Monthly Review: A estratégia de segurança nacional de Biden

Em seu prefácio ao relatório de 2022, Biden afirma que “a era do pós-Guerra Fria está definitivamente acabada” e foi substituída por uma “competição estratégica” entre as maiores potências globais: uma luta entre democracia e autocracia pelo controle do mundo. 

 

A nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, lançada pelo governo Biden em outubro de 2022, é um documento belicoso que representa um giro drástico em relação ao Interim National Security Strategic Guidance, lançado pela mesma administração no ano anterior. Em seu prefácio ao relatório de 2022, Biden afirma que “a era do pós-Guerra Fria está definitivamente acabada” e foi substituída por uma “competição estratégica” entre as maiores potências globais: uma luta entre democracia e autocracia pelo controle do mundo. Enquanto “autocracia” aparecia uma vez no documento de 2021, o termo aparece agora em praticamente todas as páginas, refletindo a implementação da ideologia da Nova Guerra Fria pelo estado de segurança nacional dos EUA (National Security Strategy, outubro de 2022, e Interim National Security Strategic Guidance, março de 2021, ambos disponíveis em whitehouse.gov) 

Nessa mais recente Estratégia de Segurança Nacional para os Estados Unidos, a ideologia aparece novamente à frente – ainda que não em termos de capitalismo versus comunismo, como na Velha Guerra Fria, mas sim como democracia versus autocracia, definindo a Nova Guerra Fria. Os líderes do campo autocrático, segundo a definição de Washington, são a República Popular da China (RPC) e a Rússia, seguidas por “poderes autocráticos menores”, como a Coreia do Norte, Irã, Venezuela, Cuba e Nicarágua (11, 41). Essas nações são acusadas de realizar ou apoiar ativamente guerras, imperialismo, “genocídio”, violações de direitos humanos e a ruptura do livre mercado, com o objetivo de derrubar a “ordem internacional baseada em regras” estabelecida por décadas de hegemonia inconteste dos EUA sobre a economia mundial (8). Normas e instituições estabelecidas – como as alianças militares dominadas pelos EUA ao redor do mundo, o regime vigente de preços de petróleo, a hegemonia do dólar, o “multiplicador de força” do sistema financeiro global representado pelo Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial – estariam sob ataque. 

O documento diz que as autocracias teriam o objetivo de tornar “o mundo um lugar seguro para a agressão e a repressão”. Enquanto isso, Washington, aquela cidade brilhante na colina, seria a líder não apenas das democracias formais do mundo, mas também de todas as “outras” nações que, ainda que de maneira alguma democráticas, apoiam a ordem internacional dominada pelos EUA, baseada em regras, e que por isso recebem o status de democracias honorárias. 

No Interim National Security Guidance de 2021, o principal oponente dos Estados Unidos era referido como China. No entanto, em seu relatório de 2022 – sob a fachada da continuidade da política de uma só China (que reconhece Uma China com dois sistemas de governo) –, o principal inimigo dos EUA é agora caracterizado ao longo do documento como a RPC, em oposição à China como um todo (que incluiria Taiwan). Dessa forma, o governo Biden pode destacar seu apoio militar a Taiwan enquanto sugere fortemente que Taipei representa a estrutura de governança apropriada para toda a China (um ponto de vista que remete à antiga política da Guerra Fria, em que a “China Vermelha” era o inimigo). A nova Estratégia de Segurança Nacional enfatiza as “profundas diferenças” de Washington “com o Partido Comunista Chinês” e, de fato, com todo seu “sistema”, e não faz segredo sobre seu ardente desejo por uma mudança de regime na RPC (25). 

Nas palavras de Biden, a RPC teria, sozinha, “a intenção e, cada vez mais, a capacidade de remodelar a ordem internacional” de formas que vão contra a ordem dominada pelos EUA, baseada em regras (3). A nova Estratégia de Segurança Nacional acusa abertamente (e falsamente) a China de “genocídio” e de ser um pretenso agressor internacional (24). A RPC, em virtude de seu sistema de governo sob o Partido Comunista Chinês, é designada como um “ator fora do mercado” em todas suas transações, promovendo “repressão interna e coerção externa”, transgredindo regras econômicas aceitas e “exportando um modelo iliberal de ordem internacional” (3, 8, 14, 34). Para a administração Biden, o principal objetivo estratégico dos EUA é, portanto, “superar a concorrência” com a China. Mas a nova Estratégia de Segurança Nacional deixa claro que isto deve ser feito principalmente por meios militares, forçando a RPC a desviar seus recursos nesse sentido e espremendo-a por meio das mais de 400 bases militares estadunidenses que quase a cercam completamente, juntamente com a expansão das alianças Quad e AUKUS, apoiadas pela OTAN. A Estratégia de Segurança Nacional de Biden exige assim uma maior militarização do Indo-Pacífico e dos países da “linha de frente” da “coerção da RPC” (23-24; John Pilger, “Atomic Bombings at 75,” Consortium News, 3 de agosto de 2020). 

A Estratégia de Segurança Nacional dos EUA de 2022 é ainda mais feroz quando se trata da Rússia. De acordo com o Escritório de Pesquisa do Congresso do governo dos EUA, Washington realizou 251 intervenções militares (não incluindo numerosas operações de contra-insurgência) nos cinco continentes desde a queda da União Soviética em 1991 (Ben Norton, “US Launched 251 Military Interventions Since 1991, and 469 Since 1978”, Multipolarista, 13 de setembro de 2022). E no entanto, a nova Estratégia de Segurança Nacional sugere que é a Rússia que estaria à frente de uma “política externa imperialista” no mundo hoje. Essa acusação se baseia (1) na operação militar da Rússia, em oposição à dos Estados Unidos, na Síria; e (2) na intervenção da Rússia na Ucrânia em sua própria fronteira ocidental, em oposição à guerra por procuração dos Estados Unidos ali (25). Para reforçar seu caso, o Conselho de Segurança Nacional de Biden exclui do relatório qualquer referência ao golpe de Estado dos EUA na Ucrânia em 2014, ou à guerra civil que se seguiu imediatamente entre Kiev (apoiada pelos EUA/OTAN) e as populações russófonas no Leste e Sul do país (apoiadas pela Rússia). Em vez disso, é apresentada aos leitores a ficção de que a guerra teria começado com “a invasão russa da Ucrânia em 2014”. O relatório define então a guerra de 2022 como emanando da “continuidade da invasão russa na Ucrânia” (25, 36, 39, 44). Nem uma frase sequer é incluída sobre o envolvimento direto dos EUA/OTAN na guerra ou sobre seu papel em provocá-la, a ponto de excluir qualquer menção explícita ao envio maciço de armas pelos EUA/OTAN para a Ucrânia. Tampouco há qualquer referência ao alargamento da OTAN desde 1997. Com esse apagamento quase completo da história, a acusação de que a intervenção russa em 2022 foi “não provocada” e “imperialista” assume uma forma fantástica que deveria envergonhar até os mais estridentes falcões de guerra dos EUA. 

O relatório de 2022 do Conselho de Segurança Nacional de Biden afirma explicitamente que “não buscamos uma nova Guerra Fria” (9). No entanto, o documento busca justificar exatamente isso, ao mesmo tempo em que dá impulso a uma nova corrida armamentista nuclear (9). O objetivo explícito da nova grande estratégia imperial dos EUA é derrotar tanto a RPC quando a Rússia, exercendo controles sobre o “ambiente externo” de ambos, espremendo-os por fora por meio de sanções econômicas/financeiras e crescente pressão militar (9). A RPC é vista como a maior ameaça geral, enquanto a Rússia deve ser esmagada primeiro. 

Com relação aos Estados Unidos, a Estratégia de Segurança Nacional de 2022 defende a eliminação das barreiras entre a política externa/militar dos EUA e sua política interna, que precisa ser “integrada”, militarizando/securitizando efetivamente toda a sociedade, particularmente os setores tecnológico e de comunicações (11). O objetivo é utilizar o país inteiro para a luta da Nova Guerra Fria. De fato, o Conselho de Segurança Nacional destaca a necessidade de se criar um novo “ecossistema de defesa”, que parece ser um capitalismo do Pentágono que englobe tudo, concebido como uma entidade orgânica com vida própria (20). 

O que tudo isso indica é que Washington está engajada em travar uma Nova Guerra Fria no século XXI, justificada como uma luta da democracia contra a autocracia – uma luta que ameaça ser muito mais perigosa que sua contraparte do século XX (v. John Bellamy Foster, John Ross e Deborah Veneziale, The United States Is Waging a New Cold War[Tricontinental, 13 de dezembro de 2022; também publicado pela Monthly Review Press como Washington’s New Cold War]). 

Não é de surpreender, então, que no exato momento em que a Estratégia de Segurança Nacional de 2022 estava para ser lançada, Biden estivesse levantando diante de um grupo de doadores políticos ricos o espectro de um “Armagedom” nuclear, decorrente da escalada da guerra por procuração dos EUA/OTAN na Ucrânia (David North, “Biden Warns: Prepare for Nuclear Armageddon”, World Socialist Website, 7 de outubro de 2022). Como o filósofo marxista Herbert Marcuse uma vez perguntou: “a ameaça de uma catástrofe atômica que poderia aniquilar a raça humana não serve para proteger as mesmas forças que perpetuam esse perigo?” (Marcuse, One Dimensional Man [Boston: Beacon, 1964], ix). O que é desesperadamente necessário é o reavivamento massivo do movimento global pela paz, visando afastar o mundo do exterminismo e voltado para a criação de uma nova sociedade baseada na igualdade substantiva e na sustentabilidade ecológica, em prol de toda a cadeia de gerações humanas. Não há tempo a perder.