Por Adriano Campos
Enquanto as bombas caem no Irã e a fatura da guerra é paga pelos povos, os representantes da extrema-direita na Europa apressam-se em esconder os seus bonés MAGA, usados com orgulho e alarde há pouco mais de um ano.
À semelhança dos seus comparsas europeus, também a extrema-direita portuguesa disputou, há pouco mais de um ano, um espaço no firmamento MAGA. Em janeiro de 2025, André Ventura, líder do partido CHEGA, anunciou, com pompa e circunstância, ter sido “o primeiro português a ser convidado para a tomada de posse de Donald Trump”. Mesmo que secundarizados pelos tecno-oligarcas no salão imperial, muitos dos que se deslocaram ao beija-mão a Washington não demoraram a fazer juras de amor eterno em solo europeu, procurando capitalizar politicamente essa proximidade.
A cimeira de Madrid (8 de fevereiro de 2025) foi um desfile MEGA — Make Europe Great Again, expressão cunhada por Elon Musk que decorou o palco deste encontro em todo o seu esplendor. De Le Pen a Abascal, de Orbán a Salvini, quase todos os líderes da extrema-direita elogiaram Donald Trump, as suas promessas de fecho de fronteiras, de perseguição aos “wokistas” e o seu apoio à ação genocida de Israel. Make Europe Great Again transformou-se na nova cartilha, mas, um ano mais tarde, muito mudou.
Primeiro, foram as tarifas
Como explicou Cláudio Katz, “Donald Trump está a tentar recuperar a centralidade imperial dos Estados Unidos. É a única forma de engrandecer os capitalistas do seu país às custas do resto do mundo. O pacote de sanções, tarifas e chantagens que pôs em prática exige uma revitalização do império.” A agressividade errante das tarifas não apenas fortaleceu líderes como Lula e Claudia Sheinbaum, capazes de gizar uma resposta soberanista de defesa das suas economias, como também expôs as contradições profundas da extrema-direita europeia, presa entre a fidelidade trumpista e os seus próprios interesses eleitorais.
Perante o garrote comercial, a extrema-direita europeia preferiu, como muitas vezes o faz, dar o dito por não dito. Aos elogios iniciais às medidas de Trump sucederam-se críticas ao acordo entre União Europeia e EUA, anunciado em abril de 2025. Le Pen foi célere em acusar a Comissão Europeia de ter compactuado com “cláusulas assimétricas" que jamais a França, governada por um executivo patriota, teria aceitado. Centenas de milhares de milhões de euros em gás e armamentos deverão ser importados todos os anos dos Estados Unidos. É uma capitulação em campo aberto para a indústria francesa e para a nossa soberania energética e militar.” Santiago Abascal (VOX), por sua vez, passou meses de aperto após dizer “compreender e respeitar” as medidas anunciadas por Trump, e não por acaso os partidos da extrema-direita dividiram-se na votação do acordo comercial no Parlamento Europeu.
No caso português, André Ventura, que chegou a defender que “o que Donald Trump está a fazer nos Estados Unidos é o que nós temos de fazer na Europa — proteger os nossos trabalhadores, proteger as nossas empresas, proteger quem trabalha”, em poucos meses passou a defender “retaliações comerciais” contra os EUA. Como diz o ditado português, “dar o dito por não dito” é uma especialidade da extrema-direita lusitana.
A seguir, o sacrifício da OTAN
Outra pedra no sapato da extrema-direita europeia foi a ofensiva política de Trump contra a NATO. Como o ataque ao Irão deixou claro, um dos objetivos políticos do governo norte-americano é desgastar a aliança militar, enquanto os governos europeus aumentam os gastos públicos na indústria militar e aceleram a militarização como projeto de integração europeia. Trata-se de uma estratégia que transfere recursos públicos para o complexo militar-industrial, aprofundando desigualdades e desviando investimento de áreas sociais críticas.
A ameaça expansionista e imperialista sobre a soberania da Groenlândia - região autónoma da Dinamarca, país membro da OTAN - foi um embaraço para a extrema-direita europeia. Até partidos tradicionalmente críticos da aliança atlântica, como a AfD (Alemanha) ou o Rassemblement National (França), viram-se obrigados a criticar a ofensiva de Trump sobre a região.
André Ventura e o CHEGA, desde o primeiro momento, fizeram jus à sua posição atlantista e fortemente pró-NATO, alinhando com o governo português na defesa do aumento da despesa militar e do reforço da aliança. Sem conseguir escapar a um distanciamento em relação à ameaça trumpista contra a soberania da Groenlândia, Ventura foi rápido a defender a utilização da base militar das Lajes, na Região Autónoma dos Açores, como plataforma logística de ataque ao Irão. A disponibilidade para envolver o país na agressão de Trump e Netanyahu demonstra até que ponto a retórica nacionalista cede perante a lógica da guerra.
Finalmente, chegou a fatura da guerra
Meloni deu o tom e outros se seguiram. O ataque ao Irão é o novo capítulo no livro dos constrangimentos da extrema-direita europeia. A agressão, desde o primeiro dia, deixou à vista os seus custos sobre a economia global. O fecho do estreito de Ormuz e a desestabilização da região provocada pelos bombardeamentos de Israel e EUA elevaram o preço do petróleo e obrigaram vários governos europeus a avançar com medidas de emergência para as suas economias. É hoje mais evidente aos olhos dos povos europeus que Trump é um perigo para as suas carteiras e para qualquer cenário de paz no mundo.
Em Portugal, os dirigentes do CHEGA limitam-se cinicamente a criticar os aumentos dos combustíveis e as medidas do governo, de quem foram aliados na política de apoio à guerra. André Ventura e os seus comparsas europeus bem podem esconder os seus bonés MAGA no baú da hipocrisia, tal qual arneses de matilha manchados por Trump, mas não será coincidência que as contradições no mundo MEGA tenham contribuído, em muito pouco tempo, para a derrota de Meloni no referendo sobre reforma judicial, no fracasso da extrema-direita na Eslovênia e no pesadelo eleitoral de Viktor Orbán na Hungria. E ainda faltam três anos para o fim de mandato do antigo chefe e aliado, Donald Trump.
