Mulher, vida, liberdade: o que a experiência de Rojava nos ensina sobre feminismo, democracia e antifascismo

Imagem: Reprodução Jacobina


O genocídio em Gaza iniciado em 2023 fez os olhos do mundo retornarem para o Oriente Médio, doze anos depois do fim da Guerra do Iraque e dez anos depois da Primavera Arabe. Esta região do planeta marcada por uma diversidade de culturas e atividade intelectual milenar tem sido foco dos holofotes, contudo, não pela riqueza filosófica e cultural produzida nesses territórios, mas sim pela capacidade humana de destruição, em unidades de tempo cada vez menores, de vidas, conhecimento, arquitetura e história que a humanidade levou milhares de anos para construir.


O primeiro genocídio televisionado da história foi seguido da invasão israelense ao Líbano e do ataque conjunto de Israel e Estados Unidos ao Irã. As notícias de mortes nesses países já foram banalizadas pela mídia ocidental, como se vidas árabes ou persas fossem insignificantes. Entretanto, se a destruição das universidades de Gaza significa a destruição da história e de uma quantidade incalculável de conhecimento milenar, cada morte de uma criança em Gaza ou no Irã significa um comprometimento do futuro desta região. O que vemos hoje no Oriente Médio, portanto, é a capacidade do imperialismo de destruir a história e de minar as possibilidades de futuro dos povos que vivem na região.


No entanto, como disse Marielle Franco em um de seus últimos discursos na tribuna antes de seu famigerado assassinato, “as rosas da resistencia nascem do asfalto”. E é na aridez de um território profundamente atravessado pelas feridas do colonialismo, do fundamentalismo religioso e das disputas imperiais que emerge um dos movimentos emancipatórios mais interessantes de nosso tempo, galgado a partir dos pilares do feminismo, da democracia e do ecologismo. A partir do protagonismo de mulheres, a Revolução de Rojava conquistou, no Curdistão sírio, um espaço de autonomia para o povo curdo, onde, em conjunto com outros povos, constrói uma experiência inovadora de democracia baseada na paridade de gênero e no respeito à natureza, desenvolvendo sua própria filosofia.


Em entrevista exclusiva ao Radar Internacional, conversamos com L.M., representante do Movimento de Mulheres Curdas na América Latina sobre o papel das lutas feministas na região e no enfrentamento à atual onda neofascista. Confira!


Radar Internacional: Por que e em que sentido a luta das mulheres foi central na região onde você milita?

LM: O Movimento de Libertação do Curdistão, desde seus primórdios, sempre teve debates sobre a libertação das mulheres e a relação do patriarcado com a dominação. As primeiras militantes da organização, desde sua fundação em 1978, tiveram a missão de organizar e alcançar as mulheres da sociedade. Esse processo criou o entendimento, dentro e fora da organização, sobre a importância da luta das mulheres e a necessidade de estarmos na linha de frente da política.


A luta das mulheres dentro do Movimento de Libertação do Curdistão foi e é fundamental por várias razões políticas, sociais, militares e culturais. Sob a perspectiva desenvolvida por Abdullah Öcalan, líder do movimento curdo, e pelas organizações de mulheres, a libertação da sociedade está estreitamente ligada à libertação das mulheres. Essa ideia teve consequências práticas muito profundas na região, onde se desenvolveu um movimento ideológico, político e, com base nisso, um sistema de autodefesa liderado pelas mulheres. A organização autônoma das mulheres impulsionou o acesso das mulheres à militância; as mulheres do movimento ensinaram a outras suas próprias possibilidades, e isso também mudou a relação entre as próprias mulheres. As mulheres desenvolveram um companheirismo e um amor mais profundos, porque compreendiam sua própria essência. Assim, desde a fundação da União das Mulheres Curdas e Defensoras da Terra (YJKW) em 1987, a organização das mulheres começou a criar suas próprias estruturas e órgãos políticos. Dessa forma, as mulheres passaram a desenvolver papéis de liderança dentro da política, tiveram acesso à educação especializada, puderam compreender o que significava ser mulher e entender sua própria história. Assim, nos espaços políticos, implementou-se um novo sistema: a Co-presidência, onde há sempre a representação das mulheres. Dessa maneira, foi possível lutar de forma mais contundente contra os casamentos de menores, a violência doméstica, a opressão dentro das famílias e decretar leis para o território em torno dessas questões. Pouco a pouco, foram se desenvolvendo as próprias organizações dirigidas por mulheres. Isso permitiu que milhares de mulheres se tornassem atores políticos ativos em uma região onde historicamente haviam sido excluídas da vida pública.


Neste momento, após 52 anos da fundação do nosso movimento, a base da organização é liderada com base na Ideologia da libertação das mulheres. Dentro da nossa organização social, com base no Confederalismo Democrático, organizamos o nosso território. Este sistema trouxe a contribuição de que, em todas as esferas da vida, exista sempre uma estrutura de mulheres que está presente nas decisões políticas da organização e na estrutura popular.


RI: Como ficaram as relações de gênero no seu território depois de ter cuidado desse espaço de libertação?

LM: Em muitas zonas do Curdistão, especialmente em áreas rurais, as mulheres enfrentavam estruturas patriarcais profundamente enraizadas. O feudalismo e a religião marcaram fortemente a socialização das mulheres. Foram muitos séculos de violência contra as mulheres. E embora não tenhamos conseguido, a nível de mentalidade, acabar com a profundidade do patriarcado em todas as esferas, fomos mudando primeiramente as nossas próprias mentalidades como mulheres. Isso influenciou os homens, que entenderam e viram o resultado do impacto do patriarcado em suas próprias personalidades. Nós, mulheres, conquistamos direitos, fazendo de nossas vidas um campo de batalha em si mesmas. E o que é mais importante: gerou-se uma mudança de mentalidade dentro do Movimento e da sociedade. Realizou-se uma luta dentro da organização e dentro do próprio povo curdo, muita luta ideológica. Que continua sendo travada até hoje com estruturas políticas que lideram e protegem as mulheres. Uma característica singular do nosso movimento é que as mulheres não foram incorporadas apenas como participantes, mas sim construímos nossas próprias organizações autônomas. A mentalidade dos homens mudou ainda mais quando a força ideológica foi transformada em força para educar e para se defender dos ataques do Estado Islâmico, do Estado Turco e do Regime da Síria.


Essa mudança de mentalidade e a luta das mulheres construiu uma nova possibilidade para homens e mulheres se relacionarem de outra maneira. Criar novamente companheirismo entre nós não tem sido tarefa fácil, tendo em vista que o patriarcado e a religião construíram um modelo familiar feudal e opressor que ninguém havia questionado. Por isso nasce a jineoloji, a ciência das mulheres e da vida. Esta é a ciência com a qual se estuda e se fundamenta a política dentro do nosso movimento. A jineoloji analisa e estuda todas as teorias e ciências estudadas até os nossos dias, e analisa o impacto do patriarcado nelas. Dessa forma, pode-se gerar um novo entendimento e aprendizado investigando os saberes das mulheres, de qualquer época e de qualquer lugar do mundo. Assim se gera uma compreensão do mundo, das leis que os homens aplicam ao nosso planeta, e com um olhar, uma experiência e uma ancestralidade feminina que gera uma nova ciência revolucionária.


Esse processo também foi fundamental para os homens, que não tinham muitas possibilidades de analisar para além dos grandes filósofos ocidentais e não conseguiam sair dos próprios processos de assimilação e aniquilamento. As relações de gênero das sociedades devem ser baseadas na própria ética dos povos e nas suas tradições ancestrais. É preciso saber em que ponto essa comunalidade que caracteriza o humano com sua própria comunidade e com a natureza foi manipulada pelo patriarcado e pela construção da mentalidade de Estado (e, portanto, da sociedade de castas). Agora, para o nosso Movimento, a estrutura de mulheres e a estrutura mista se intercalam, se coordenam. As relações são de igualdade e companheirismo, e se não for assim, criamos mecanismos para corrigir. A autonomia das mulheres, no âmbito político, social e cultural, não pode nunca ser modificada pela mixidade. Agora, nossa luta está clara. Lutamos com a voz e a identidade das mulheres, para libertar nosso povo e os povos em resistência. Isso significa lutar para libertar todos e todas membros do povo.


RI: Como esta luta ajuda a pensar um caminho para a luta antifascista internacional?

LM: Evidentemente, a luta antifascista está completamente vinculada ao internacionalismo, vemos isso em todos os períodos históricos. E a luta do internacionalismo, embora silenciada, sempre teve a liderança de grandes e valentes mulheres.
Nosso Movimento, desde seus primórdios, foi internacionalista. E em nossas fileiras há muitas companheiras internacionalistas que foram mártires defendendo a liberdade. Como a companheira argentina Alina Sanchez, que viajou para as montanhas do Curdistão e caiu como lutadora da liberdade nas terras libertadas de Rojava, no Curdistão sírio. Para nós, trata-se de um espírito de luta comunitário, que não pode simplesmente ser planejado; é algo natural para as forças revolucionárias. Porque se tem a experiência e se entende que a resistência deve ser organizada para além das fronteiras dos estados, no nosso caso, para além das barreiras de gênero também. Para nós, o internacionalismo não se baseia na aliança entre Estados, mas sim na solidariedade entre movimentos sociais e povos.


O antifascismo compartilha valores comuns, que são abraçados por muitos territórios e organizações. A organização autônoma das mulheres incorporou a este caminho a compreensão de que o fascismo não tem uma única forma nem uma única maneira de oprimir. Ele muda e se autotransforma, moldando-se à época em que vive. Portanto, não se pode analisar o fascismo simplesmente como uma ideologia; neste momento, ele se tornou a ferramenta do capitalismo, quando este não conseguiu cumprir seus planos hegemônicos. O fascismo também é utilizado para dividir a resistência dos povos, fortalecendo as crenças nos estados-nação. Nosso processo como Movimento de Libertação e como força internacionalista sempre contribuiu para que esse entendimento gerasse uma ação coordenada entre os territórios e pudesse ser uma resposta diante de todo o genocídio, assassinato e guerras que o fascismo provoca.


RI: Como podemos apoiar a sua luta e expressar a nossa solidariedade?

LM: Atualmente, estamos num momento de Terceira Guerra Mundial; as potências hegemônicas já delinearam seus planos de guerra, suas alianças e seus interesses ficam evidentes em cada genocídio televisionado. Em pleno século XXI, o Oriente Médio e a América Latina se tornaram os territórios de maior espoliação do mundo, de mais genocídios em massa e de maior perda da democracia. Mas em cada um desses continentes, resiste a força das mulheres e dos povos organizados. No Curdistão, a ofensiva militar do regime sírio, a repressão do Estado turco, o olhar cúmplice dos Estados Unidos e os interesses de Israel sobre os recursos naturais do nosso território não conseguiram parar a força organizativa da nossa organização nem das alianças que, a nível internacional, vimos construindo ao longo de todos esses anos.


Pedimos aos nossos camaradas que não deixem de sentir que a revolução de Rojava, que a revolução das mulheres iniciada em 2012, é também a sua revolução. Após a última ofensiva do regime sírio em janeiro de 2026 em nosso território, devemos defender as conquistas alcançadas pelas mulheres. Pois o Governo Provisório Sírio quer elaborar um novo plano de defesa do território, mas não quer incluir as Unidades de Defesa da Mulher (YPJ) pelo simples fato de serem mulheres. As YPJ travaram uma grande batalha e conseguiram derrotar o Estado Islâmico durante os anos de 2014, 2015 e 2016 e, depois, enfrentaram o segundo maior exército da OTAN, o Estado turco. Precisamos entender que as YPJ nascem como força ideológica; sua prática não é meramente militar, pois em sua política defendem a língua curda, a educação igualitária, os sistemas de justiça comunitária e protegem a administração autônoma do Nordeste da Síria, com base nos princípios de democracia, ecologia e libertação da mulher. Precisamos proteger as YPJ diante dessa besta misógina. Fazer com que a voz das YPJ chegue a todo o mundo!


Além disso, Abdullah Öcalan, líder do Movimento de Libertação, está preso há 27 anos em uma ilha-prisão na Turquia chamada Imrali. Desde 27 de fevereiro de 2025, Öcalan fez um apelo à paz e à democratização do processo com mais uma tentativa de cessar-fogo. Para que o processo de paz se estabeleça, precisamos que lhe seja concedida a liberdade com base no “direito à esperança”. Este é um direito internacional e constitucional para todos os prisioneiros com longas sentenças. O Estado turco ainda não se pronunciou, e o Conselho de Ministros da Europa está procrastinando esse processo que precisa ser resolvido. Pedimos o apoio de todos os partidos, parlamentares e movimentos sociais para pressionar pela libertação de Öcalan e pela continuidade do tão desejado processo de paz no Oriente Médio. Aqui vocês podem acompanhar a campanha: https://ocalanvigil.net/


Fazemos um chamado a todas as mulheres do mundo, a toda a força da organização feminista na América Latina, para nos unirmos em uma só voz, em uma força que confronte o fascismo, o capitalismo e o colonialismo. A luta contra o patriarcado é liderada pelas mulheres e será a fonte de liberdade para os nossos povos. Viva a luta das mulheres! Jin, jiyan, azadi! Mulher, vida, liberdade!