 8500 assinaturas, uma proposta de comissão de inquérito, que a direita chumbou, e uma queixa à Procuradoria-Geral da República. E a guerra que encareceu o gasóleo que os portugueses pagam hoje passou pelos Açores com o aval deste Governo.
Há ainda o rearmamento. O Governo contratou fragatas por 3,9 mil milhões de euros ao abrigo do novo instrumento europeu de defesa, num envelope de 5,8 mil milhões, num país cuja história de compras militares é uma história de escândalos de corrupção. A esquerda não pode ceder o terreno da política externa por cansaço.
7 - Algumas sondagens apontam o CHEGA com mais de 25% nas futuras eleições legislativas. A extrema-direita é hoje uma ameaça real em Portugal?
É real, mas a sua medida não está nas sondagens. Está nas leis publicadas. O Chega tem 60 deputados em 230 e não esteve formalmente no governo um único dia. E no entanto a lei da nacionalidade, a lei dos despejos e a reforma das prestações sociais levam a sua marca. Quando dizem que a extrema-direita “ainda não governa”, respondo que governa nos resultados, que é o que conta. Um Governo minoritário que precisa dela para sobreviver normaliza progressivamente as suas bandeiras, e cada cedência abre a porta à seguinte.
Dito isto, não acredito em fatalidades. O Chega perdeu a segunda volta das presidenciais em fevereiro, quando António José Seguro derrotou André Ventura. Entre os jovens de 18 a 34 anos, onde tinha sido o partido mais votado no outono de 2025, caiu para quinto lugar na primavera de 2026. E o pacote laboral mostrou o seu limite: passou meses a gritar contra ele, apresentou 48 propostas de alteração que copiavam o pior do texto do Governo, e acabou a votar contra por pressão da luta social. Não é um partido de princípios. É um partido de preço. Passou meses a falar dos portugueses que não conseguem pagar uma casa e, na hora da votação, deixou passar a lei que os despeja. Hoje, com os protestos na rua, está a tentar rever as suas posições.
A ameaça também é física. A sede do Bloco em Évora sofreu uma tentativa de assalto, da extrema-direita. Recentemente uma grupo miliciano armado foi desmantelado. Há imigrantes assassinados e espancados pela extrema-direita. Há uma escalada real.
Como se combate? A extrema-direita, que não resolve nada, ao menos percebeu qual era a pergunta: a renda, o depósito, o cabaz. O erro não é defender os direitos dos imigrantes ou das pessoas trans. Não se abandonam direitos para agradar a quem os quer tirar. Temos de disputar o assunto do dia com a extrema-direita. Quem escolhe o assunto ganha o debate. O assunto hoje é o preço das casas e a conta do supermercado, e é aí que temos de estar: a disputar com a extrema-direita, voto a voto e rua a rua, a representação de quem trabalha e não chega ao fim do mês.
8 - Recentemente, apresentaste no Parlamento diversas medidas de proteção dos salários, dos serviços públicos e dos direitos sociais. Queres falar-nos das mais relevantes?
Escolho as que cabem numa frase, porque são as que mudam vidas.
Primeiro, o custo de vida. Propusemos o controlo dos preços do cabaz essencial. Uma medida eficaz que já existiu em Portugal. Propusemos preços máximos nos combustíveis enquanto a crise durar: existem há anos nos Açores e na Madeira, existem na Polónia com o mesmo choque que o nosso, e em nenhum destes sítios alguém ficou sem gasóleo. E propusemos uma contribuição sobre os lucros extraordinários da energia, da banca e da grande distribuição, paga já, não em 2027, e sobre todo o lucro extraordinário.
Segundo, a casa. Impor limites às rendas. É urgente impor tetos. E, como Portugal, é um país em que uma parte considerável da classe trabalhadora tem crédito à habitação, propusemos o “Travão Caixa”: o banco público, que é de todos e lucrou cinco milhões de euros por dia no primeiro semestre, absorve a subida dos juros no crédito à habitação em vez de a repassar às famílias. O travão às rendas, que o Governo retirou. E a duplicação do imposto sobre os grandes patrimónios imobiliários, consignado às pensões.
Terceiro, os salários e o tempo. Enquanto o Governo apresentava um pacote para tirar, apresentámos dois projetos para dar: a reposição dos dias de indemnização por despedimento cortados no tempo da troika, limites ao tempo de trabalho, direitos novos face à inteligência artificial e proteção no calor extremo. E uma lei para as centenas de milhares de trabalhadores por turnos e noturnos: 35 horas semanais, acréscimos salariais, vigilância médica e reforma antecipada sem penalização. Quem perde saúde e vida de família para o país não parar tem direito a sair mais cedo, sem castigo.
Um deputado sozinho não muda o país. Mas pode obrigar o país a olhar e ser a voz dos de baixo, da maioria do povo português.
9 - Nos últimos anos, Portugal assistiu a algumas mobilizações importantes, seja em torno do tema da solidariedade com os migrantes ou da derrota do pacote laboral. Como analisas as recentes mobilizações em torno do direito à habitação, com forte expressão no Porto e em Lisboa?
A derrota do pacote laboral foi uma vitória da rua antes de ser uma votação. Em dezembro de 2025 houve a primeira greve geral conjunta das duas centrais sindicais em doze anos. Seguiram-se dezenas de protestos, um abaixo-assinado com mais de 190 mil trabalhadores e uma segunda greve geral a 3 de junho, no próprio dia em que o Governo, com o apoio do Chega, agendava o debate parlamentar. No fim, nenhuma central sindical apoiava a proposta e, a 19 de junho, o Parlamento chumbou-a. A lição é a que repito desde janeiro: há em Portugal uma maioria social que não cabe na maioria parlamentar. A greve geral não foi um protesto. Foi essa maioria a falar.
A habitação é a mesma coisa um andar acima, com uma diferença: desta vez o Governo respondeu com polícia. A 10 de outubro, milhares de pessoas encheram as ruas do Porto, de Lisboa, de Braga e de Aveiro sob um lema que é uma frase inteira de política: “Não dá mais para viver assim”. No Porto, um grupo de manifestantes montou uma acampada numa praça central. Na segunda-feira seguinte, a Câmara Municipal mandou levar as tendas. Na quarta-feira, o presidente da Câmara anunciou que seria “absolutamente implacável” e que preferia estar “do lado de quem trabalha”. Quem estava nas tendas trabalha. Só não consegue pagar uma casa. E na madrugada de quinta-feira, às três da manhã, depois de os jornalistas se irem embora, entrou o corpo de intervenção da polícia. O movimento conta 37 feridos, dois com fraturas. O ministro da Administração Interna chamou-lhe repor a ordem. O primeiro-ministro pediu aos manifestantes que não fossem egoístas.
Egoísta é baixar os impostos a quem cobra 2300 euros de renda e defender a carga policial sobre quem não consegue pagar 900. Entreguei treze perguntas ao ministro e um voto de solidariedade no Parlamento. A Constituição portuguesa garante o direito de reunião sem autorização de ninguém e garante a todos uma habitação digna. Este Governo falha a segunda e, quando lhe lembram a primeira, manda a polícia. Intimidar é o que se faz às três da manhã.
O que estas mobilizações têm de novo é a sua composição. Não são só os sindicatos nem só os movimentos: são famílias com filhos, jovens que não conseguem sair de casa dos pais, trabalhadores com contrato e sem casa. É uma coligação social que ainda não encontrou tradução política, e esse é precisamente o trabalho da esquerda. A história ajuda a perceber o que está em jogo. Em 1846, no Minho, foi uma revolta de mulheres, a Maria da Fonte, que derrubou um governo em poucas semanas: começou pelo direito de enterrar os mortos e cresceu contra os impostos. Em Glasgow, em 1915, foram as mulheres em greve de rendas. No Portugal de 1974, foram os moradores a construir as suas próprias casas com o apoio do Estado.
Quando o poder mexe no que é de todos, o povo levanta-se, e quase sempre quem se levanta primeiro são as mulheres. A próxima data é 14 de novembro, com uma nova manifestação nacional pela habitação. Estaremos lá. E no Parlamento, voto a voto, a lei dos despejos vai encontrar-nos pela frente.
10 - O Bloco de Esquerda completou 27 anos de existência. A esquerda passa hoje por dificuldades e escasseiam espaços que permitam o contra-ataque. Por outro lado, o Bloco organizará, no próximo ano, a sua conferência de renovação programática e, no Parlamento e nas ruas, o tema do combate ao aumento do custo de vida parece ocupar o centro da ação. Fala-nos dessa esquerda e desse compromisso.
Sou sociólogo e, por isso, começo pelo que os dados dizem: nas legislativas de 2025 o Bloco teve cerca de 2% e perdeu quase toda a sua representação parlamentar. Regressei ao Parlamento em janeiro como deputado único. Não vale a pena disfarçar nem culpar os eleitores. Os eleitores pediram humildade, mas humildade não é silêncio: tem sido trabalhar o dobro com um décimo dos meios.
A crise da esquerda não é portuguesa, é global, e as suas razões também - apesar de existirem sinais de esperança. Temos visto que onde a esquerda fala de preços, de rendas e de salários com a mesma clareza com que a extrema-direita fala de medo, ganha. Ganhou em Nova Iorque com Zohran Mamdani, um candidato que só falou do custo de vida. Ganhou na rua, em Portugal, contra o pacote laboral.
É isso que a conferência de renovação programática do próximo ano tem de fazer: discutir como a intervenção da esquerda se confunde com as preocupações reais das pessoas. Temos de nos reinventar. Vinte e sete anos de Bloco, cinquenta de democracia e gerações de luta antifascista, sindical, feminista, ecologista e antirracista deixaram-nos um património de que nos orgulhamos, e que só se honra se for posto ao serviço do tempo que vem. Reconstruir a esquerda é abri-la, alargá-la, torná-la capaz de organizar quem hoje sofre e ainda não encontrou onde se organizar. Não se faz contra ninguém. Faz-se com toda a gente que connosco quiser fazê-lo, dentro e fora do Bloco, com os partidos à nossa esquerda e com os movimentos. A unidade da esquerda não é uma operação aritmética. É dar força às lutas sociais e fazer chegar às urnas a maioria que já existe nas ruas.
O compromisso com o combate ao custo de vida não é uma tática eleitoral. É o regresso ao que o Bloco sempre foi: a força que, há dez anos, pôs os grandes patrimónios imobiliários a pagar pensões e devolveu rendimentos cortados pela troika. Erik Olin Wright escreveu que o capitalismo é a única fábrica que produz em série os seus próprios adversários. A nossa tarefa não é guardar relíquias. É ganhar maiorias. O nosso catecismo é curto e cabe numa frase: aumentar a liberdade de quem vive do seu trabalho. Tudo o resto é método.
Fabian Figueiredo é deputado na Assembleia da República portuguesa e uma das principais figuras do Bloco de Esquerda, um partido de esquerda progressista e anticapitalista.
