CHEGA: para onde vai a extrema-direita em Portugal?

Adriano Campos

Imagem: Reprodução Brasil de Fato

O fim da “exceção portuguesa”

Em 2019, Portugal era um país singular na ordem internacional. Ao fim de quatro anos de governo minoritário do Partido Socialista - que afastou a direita do poder através de uma negociação parlamentar com o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista, a chamada “geringonça” - a extrema-direita continuava a ser marginal na política portuguesa. Mesmo após o Brexit, a primeira eleição de Donald Trump nos EUA e de Bolsonaro no Brasil, perante o crescimento dos partidos de extrema-direita em vários países da Europa, havia poucos sinais de que a “exceção portuguesa” fosse terminar. Portugal seguia sendo um dos poucos países sem representação parlamentar e institucional da extrema-direita.


Nas duas primeiras décadas do século, o quadro parlamentar português apresentou uma estabilidade notável. O Partido Socialista e o Partido Social Democrata (pertencente ao Partido Popular Europeu) alternaram no governo como partido mais votado. Já o partido mais à direita, o CDS-PP (democratas cristãos), atingiu valores na casa dos 10%, e o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda alcançaram, em conjunto, 20% dos votos. Num país profundamente desigual, dilacerado pela crise financeira e pelo plano de austeridade da troika (2011 - 2014), a recuperação de rendimentos e o salto económico operados pela “geringonça”, aliados ao facto de Portugal ter um baixo número de imigrantes, combustível habitual da extrema-direita, deixava pouca margem a alterações de fundo no cenário político. É nesse contexto, nas eleições legislativas de outubro de 2019, que André Ventura é eleito deputado único pelo seu recém-criado partido, o CHEGA.



A entrada no parlamento e o crescimento do partido


André Ventura, 43 anos, é um funcionário público de origem familiar modesta e com um percurso escolar fortemente marcado pelo conservadorismo católico. A par do seu percurso no PSD, onde permaneceu vários anos até à sua desfiliação, em 2018, tentou ascender por diversas vias. Ponderou seguir uma carreira eclesiástica, publicou romances que não alcançaram o mínimo sucesso, tornou-se num conhecido comentador desportivo num canal de televisão e não logrou mais do que um terceiro lugar nas eleições municipais, como candidato do PSD à prefeitura de Loures, município periférico à capital portuguesa. Nessa campanha, Ventura ensaiou o tema que levaria às eleições europeias e legislativas: a ciganofobia. Em Portugal, estima-se que a comunidade cigana possa representar entre 0,4% e 0,6% da população, mas é alvo de níveis muito superiores de racismo e discriminação. A agressividade da campanha de Ventura contra a comunidade cigana levou inclusive ao rompimento por parte do CDS-PP, parceiro de coligação do PSD na candidatura a Loures.


Em 2018, já fora do PSD, Ventura valeu-se da visibilidade alcançada para lançar o “movimento CHEGA”, que se traduziu na coligação “BASTA” nas eleições europeias de 2019. Como cabeça de lista da coligação, Ventura notabilizou-se na campanha por defender a prisão perpétua, a castração química para pedófilos, a redução do número de deputados, o reforço das fronteiras e, obviamente, o ataque à comunidade cigana, apelidando-os de “subsídio-dependentes”. Passados poucos meses, bastaram 22053 votos (2% do círculo eleitoral do distrito de Lisboa) para André Ventura ser eleito como o primeiro e único deputado do recém-legalizado CHEGA na Assembleia da República.


Com votações ainda muito baixas nos restantes círculos eleitorais, a visibilidade parlamentar de Ventura foi o combustível primordial para o crescimento de um partido ainda em formação. Segundo o jornalista Miguel Carvalho, podemos identificar três núcleos constituintes da direção inicial do CHEGA. Em primeiro lugar, surgem antigos militantes e dirigentes de diversas constelações da direita portuguesa. Desde Diogo Pacheco de Amorim, ex-dirigente do tenebroso MDLP, António Tânger Corrêa, diplomata com ligação ao CDS-PP, até dirigentes destacados, como Pedro Pinto, Rui Paulo Sousa e Gabriel Mithá Ribeiro, todos ex-militantes do PSD. Em segundo lugar, encontramos um grupo de dirigentes evangélicos, com grande peso de cidadãos brasileiros, muito ativos na expansão territorial do partido e na campanha das redes sociais, liderados por Lucinda Ribeiro. Por fim, um conjunto heterogéneo de dirigentes, com ligações ao movimento ZERO, provenientes do IRA, membros de associações de pais, professores, enfermeiros, muitos profissionais que não lograram alcançar posições em funções públicas, entre outras realidades do chamado “baixo clero” do CHEGA.



O que defende o CHEGA?

Primeiro, o partido, depois, o programa. A base programática do CHEGA nunca foi a prioridade de Ventura e da sua direção. Além das medidas já enunciadas, apresentadas com o objetivo de provocar choque e demarcar um campo à direita das direitas tradicionais, o CHEGA submeteu às primeiras eleições um programa profundamente neoliberal, propondo a redução dos impostos, a diminuição do peso do Estado na economia e a privatização de serviços públicos, entre outras medidas. Essa dimensão do programa sofreu uma rápida inflexão, com André Ventura a apresentar-se no Parlamento contra a privatização da transportadora aérea nacional (TAP), a favor do aumento das aposentadorias e do apoio a políticas de natalidade por parte do Estado. A elasticidade intelectual de Ventura é, de resto, uma das suas marcas. Na sua tese de doutorado, defendida em 2013, Ventura criticou o “populismo penal”, a “excessiva expansão dos poderes policiais” e a “estigmatização das minorias”, numa clara contradição com o que viria a ser o discurso público do recém-eleito deputado do CHEGA.


O sinuoso caminho programático do CHEGA deixa à vista, no entanto, algumas propostas perenes, que o aproximam dos congéneres europeus da extrema-direita. Há, no seu discurso e nas suas propostas, um permanente pendor anti-sistema, gizado a partir da ideia do combate à corrupção generalizada, assim como da denúncia de uma “democracia viciada” pelos “mesmos de sempre” que governam Portugal desde o 25 de abril de 1974. Ao louvor às forças de segurança pública, o CHEGA soma uma resposta punitivista de aumento das penas para crimes graves, enquanto expõe, sem pudor, a sua ciganofobia e islamofobia. No plano da imigração, Ventura recorre à fórmula dos “bons imigrantes”, os brasileiros e dos “maus imigrantes”, os cidadãos provenientes dos países indostânicos. O combate à “ideologia de género”, por sua vez, teve uma enorme centralidade na campanha eleitoral de 2024, enquanto aumentaram as referências à defesa dos direitos das mulheres, ameaçados, segundo o partido, pelo aumento do número de imigrantes, os quais degradam os serviços públicos e aumentam a insegurança.


Dentro deste menu, retirado da cartilha da extrema-direita internacional, há nuances nacionais. Até há pouco tempo, Ventura cortejou o passado colonial português, recusando associar-se ao louvor saudosista salazarista. Defender os direitos dos ex-combatentes da guerra colonial e dos chamados “retornados”, além de negar qualquer responsabilidade reparativa de Portugal em relação aos países colonizados, foi o máximo a que chegou o líder do CHEGA. No fim de 2025, no entanto, Ventura afirmou que “eu sou um democrata e sou mesmo, por natureza. Mas há uma expressão que se ouve muito e, de facto, faz sentido. De facto, não era preciso um Salazar, eram precisos três Salazares. Porque o país está tão podre de corrupção, impunidades, bandidagens que eram precisos três Salazares para pôr isto na ordem.” Depois desta afirmação, Ventura tem tentado criar uma maior polarização em torno de temas históricos, denunciando os “excessos revolucionários” de 1974/75, equiparando-os às perseguições e prisões políticas do período ditatorial.



Quem dirige e financia o Chega?


André Ventura e o CHEGA, o partido de um homem só? Esta pergunta tem sido repetida vezes sem conta, tal é o nível de concentração mediática e política de Ventura e a sua identificação como líder incontestado do CHEGA. De facto, são poucas as figuras internas que podem rivalizar com a popularidade do chefe. Rita Matias, deputada de 27 anos e grande referência das redes sociais do partido, teve uma ascensão meteórica e é hoje uma figura nacional. Também Pedro Pinto, líder parlamentar, e Pedro Frazão, dirigente e deputado ultraconservador, atingiram níveis significativos de notoriedade popular, mas nada que se compare à luz de André Ventura. São horas infindáveis de exposição televisiva e nas redes sociais, a que se soma uma rede física de propaganda pública.


A força e centralidade de André Ventura, dirigente máximo interno, contrasta com as contradições e fragilidades do partido. Desde a sua fundação, em 2019, entre os chumbos aos estatutos aprovados em congresso e a invalidação de eleições internas, o CHEGA já foi notificado pelo Tribunal Constitucional seis vezes. Ao nível municipal, a desarticulação política é tal que, desde as eleições autárquicas de 2021, o CHEGA já perdeu 20 vereadores, que se desfiliaram do partido ou abandonaram o cargo. Também no Parlamento acumulam-se os escândalos, com um deputado a ser acusado de roubo de malas em aeroportos e outro condenado por difamação agravada.


A fragilidade do CHEGA fez-se sentir, igualmente, nas promessas falhadas de mobilização social anunciadas por Ventura. Além do projeto gorado da criação de uma nova rede sindical, diversas foram as manifestações convocadas pelo partido, com diferentes reivindicações: “Contra a imigração descontrolada”, “Contra a presença de Lula da Silva em Portugal”, “Contra a ilegalização do CHEGA”. Nenhuma logrou atingir os números pretendidos.


Se falha a organização, não falha a caixa forte. De pequeno partido financiado pelo núcleo duro dirigente a um partido de milhões nas contas bancárias, foi um passo. Logo em 2020, foram identificados os principais financiadores do CHEGA, que vão de banqueiros e comerciantes de armas a membros das mais milionárias famílias empresariais e acionistas de grupos de comunicação social. Símbolo desse universo, César do Paço é um milionário luso-americano ligado ao universo trumpista e à direita radical internacional que se tornou um dos mais conhecidos financiadores e padrinhos políticos de André Ventura, ajudando a dar músculo financeiro, contactos internacionais e legitimidade mediática ao crescimento do CHEGA. Com o aumento das subvenções públicas alcançado pela subida eleitoral e a consolidação desta rede de doadores, o dinheiro é hoje uma preocupação menor para o CHEGA.


Quem vota no CHEGA?


Desde a sua fundação, em 2019, o CHEGA submeteu-se a duas eleições europeias, quatro eleições legislativas, duas eleições autárquicas e cinco eleições regionais (regiões autónomas da Madeira e dos Açores). André Ventura foi candidato presidencial duas vezes, tendo alcançado 11,9% em 2021 e 23,52% (primeira volta) e 33,17% (segunda volta) em 2026. Atualmente, o partido tem 59 deputados (em 230) na Assembleia da República, 2 eurodeputados, 1940 eleitos municipais e 8 deputados regionais. Perante estes números, e à semelhança do que se procura analisar noutros países, conseguimos saber quem vota no CHEGA?


Os estudos sobre a sociologia eleitoral do CHEGA seguem duas vias. A primeira baseia-se nas sondagens (survey-based), nas quais os eleitores do partido são identificados e analisados a partir de variáveis sociodemográficas, como escolaridade, género e idade. A segunda é uma abordagem territorial, centrada na análise por municípios e regiões, procurando correlacionar indicadores estruturais com a evolução eleitoral do Chega, tais como rendimento médio, número de crimes, número de imigrantes, acesso a serviços públicos ou oferta de habitação.


A primeira abordagem fornece-nos dados mais fidedignos e menos expostos a variações contextuais. Na sua maioria, os eleitores do CHEGA são homens, com menos de 55 anos, sem escolarização superior. Os grupos que mais apresentam resistência ao voto no CHEGA são os mais velhos, as mulheres e os que possuem escolarização superior. Há, evidentemente, grande contágio transversal no crescimento eleitoral do partido. Entre as eleições de 2024 e 2025, por exemplo, o crescimento foi muito expressivo nas mulheres entre os 25 e 34 anos, sem escolarização superior.


Na segunda abordagem verificamos que existe uma correlação entre o número de votos no CHEGA e o rendimento médio mensal per capita de um município, o nível de perceção de segurança pública e o acesso a alguns serviços públicos. Quanto mais pobres, mais inseguros e menos servidos por serviços públicos são os territórios, maior é a votação no CHEGA. Essa correlação já não existe quando se trata da oferta de habitação para venda ou arrendamento, uma vez que a grave crise no acesso à habitação em Portugal é hoje transversal aos vários territórios, e também não se verifica na relação com o número de residentes estrangeiros num dado território. O fator imigração surge mais como variável transversal do que territorial. Não apenas Ventura, mas toda a direita conseguiu vencer a batalha das ideias que identifica o aumento do número de imigrantes como causa universal de todos os problemas que o país enfrenta: da compressão salarial, à falta de casas e à degradação dos serviços públicos.



O trumpismo arrependido e as redes internacionais

Desde a fundação, André Ventura procurou garantir a inserção do CHEGA na rede internacional da extrema-direita europeia e atlântica. A proximidade com Santiago Abascal (VOX), Marine Le Pen (Rassemblement National), Viktor Orbán (Fidesz) e Matteo Salvini (Lega) não apagou, porém, as posições mais atlantistas e europeístas do partido, que se mantém pró-NATO e crítico de Putin. A par dos laços com a família Bolsonaro (Brasil), a relação com Donald Trump e o universo MAGA tornou-se especialmente central como referência política.


Esse alinhamento atingiu o auge em janeiro de 2025. Ventura celebrou o convite para a tomada de posse de Trump e participou na aproximação da extrema-direita europeia ao projeto MEGA - Make Europe Great Again - promovido por figuras como Elon Musk. Na cimeira de Madrid, líderes como Santiago Abascal, Le Pen e Orbán elogiaram Trump, as suas políticas anti-imigração e o apoio a Israel.


No entanto, as tarifas comerciais de Trump, as tensões em torno da Gronelândia e a NATO e a escalada militar no Irão rapidamente criaram dificuldades para a extrema-direita europeia e portuguesa. Em Portugal, Ventura tentou distanciar-se parcialmente dos custos políticos desse alinhamento, criticando o aumento dos combustíveis e defendendo “retaliações comerciais” contra os EUA, elegendo Giorgia Meloni como a nova referência a seguir.



Qual o futuro do CHEGA e da extrema-direita em Portugal?


O futuro do CHEGA estará muito dependente da sua capacidade de organização, do papel a desempenhar nas futuras eleições legislativas e da evolução internacional da extrema-direita global. Em todas essas dimensões há incertezas.


Como vimos, há poucos sinais de uma organização capaz de alicerçar o partido na sociedade. Mesmo setores que no passado foram fundamentais para a ascensão, desempenham hoje um papel secundário, como é o caso dos dirigentes evangélicos. A ligação de alguns dirigentes do CHEGA a grupos neonazis e ultranacionalistas tornou-se mais evidente e não há indícios de que venha a ter lugar uma transição significativa de quadros da direita tradicional para o partido de Ventura. Tudo isto pode, claro está, mudar no futuro.


Mais complexo será o papel a desempenhar pelo CHEGA no xadrez parlamentar português. Atualmente a AD (coligação entre PSD e CDS-PP) governa com uma maioria relativa no parlamento, beneficiando da abstenção do Partido Socialista na votação do Orçamento de Estado e do voto a favor do CHEGA para aprovar propostas como a da restrição à entrada de imigrantes. Se o Partido Socialista mantiver a sua política de submissão passiva, a AD poderá governar até 2029, ano em que se realizarão novas eleições legislativas. O plano de André Ventura é obrigar o PSD a formar governo com o CHEGA a partir de um acordo de maioria parlamentar, pois as sondagens indicam que a soma dos partidos à esquerda do partido do atual primeiro-ministro, Luís Montenegro, não ultrapassa os 40%. Pode inclusive dar-se o caso do Partido Socialista ser o mais votado e haver uma enorme pressão para a formação de uma “geringonça” de direita, com PSD, CHEGA e o partido Liberal. Pedro Passos Coelho, primeiro-ministro do PSD durante o período da troika, tem desempenhado um papel central no debate político, pois tornou-se o maior defensor de um acordo com o CHEGA, acenando com a possibilidade do seu regresso à liderança do seu partido caso esse cenário seja o mais plausível. Alguns setores do Partido Socialista e do PSD apresentam a solução de um “bloco central”, entre os dois partidos, como alternativa a esse cenário.


A evolução eleitoral do CHEGA dependerá muito, também, do que acontecer na Europa e no mundo, assim como da capacidade da esquerda em abrir caminho na luta contra a extrema-direita. A derrota de Orbán e a possível reeleição de Lula são dois elementos importantes para o enfraquecimento do CHEGA, ao qual se soma a importante erosão da aliança com Trump. À esquerda, o caminho é sinuoso. Por duas vezes o apelo anti-Ventura resultou numa lógica de “voto útil” em figuras do Partido Socialista, dando uma maioria absoluta a António Costa em 2022 e a Presidência da República a António José Seguro em 2026, com resultados muito penalizadores à sua esquerda.