Eleições EUA: mulheres e negros reagem, Trump sai enfraquecido, mas extrema direta resiste

Juliana Bimbi

Originalmente publicado em Esquerda Online 

 

Na última terça-feira, dia 8 de novembro, ocorreu a votação para a Câmara e para o Senado norte-americanos, assim como governadores de mais de 30 estados. As eleições de meio de mandato, chamadas no país de midterms, são decisivas para o futuro do governo Biden, por definirem sob qual governabilidade o presidente se manterá nos próximos dois anos. Até esse domingo, dia 13 de novembro, a apuração não havia sido concluída, mas uma vitória democrata no Senado já foi consolidada a partir da conclusão da disputa no estado de Nevada. A corrida segue em aberto na Geórgia, onde haverá segundo turno, mas sem o poder de mudar drasticamente a correlação de forças. Na Câmara, os republicanos têm maioria, ganhando 9 cadeiras dos democratas até então, com resultado final ainda inconclusivo. O Partido Republicano já conquistou 211 de 218 cadeiras necessárias para garantir a maioria.

 

Derrota dos democratas é menor do que esperada, mas o futuro segue preocupante

A caracterização dos principais analistas políticos do mundo é a de que a eleição dos EUA, no marco dos prognósticos anteriores ao pleito, não foi uma derrota para os democratas. Mais que isso, foi uma derrota sobre a aposta republicana: uma “onda vermelha” (cor que representa o partido de Trump) avassaladora, que conquistaria o Senado e uma ampla maioria na Câmara. Essa onda seria o trampolim para o anúncio de uma nova candidatura de Trump para a próxima eleição presidencial, que ocorreria dia 15 de novembro, nesta terça-feira.

Com o resultado apurado até então, os republicanos estão matematicamente impossibilitados de conquistar a maioria no Senado e, apesar de terem conquistado a Câmara, a vantagem foi bastante menor do que a esperada.

A hipótese republicana, apesar de equivocada, tinha fundamento em dois aspectos. O primeiro é que a tradição das midterms é um enfraquecimento drástico do partido no poder. Os resultados do pleito de 2022 foram os melhores em 20 anos nesse sentido, um fato histórico. O segundo é a própria popularidade de Biden, que vinha em queda livre desde o início de seu mandato, ancorada principalmente na situação inflacionária do país, tendo assim a pior aprovação de um presidente no meio do mandato dos últimos 40 anos. Antes da eleição, as pesquisas apontavam que, quando questionados sobre a situação econômica do país, 72% dos americanos afirmavam que as coisas andavam muito mal.

Sob essa ótica, é possível afirmar que as eleições parlamentares dos Estados Unidos foram uma derrota política para Trump. Perdendo o Senado, naufragam os planos de barrar possíveis indicações de Biden à Suprema Corte, tema central para a extrema-direita. Assim como, também impedem a abertura de investigações sobre o presidente democrata, garantindo mais estabilidade para o atual governo. Além disso, o nome de Biden sai fortalecido dentro do partido para a reeleição em 2025.

O resultado das eleições pode ser explicado por diversos fatores. Um deles é a reação das mulheres à reversão de Roe vs Wade – decisão que garantia o aborto como direito constitucional. Outro fator é o caráter plebiscitário das eleições de meio de mandato sobre a polarização entre extrema-direita e democratas.

Em seus discursos, o ex-presidente Biden buscou consolidar a ideia de que se tratava não de uma eleição normal, mas de uma disputa entre a defesa da democracia e o autoritarismo, entre a liberdade e a opressão. A derrota da extrema-direta trumpista foi parte do que motivou 63% dos jovens de 18 a 29 anos a apoiarem os candidatos do Partido Democrata, como uma resposta enérgica ao neofascismo.

Essa vitória não significa que tudo está ganho para os democratas nos próximos anos. Mesmo com uma vitória menor, os republicanos ainda reverteram a maioria democrata no Congresso e também tiveram maioria entre os governadores eleitos nos estados. Com esse resultado, poderão levar à frente projetos de retrocesso no país, como a proibição total do aborto por lei, a censura dentro das escolas e o armamento da população. Biden ainda terá um final de mandato conturbado, principalmente ao considerar os prognósticos econômicos, que preveem uma recessão moderada ao país.

 

Defesa do aborto legal e divisão dos eleitores por gênero e raça

A conjuntura eleitoral norte-americana comprovou a centralidade das mulheres na política eleitoral do país. A segunda questão-chave para os eleitores das midterms, logo atrás da economia, foi o aborto. Para os jovens, 44% consideraram como pauta central na escolha dos seus candidatos. Segundo o cientista de dados David Shor, o aborto passou do trigésimo assunto de preocupação dos americanos para o décimo segundo em alguns anos.

A boa notícia é que essa preocupação vem justamente do ponto de vista de quem o defende como direito das mulheres. Segundo levantamento do Washington Post sobre as pesquisas eleitorais, 76% dos eleitores que afirmaram que o aborto era a pauta mais importante nessa eleição votaram em candidatos democratas. 85% dos eleitores que demonstraram indignação com a reversão desse direito também apoiam o Partido Democrata. A maioria dessas eleitoras são mulheres, que utilizaram as urnas como reação à retirada desse direito histórico pela Suprema Corte, ocorrido em junho de 2022.

A divisão racial dos eleitores também existe, com 86%, esmagadora maioria da população negra votando nos candidatos de Biden. Dentre esses, 53% acreditam que o racismo é o maior problema da sociedade estadunidense nos dias de hoje. Já a população latina, considerada a maior minoria étnica do país (19% da população) votou em 60% nos candidatos democratas, em maioria, mas em menor número do que as últimas eleições.

Alguns analistas já consideram que existe uma onda de migração da população latina ao voto na direita, tendo como maior representação disso a cidade de Miami. O distrito de Miami-Dade, que concentra os eleitores da região metropolitana da cidade, votou em 53% para a reeleição de Ron de Santis, algo que não acontecia com um candidato republicano desde 2002. Um fator que pode explicar o tema é um abandono dos democratas sobre a população latina, que sempre foi considerada um eleitor automático das candidaturas mais à esquerda.

 

Mesmo com divisão interna, extrema direita mantém papel dirigente no Partido Republicano

Com a não chegada da “onda vermelha”, o ex-presidente Trump sofre um grau de desmoralização dentro do seu próprio partido. Candidatos apoiados por ele, em geral, não foram bem sucedidos, e sua aposta derrotada. Esse resultado intensifica uma divisão interna dos republicanos, que têm Ron de Santis, governador reeleito da Flórida, como principal alternativa ao nome de Trump na liderança do partido. Mais jovem do que Trump, o governador conseguiu reverter parte da desaprovação do partido republicano em distritos latinos, e é indicado por jornais conservadores como novo líder da extrema direita após as midterms. Seu destaque fez com que parte do partido republicano esteja pressionando Trump a adiar o pronunciamento de 15 de novembro, que anunciaria sua nova candidatura a presidente dos EUA.

Ron de Santis, o “grande vencedor” das eleições de meio de mandato, segundo uma parcela da mídia, venceu seu opositor na Flórida, terceiro estado mais populoso dos EUA, por quase 20 pontos percentuais. O político venceu no distrito de Miami-Dade, grande região metropolitana do estado, onde tradicionalmente seu partido perdia as eleições. Não existe nenhuma diferença substancial progressiva entre os dois republicanos: Ron de Santis se cacifa como alternativa a partir de políticas negacionistas na pandemia, a sanção de leis que cerceiam o ensino sobre as relações raciais, de gênero e anti-LGBTIfóbicas, como uma lei apelidada de “Don’t Say Gay”, que proíbe discussões sobre orientação sexual e identidade de gênero em escolas primárias. Além disso, emite opiniões anti-aborto, anti-imigração e ofensas à mídia.

Uma divisão no partido de Trump pode enfraquecê-lo na disputa pois atrasa o início da campanha em comparação com os democratas, onde existe mais consenso sobre o nome de Biden. Apesar disso, o surgimento de uma nova liderança neofascista com expressão de massas em um estado extremamente populoso indica uma capacidade de renovação da extrema-direta, que segue na direção da política republicana. A radicalização do partido republicano é ancorada em uma corrente de massas no país que reivindica ideias de segregação racial, violência política e fechamento da democracia. Essa corrente demonstra que, se não for derrotada radicalmente, veio para ficar, talvez mesmo independente de Trump, e será o protagonista da polarização com o liberalismo democrata.

 

Imagem: reprodução O tempo