Campanha internacional pede liberdade do ex-vice-presidente do Equador, Jorge Glas, que diz passar fome na prisão

Por Luís Indriunas

Preso há dois anos, Glas está com desnutrição severa; carta com cerca de 350 assinaturas denuncia 'prisão política'.

Preso desde abril de 2024, o ex-vice-presidente do Equador, Jorge Glas, disse estar passando fome na Penitenciária Carcel del Encuentro, em Santa Elena, Equador. A declaração foi feita na audiência do dia 2 de abril, quando Glas pediu, por meio de habeas corpus, melhorias nas condições da prisão. Mais de 300 líderes internacionais denunciam a prisão como “política” e exigem sua libertação.

O habeas corpus, negado pela Justiça do Equador no dia 5 de abril, pedia um aumento da sua ração diária de alimentos, melhores condições e acompanhamento médico por causa de grave quadro de desnutrição.

“Acordo com fome, passo a tarde com fome e vou dormir com fome”, disse Glas na audiência. “E a prova de que minha fome é real são 13,6 kg a menos no meu peso. Aqui estão, Meritíssimo, aqui estão meus ossos, aqui estão minhas costelas, o senhor pode contá-los como as cordas de um violão.” O depoimento foi publicado em sua conta na rede X.

Segundo um parecer médico de fevereiro deste ano, Glas perdeu nove quilos em apenas três meses. Além disso, ele tem acesso restrito à hidratação e água potável, apresenta instabilidade ao ficar em pé, perda acentuada de massa muscular e anemia comprovada e acusa de haver irregularidade na administração de medicamento pela gestão da prisão.

“Estou sendo categórica. Eu o estou vendo morrer”, disse a advogada de Glas, Sonia Gabriela Vera García, em um post nas redes sociais. A defesa de Glas afirma ainda que o estado atual do ex-vice-presidente é de “tortura sistemática”.

Sequestrado e preso por policiais equatorianos em 05 de abril de 2024 durante uma invasão policial à embaixada do México, em Quito, ele não tem recebido visita dos familiares desde dezembro de 2024. Os encontros com seus advogados são feitos sob vigilância de guardas, quebrando a prerrogativa do sigilo entre cliente e advogado.

Exigimos sua libertação

Cerca de 350 líderes e personalidades do mundo inteiro iniciaram neste sábado (11) uma campanha pela libertação de Glas. Com título Dois anos após o ataque à embaixada mexicana, Jorge Glas continua preso político. Exigimos sua liberdade, o documento tem assinatura de personalidades como o jornalista Julian Assange, o músico britânico Roger Waters, os ex-presidentes Evo Morales Ayma (Bolívia), Rafael Correa Delgado (Equador) e Alberto Fernández (Argentina), além de deputados da União Europeia e representantes de associações de Direitos Humanos. A carta é encabeçada pelo Comitê Internacional pela Libertação de Jorge Glas e pelo Observatório Lawfare, organização internacional que combate guerra política por via judicial.

A carta afirma que a prisão é “uma agressão sem precedentes contra a paz e a segurança da América Latina e do Caribe” e viola diversas leis internacionais, entre elas, a Convenção de Viena e a Convenção de Caracas sobre Asilo Diplomático. O documento reforça a denúncia de “tortura sistemática” e detalha as condições de saúde do líder equatoriano. É possível aderir à campanha clicando neste link.

Crise entre Colômbia e Equador

Após a negativa da Justiça, o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, disse na segunda-feira (6), nas redes sociais, que Glas é um preso político e pediu ao presidente do Equador, Daniel Noboa, que o libertasse. A reação do governo de extrema direita foi considerar a declaração de Petro “uma intromissão nos assuntos internos”.

No dia seguinte, a ministra das Relações Exteriores do Equador, Gabriela Sommerfeld, convocou o embaixador equatoriano na Colômbia para consultas.

Esta não é a primeira manifestação de Petro a favor de Glas. Ainda em 2024, assim como outros líderes como o ex-presidente Evo Morales e o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, Gustavo Petro reagiu à prisão. “Se rasgou a Convenção de Viena e a soberania do México e Equador. Volto a insistir que a América Latina e o Caribe, qualquer que sejam as construções sociais e políticas em cada país, devem manter os preceitos do direito internacional em meio à barbárie que avança no mundo e o pacto democrático dentro do continente”, escreveu na ocasião.

Em setembro de 2025, a Colômbia concedeu a nacionalidade a Glas, que tem também cidadania alemã. Na ocasião, Petro disse que informaria o governo equatoriano e reiterou o pedido de liberação.

Glas é mais um capítulo da crise diplomática entre os dois países. Na quinta (9), a Colômbia convocou sua embaixada a se retirar do país vizinho. O Equador impôs um novo aumento das tarifas para até 100% por, segundo o governo de Noboa, “falta de implementação de medidas concretas e efetivas em matéria de segurança fronteiriça por parte da Colômbia”.

Líder da Revolução Cidadã

Jorge Glas governou o Equador ao lado de Rafael Correa entre maio de 2013 e novembro de 2017, quando passou a enfrentar acusações de corrupção após uma guinada à direita no governo do país.

O político também foi vice-presidente no início do governo de Lenín Moreno, com o qual rompeu politicamente, o que motivou a sua expulsão do comando do país.

Na era Correa, Glas foi um dos principais líderes do projeto chamado “Revolução Cidadã”, uma coalizão com partidos de esquerda e movimentos populares que ampliou direitos sociais e buscou romper com a política econômica neoliberal.

Nesse período, uma Assembleia Constituinte inseriu na Constituição equatoriana a garantia de direitos fundamentais, incluindo a população indígena, a promoção da cultura nacional e a valorização da soberania do país.

Na mesma época, o Equador rompeu ainda com o Fundo Monetário Internacional (FMI), renegociou contratos de petróleo e protagonizou a integração no subcontinente na União de Nações Sul-Americanas (Unasul).

Glas foi condenado duas vezes, em 2017 e 2020, a seis e a oito anos de prisão, respectivamente. Entre as provas usadas contra ele estavam documentos levantados pela Operação Lava Jato. O comitê pela libertação de Glas afirma que, apesar da falta de provas, ele cumpriu 100% de sua pena acumulada nos casos conhecidos como “Odebrecht” e “Subornos” e que foi fabricado um outro processo para mantê-lo preso,

Segundo a defesa do político equatoriano, porém, a acusação é fruto de lawfare, que significa o uso da Justiça para fins de perseguição política, similar ao processo que atingiu o presidente Lula.

Editado por: Thaís Ferraz