Por Amanda Cotrim
Via Opera Mundi
Campanha digital reúne vídeos, cards e outros conteúdos de pessoas que enfrentam problemas econômicos no país vizinho, governado pela extrema direita
“O futuro que Flávio Bolsonaro promete, a gente vive aqui. E não é um filme bom”. Esse é o mote da campanha digital “Eu vim do futuro. Moro na Argentina”, que ganhou força nas redes sociais logo após o primeiro turno das eleições brasileiras.
A iniciativa reúne vídeos curtos, cards e conteúdos digitais que alertam os brasileiros sobre o que os conterrâneos têm vivido no país vizinho, governado pelo presidente de extrema direita Javier Milei.
“A iniciativa digital surgiu de brasileiros que vivem na Argentina, a partir de suas próprias experiências e da necessidade de dar visibilidade aos impactos das mudanças econômicas, políticas e sociais no país”, disse Renata Codas, coordenadora da campanha, que mora na Argentina há 15 anos.
Num movimento autônomo e sem financiamento, a estratégia da campanha “prioriza relatos pessoais e concretos sobre custo de vida, aluguel, trabalho, saúde, educação e economia familiar, reunindo vozes de argentinos, imigrantes e brasileiros”, detalhou.
Em um dos materiais, uma foto de Milei acompanhada dos dizeres “o que vivemos”, aparece ao lado de uma imagem de Flávio Bolsonaro, com a frase “o que promete”, e de uma imagem de Lula, identificada como “outro caminho”. Em outro material, o alerta é direto: “aprenda com o erro dos outros. É mais barato”, seguido de informações sobre como votar no exterior.
‘País vive sua pior crise’
“A Argentina é um país maravilhoso, mas as pessoas estão sofrendo, apáticas, sem perspectivas. Moro aqui há 10 anos e os últimos três anos foram os mais difíceis”, diz a brasileira Valéria Rodrigues, que é analista de marketing, professora e motorista de aplicativo. A realidade do multiemprego é vivido por centenas de argentinos para conseguir chegar ao fim do mês, esclarece.
Cerca de 90 mil brasileiros residem atualmente no país vizinho, segundo estimativas do Itamaraty. Desse total, 13.138 estão aptos a votar, o que faz da Argentina o maior colégio eleitoral brasileiro na América Latina fora do Brasil, de acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). No primeiro turno, Lula registrou 3.747 contra 1.681 votos do bolsonarista entre os eleitores brasileiros que residem no país.
Segundo a coordenação da campanha digital na Argentina, a iniciativa já teve mais de um milhão de visualizações nas últimas semanas, sendo 85% delas provenientes de não seguidores.
“O conteúdo com vídeos curtos e cards tem uma linguagem espontânea e próxima do público, com o objetivo de gerar identificação”, explica Mayara Santos, que coordena a comunicação da campanha.
A iniciativa digital também tem recebido apoio de páginas com relevância nas redes sociais e de artistas do audiovisual latino-americano.
Brasileiros transformam a experiência em alerta
Caso seja eleito, Flávio Bolsonaro pretende se inspirar no governo argentino para promover uma agenda de cortes de gastos, chamada por ele mesmo de “tesouraço”, em referência à “motosserra” popularizada por Milei.
A coordenadora econômica da campanha de Flávio, Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal, afirmou que pretende revogar as normas e se inspirar “no que foi feito no governo Milei, na Argentina”.
Embora as economias brasileira e argentina tenham estruturas distintas, o modelo de Milei tornou-se uma referência para a equipe econômica de Flávio. O candidato menciona em seu plano de governo que fará cortes de gastos, mas não explica como pretende executá-los nem quais critérios serão adotados.
Recessão e perda de renda: ‘Milei enganou a população’
Na Argentina, Milei alcançou o déficit zero à custa de uma recessão, com cortes de investimentos, impactando frontalmente a saúde, a educação, a ciência e a cultura, além do congelamento de salários, o que gerou perda drástica do poder aquisitivo, num cenário no qual a inflação segue alta, atingindo 33,5% no acumulado dos últimos 12 meses.
A crise provocada pelo plano econômico do presidente Javier Milei levou milhares de pessoas às ruas, principalmente familiares de pessoas com deficiência e aposentados, grupos desamparados pela política econômica do presidente argentino.
O Congresso do país precisa aprovar uma lei de emergência em saúde e educação para obrigar o Executivo a atualizar os salários de profissionais de saúde e de investimentos nas universidades públicas. Milei, porém, se recusou a cumprir a medida, e a questão foi parar na Justiça, ainda sem solução.
“Milei enganou a população. Disse que os primeiros dois anos seriam duros, mas que depois tudo melhoraria. Estamos indo para o quarto ano de inferno. Ano que vem tem eleição, e a qualidade de vida da maioria foi parar no chão”, disse a professora argentina Carla Fernández à reportagem.
Desde que assumiu o país, mais de 21 mil empresas, em sua maioria pequenas, fecharam as portas. A taxa de desemprego está em 7,9%.
No primeiro semestre de 2026, a taxa de pobreza voltou a subir, chegando a 32,3%. O Unicef e outras organizações de direitos humanos já alertaram que crianças e mulheres estão entre os grupos mais afetados pela recessão.
O presidente argentino também promoveu uma reforma trabalhista que permite jornadas de até 12 horas, altera as regras de férias e reduz as indenizações por demissão.
