Por Carlos Aznárez, no Resumen Latinoamericano
Tradução: Equipe Radar Internacional
Meio século depois, a ditadura cívico-militar-empresarial e religiosa instaurada na Argentina no 24 de março de 1976 continua dando muito o que falar. Não apenas porque 50 anos é sempre uma data que convida a evocar acontecimentos dolorosos ou agradáveis, mas porque as consequências desse atropelo brutal contra todo um povo permanecem muito presentes na atualidade. Tanto que uma grande maioria de integrantes do atual governo, começando pelo presidente e sua vice, estão empenhados em campanhas negacionistas e se declaram admiradores dos militares genocidas. De tal forma que os poucos assassinos fardados que ainda permanecem presos por crimes contra a humanidade podem vir a sair livres e impunes por obra e graça de um indulto presidencial.
A ditadura de 76 é como Hiroshima, já que, assim como ocorre com esse ataque criminoso realizado pelos Estados Unidos contra a população civil, na Argentina não há um dia em que suas consequências políticas e econômicas não se infiltrem nos mecanismos dos governos que costumam encher a boca com a palavra “democracia”. No extremo oposto, o mesmo acontece com aqueles que, fazendo uso de uma memória fértil, não deixaram de recordar e reivindicar os 30 mil homens e mulheres que foram detidos, desaparecidos e assassinados por lutar por uma Revolução que ainda segue pendente.
É por isso que, neste 50º aniversário, torna-se necessário recordar que, embora a ofensiva repressiva criminosa tenha recorrido a uma crueldade sem limites, recolhendo os ensinamentos da Escola das Américas, mantida pelos EUA, assim como da “escola francesa” aplicada contra a insurgência argelina, também houve, em todos os anos em que os militares governaram e inclusive no período “democrático” de Isabel Perón, uma forte resistência popular que abrangia todos os setores da sociedade.
A militância argentina, com todas as suas nuances — política, sindical e social —, além daquela protagonizada pelas organizações revolucionárias que assumiram uma prática armada, não deixou de lutar contra a estratégia de aniquilamento imposta pelos militares e seus cúmplices. Estratégia que já começou a se delinear em 1975, com a atuação criminosa da Triple A, assassinando centenas de militantes populares, e que provocou respostas contundentes. Nesse aspecto, com grandes mobilizações sindicais, greves, bloqueios de estradas, ocupações de fábricas, tomadas de universidades e inúmeras ações armadas, gerando, entre outras vitórias, a queda do ministro da Economia, Celestino Rodrigo, e do ministro do Bem-Estar Social e inspirador da Triple A, José López Rega. Ambos empenhados — como hoje faz o atual governo de Milei — em destruir as conquistas sociais dos trabalhadores e trabalhadoras.
Por que, para falar da ditadura de 76, é necessário voltar ao que ocorreu um ou dois anos antes? Simplesmente porque esse período foi o que abriu as portas para o que viria depois. Os militares e a oligarquia mais recalcitrante não podiam tolerar que o movimento de massas, com características claramente revolucionárias — aqueles milhares de jovens que lutavam por uma Pátria Socialista — estivesse prestes a “tocar o céu com as mãos”. O fracasso do governo de Perón, que se apoiou na ala mais retrógrada e direitista de seu movimento, e a política entreguista de sua esposa e sucessora, somados à conivência com o estamento militar, levaram estes últimos a deixar de lado intermediários e assumir o poder em março de 1976.
O que veio depois, no que diz respeito à repressão, é bem conhecido: um poderoso tsunami de horrores arrasou todos os direitos, assassinando, encarcerando ou enviando ao exílio dezenas de milhares de pessoas.
No entanto, e isso é algo muito importante de recordar agora que este 50º aniversário volta a trazer à tona tantos episódios de crueldade, nunca se deixou de resistir. E essa resistência ocorreu em todos os âmbitos, por todas as formas. É precisamente disso que é necessário falar neste aniversário.
Resistência sindical
Houve — e muita. Lutou-se contra a repressão, a intervenção nos sindicatos, as detenções e os assassinatos de delegados e comissões internas de trabalhadores da produção, do setor público e de serviços. Foram precisamente os trabalhadores o principal alvo da ditadura militar, e calcula-se que 66% dos detidos-desaparecidos pertenciam a esse setor. Era lógico, já que, desde o início, os militares proibiram o direito de greve, além de que o plano econômico do ministro José Martínez de Hoz provocou, entre outras perversidades, uma perda significativa do valor dos salários.
Para enfrentar essa realidade, a classe trabalhadora realizou sabotagens, “trabalho a tristeza” (operação tartaruga), greves, mobilizações e, em alguns casos, as formas mais duras de protesto contaram com o apoio de organizações armadas, sobretudo nos dois primeiros anos do golpe militar. Naquele momento, a organização Montoneros havia constituído, na clandestinidade, a CGT na Resistência, que contava com delegados de base que haviam sobrevivido às campanhas de sequestros ocorridas nas grandes fábricas de todo o país. Experiências semelhantes foram realizadas pelo Exército Revolucionário do Povo e por outros grupos menores.
Poucos meses depois daquele 24 de março, em outubro de 1976 ocorreu uma greve dos trabalhadores de luz e energia. A reivindicação salarial não foi finalmente atendida, e a repressão se voltou com força contra delegados combativos, além do sequestro e desaparecimento do secretário-geral do sindicato, Oscar Smith.
Nesse mesmo período, quando o país começava a se transformar em um cemitério, também entraram em greve os trabalhadores telefônicos, ferroviários, metroviários e de alguns engenhos açucareiros.
Posteriormente, entre setembro e novembro de 1979, ocorreram no país 60 conflitos operários em empresas importantes, vários dos quais terminaram em vitórias parciais ou totais. É significativo o aumento salarial conquistado pelos operários da Peugeot, que paralisaram as atividades e, em seu local de trabalho, cantaram várias vezes o hino nacional. Depois, outras empresas se somaram, todas com reivindicações semelhantes, como Ducilo, Standard Electric, Chrysler e Gilera — estas duas últimas do setor dos mecânicos. Nesse mesmo ano ocorreu uma greve geral convocada pela “Comissão dos 25” (que reunia vários sindicatos, majoritariamente peronistas, do setor produtivo). Essa mobilização contou com a adesão de 50% de toda a indústria e representou um forte desafio ao governo militar.
Mas a maior mobilização, de caráter multissetorial, foi convocada pela combativa CGT Brasil, à frente da qual estava o dirigente cervejeiro Saúl Ubaldini, que nos anos seguintes assumiria um papel importante no movimento operário. A marcha foi convocada para a Praça de Maio e ocorreu em 30 de março de 1982, sob a consigna “Paz, Pão e Trabalho”. O ditador Leopoldo Galtieri a proibiu, mas dezenas de milhares de trabalhadores tomaram as ruas; houve forte repressão a tiros, sendo assassinado o operário Benedicto Ortiz e presos os principais dirigentes da CGT Brasil, incluindo Ubaldini. Dois dias depois dessa importante rebelião popular, a ditadura tirou da cartola uma gigantesca manobra de distração, ocupando as Ilhas Malvinas, mas a “façanha” terminou em um novo banho de sangue para os jovens argentinos enviados nessa expedição, enquanto seus chefes se rendiam covardemente.
Depois dessa derrota, a ditadura ficou enfraquecida, embora não tenham faltado novas ações repressivas. Ainda assim, o movimento operário continuou gerando conflitos salariais, e em 6 de dezembro de 1982 ocorreu uma nova greve geral convocada pela CGT Brasil e pela burocrática CGT de Azopardo, com apoio multipartidário. Na marcha multitudinária que acompanhou a paralisação, foi assassinado o operário metalúrgico Dalmiro Flores.
Resistência das Mães da Praça de Maio
A ação repressiva da ditadura impôs um método que, embora tivesse alguns antecedentes em anos anteriores, não havia sido desenvolvido de forma massiva: o sequestro e desaparecimento de pessoas. Muitos acabavam amontoados em campos de extermínio e, posteriormente, eram assassinados. Diante dessa expressão da crueldade militar, ergueram-se justamente as mães daqueles que eram violentamente detidos e de quem nunca mais se tinha notícia do paradeiro. Depois de percorrerem inúmeras delegacias e quartéis militares em sua busca, essas mulheres corajosas decidiram ir às ruas para tornar visível seu protesto e, em 30 de abril de 1977, começaram a dar voltas ao redor da Pirâmide da Praça de Maio, primeiro em silêncio e depois (todas as quintas-feiras, até hoje) exigindo saber “onde estão”.
Foram rotuladas de “loucas”, de “terroristas”, mas não cederam, e em uma dessas primeiras quintas-feiras, lideradas por Azucena Villaflor, decidiram usar na cabeça, como um lenço, uma fralda de quando seus filhos eram pequenos. Esse símbolo, junto a uma luta tenaz e extremamente corajosa (várias delas foram sequestradas e assassinadas), deu a volta ao mundo e representou um golpe letal contra a impunidade dos militares assassinos.
Resistir é vencer
“Se não tivesse havido resistência por todos os meios possíveis, a ditadura militar teria durado muitos anos mais”, costumava dizer em suas intervenções públicas o falecido dirigente montonero Roberto Perdía. E é verdade que, para além do medo e da paralisia que podia provocar o risco de engrossar a lista dos desaparecidos, surgiram muitas iniciativas e militantes que fizeram o possível e o impossível para desgastar os genocidas.
Houve Resistência Cultural, por meio de uma luta não violenta, utilizando a arte, a literatura e a música para desafiar a censura e a repressão. Foram criados espaços independentes e clandestinos para manter viva a memória e denunciar violações de direitos humanos. Nos últimos dois anos da ditadura, ganhou destaque o Teatro Abierto, surgido em 1981 como resposta de dramaturgos, atores e diretores à censura, à perseguição e à proibição artística impostas pela ditadura.
No caso da Resistência estudantil, ela também foi muito complexa, já que a ditadura interveio em todas as universidades e organizou a queima massiva de livros de esquerda ou de pensamento crítico. Em setembro de 1976, forças repressivas sequestraram e fizeram desaparecer estudantes secundaristas em La Plata que exigiam direitos estudantis, marcando um dos episódios mais atrozes da repressão, conhecido como “A Noite dos Lápis”. Os estudantes participaram da resistência geral junto a sindicatos e organizações de direitos humanos.
Também houve Resistência Comunicacional, com numerosas publicações “paralegais” e algumas transmissões radiofônicas clandestinas organizadas pelos Montoneros e pelo ERP. Nesse campo, destacou-se, a partir de maio de 1976, a Agência de Notícias Clandestinas (ANCLA), dirigida pelo jornalista, escritor e militante montonero Rodolfo Walsh. A ANCLA representou a possibilidade de romper a censura total e fornecer, no país e no exterior, informações sobre o que realmente estava acontecendo diante da atuação criminosa da ditadura. Um pequeno grupo de comunicadores — entre os quais estava quem escreve este texto — realizou essa tarefa durante um ano e meio, até que Walsh fosse assassinado, outra das companheiras do grupo fosse sequestrada na ESMA, e parte da redação tivesse que partir para o exílio. Dessa manifestação de resistência jornalística, vale lembrar a Carta à Junta Militar, escrita por Walsh, denunciando todas as atrocidades da ditadura.
Houve também Resistência armada, apesar de as organizações revolucionárias estarem debilitadas por sofrerem duros golpes repressivos. Ainda assim, ocorreram numerosos atentados e sabotagens em todo o país. Nesse mesmo âmbito, os Montoneros organizaram uma “contraofensiva” a partir de 1979, com o retorno ao país de militantes que estavam no exílio. Essa operação gerou várias ações guerrilheiras bem-sucedidas, mas também sofreu repressões que deixaram como saldo numerosos militantes assassinados.
Por fim, entre 1976 e 1983, pode-se dizer que houve também uma Resistência “silvestre”, isto é, homens e mulheres que se auto-organizaram em bairros, fábricas e universidades, às vezes de forma legal e outras de maneira semiclandestina, para, de diferentes formas, expressar sua rejeição à brutal militarização do país, à tortura, aos crimes e à irracionalidade de um governo que chegou para destruir todos os laços sociais, hipotecar a soberania e permitir o saque imposto pelas multinacionais e pelo capitalismo. Um governo — aquele dos uniformes e das botas — com um programa corrosivo muito semelhante ao atual.
Conclusão: 50 anos depois, o povo consciente — trabalhadores, estudantes, aposentados, militantes de direitos humanos — não apenas volta a homenagear aqueles que deram tudo lutando contra a ditadura, como também constrói, todos os dias, novas ações de resistência. Como bem disse a Mãe da Praça de Maio, Norita Cortiñas, porque só assim “venceremos”.
