Via Opera Mundi
Segundo NYT, procuradores norte-americanos apuram 'possíveis encontros' de presidente colombiano com supostos traficantes de drogas e pedidos de doação a campanha presidencial.
O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, está sendo investigado criminalmente por pelo menos dois escritórios de procuradores federais dos Estados Unidos, de acordo com uma apuração do jornal norte-americano The New York Times divulgada nesta sexta-feira (20/03).
De acordo com o veículo, as investigações, que são separadas e estão em estágios iniciais, têm abordado assuntos como “possíveis encontros” do mandatário sul-americano com supostos traficantes de drogas, e se sua campanha presidencial solicitou doações de traficantes.
As apurações são conduzidas por procuradores em Manhattan e Brooklyn especializados no tráfico internacional de narcóticos, bem como agentes da Administração de Repressão às Drogas e das Investigações de Segurança Interna, conforme as fontes ouvidas pela reportagem do NYT.
O jornal pontuou que o presidente Donald Trump tem usado frequentemente as investigações criminais como ferramenta para atacar seus adversários. Menciona também o episódio em que o republicano criticou seu homólogo colombiano, chamando-o de “homem doente”.
O NYT afirmou que o mandatário norte-americano poderia usar as investigações como “moeda de troca” para buscar maior cooperação da Colômbia, ou para tentar influenciar nas eleições presidenciais colombianas previstas em maio deste ano.
Representantes dos dois escritórios de promotores foram procurados pelo veículo, mas se recusaram a comentar, assim como a Agência de Repressão às Drogas e o Departamento de Segurança Interna.
Em 3 de janeiro, quando os Estados Unidos invadiram Caracas e sequestraram o líder venezuelano Nicolás Maduro, levando-o para Nova York para enfrentar acusações de suposto tráfico de drogas, a imprensa local questionou Trump se as forças nacionais também poderiam repetir tal agressão à Colômbia. “Parece bom para mim”, respondeu o magnata, na ocasião.
Petro, que se posicionou firmemente contra a invasão norte-americana à Venezuela, reagiu às ameaças de intervenção militar do magnata, dizendo que “qualquer comandante das Forças Armadas que preferir a bandeira dos Estados Unidos à bandeira colombiana será imediatamente destituído da instituição por ordem da tropa e minha”.
Resposta de Petro
O presidente Gustavo Petro se referiu à revelação horas depois, nesta mesma sexta-feira, em mensagem publicada nas redes sociais e escrita em tom de resposta à repercussão da reportagem do NYT no jornal colombiano El Espectador.
Segundo o mandatário, “como o El Espectador bem sabe, não há uma única investigação na Colômbia sobre minha relação com narcotraficantes, por um motivo simples: nunca falei com um narcotraficante em toda a minha vida”.
“Pelo contrário, dediquei dez anos da minha vida, com grande risco pessoal e até mesmo à custa da minha família, a denunciar as ligações entre os narcotraficantes mais poderosos e políticos no Congresso da República e nos governos locais e nacionais, durante o que chamo de era do governo paramilitar”, acrescentou.
Petro também disse que “com relação às minhas campanhas, sempre disse aos coordenadores de campanha que doações de banqueiros ou narcotraficantes não são aceitas”.
“A investigação produtiva e intensiva sobre minha campanha presidencial não descobriu um único peso de dinheiro do narcotráfico, e isso porque é uma questão menor e um princípio pessoal como líder político”, adicionou.
Ao finalizar, o presidente da Colômbia afirmou que “as investigações nos Estados Unidos servirão para desmantelar as acusações da extrema-direita colombiana, que está, de fato, profundamente entrelaçada com os narcotraficantes colombianos”.
Tensões entre Petro e Trump
Em outubro passado, Trump acusou Petro de ser um “traficante de drogas ilegal” que é “mal avaliado e muito impopular” e, sem apresentar provas, de incentivar uma “produção massiva” de entorpecentes. Os ataques do republicano ocorreram após o líder sul-americano denunciar o governo norte-americano pelo assassinato de um pescador em uma área marítima sob jurisdição colombiana.
Na época, Trump alegou que “o objetivo dessa produção de drogas é a venda de quantidades massivas do produto para os Estados Unidos, causando morte, destruição e caos”. Alertou ainda que “é melhor fechar” as operações “ou os Estados Unidos as fecharão para ele, e isso não será bem feito”.
Em resposta, Petro chamou o homólogo norte-americano de “ignorante” e “rude”, reiterando que a sua nação nunca foi desrespeitosa com os Estados Unidos. “Não estou no ramo como você. Sou socialista. Acredito na ajuda humanitária e no bem comum, e no bem comum da humanidade, o maior de todos: a vida, ameaçada pelo seu petróleo. Se eu não sou um empresário, muito menos um traficante de drogas, não há ganância em meu coração”, respondeu.
Após meses de crise diplomática, as duas lideranças se encontraram no início de fevereiro, na Casa Branca. Petro avaliou, na ocasião, que “percorremos a história, mas sempre há um muro”. Já na semana passada, ambos conversaram por telefone sobre questões regionais e temas de interesse mútuo.
