Por Orlando Silva
Via Revista Liberta
O mundo tem passado por tormentosas mudanças geopolíticas que, infelizmente, mais parecem um volver ao passado de guerras coloniais e intervenções militares de grandes potências do que apontar para tempos de multilateralismo e equilíbrio no sistema de poder global.
Desde a volta de Donald Trump à presidência nos EUA, o imperialismo norte-americano rasgou os punhos de renda do soft power e tornou à velha forma do uso da força militar para impor seus interesses políticos e econômicos. Pretende redividir o planeta em “zonas de influência” entre grandes players: Rússia no leste europeu, China na Ásia Oriental, e EUA na América Latina e Caribe, região que o próprio secretário de Defesa, Pete Hegseth, chamou desrespeitosamente de “nosso quintal”, numa anacrônica retomada da Doutrina Monroe.
Por trás da mudança de estratégia está a urgência do país em fazer frente ao inexorável avanço da China como polo de poder a rivalizar consigo, seja em termos econômicos, tecnológicos e até mesmo bélicos, pela liderança no mundo. Com uma mão, Trump assina ordens executivas de guerra tarifária; com a outra, detona bombas e intervém em nações "não alinhadas".
Nesse contexto, as ações criminosas dos EUA contra países da América Latina e Caribe têm ganhado uma escala brutal, representando riscos concretos e iminentes à paz em nossa região, que não convive com guerras desde as Malvinas (1982) e não via uma intervenção militar estadunidense derrubar um presidente desde a ação contra Manuel Noriega, no Panamá, em 1989.
Após o ataque ilegal contra a soberania venezuelana, que resultou no sequestro e prisão de Nicolas Maduro, Trump mantém a presidente interina do país, Delcy Rodrigues, sob pressão constante, ameaçando e tutelando as ações do governo para roubar seu petróleo. E o faz de forma descarada, com declarações públicas sobre o interesse em drenar as riquezas do país.
Mas não é só: no último dia 29 de janeiro, o presidente dos EUA assinou um decreto declarando emergência nacional em relação a Cuba, apertando ainda mais o cerco e o bloqueio econômico contra a Ilha, que já perdura mais de sessenta anos. A nova ordem impõe tarifas comerciais adicionais para países que vendem ou oferecem petróleo a Cuba, com o objetivo explícito de impedir que tenha acesso a combustíveis essenciais ao funcionamento básico da economia e dos serviços públicos.
É um ato criminoso, de terrorismo de Estado, que representa verdadeira punição coletiva contra a população civil cubana, que, apesar da heroica resistência, vive uma situação limite em virtude do desumano embargo econômico. Agora, com a interrupção do fornecimento de petróleo venezuelano e imposição de novas sanções, à revelia dos organismos multilaterais e do direito internacional, cresce o drama energético do país e as privações a seu povo.
Diante do agravamento da crise, cresce a responsabilidade do Brasil e do governo brasileiro, que deve intensificar os esforços de auxílio econômico e ajuda humanitária à Ilha. Há poucos dias, a presidenta do México, Claudia Sheinbaum, anunciou o envio de navios com alimentos não perecíveis e gêneros de primeira necessidade, além de buscar formas de manter o fornecimento de combustível. Essas iniciativas emergenciais devem ser multiplicadas.
Por outro lado, na seara política, é fundamental realizar os esforços diplomáticos para confrontar as novas medidas de embargo econômico, bem como ampliar a denúncia sobre o recrudescimento da agressividade imperialista na gestão Trump.
O governo deve manobrar, dentro das novas condições diplomáticas após as conversas entre Lula e Trump, mas sem nutrir ilusões quanto aos reais interesses políticos e econômicos do norte-americano em nosso país e na região.
Não é tarefa fácil, obviamente, já que o Brasil também está desafiado a lidar com as ameaças à própria soberania e relações comerciais, mas é uma necessidade vital. Por isso, defender vigorosamente a soberania e a autodeterminação de países sob ataque, como hoje estão Cuba e Venezuela, mais do que solidariedade, é essencial à preservação da América Latina e Caribe como território de paz.
Orlando Silva é deputado federal pelo PCdoB-SP
