Não podemos deixar Cuba sozinha

POR DOUG WILSON

TRADUÇÃO
PEDRO SILVA

Cuba sempre esteve ao lado dos povos oprimidos que lutam por dignidade e autodeterminação em todo o mundo. Enquanto Washington ameaça intervir militarmente na ilha, é hora de retribuir essa solidariedade.

Quando Trump começou o ano sequestrando o presidente venezuelano Nicolás Maduro, ele e seus aliados declararam o início da “Doutrina Donroe”, uma atualização tipicamente grosseira da antiga Doutrina Monroe, que concedia aos Estados Unidos o direito imperial de intervir, controlar e dominar o Hemisfério Ocidental. “Este é o nosso hemisfério”, vangloriou-se a Casa Branca.

Em seu segundo mandato, Trump deu novo enfoque à reafirmação da primazia estadunidense na América Latina por meio de métodos particularmente cruéis. O que começou com execuções extrajudiciais no Caribe e o sequestro de um chefe de Estado em Caracas transformou-se agora em uma campanha de fome contra o povo cubano.

Por meio do uso da força militar estadunidense para tomar o controle da indústria petrolífera da Venezuela e de uma ordem executiva que ameaçava com tarifas punitivas qualquer país que fornecesse petróleo a Cuba, Trump criou um embargo de petróleo efetivo contra um país que depende de importações para suprir a maior parte de suas necessidades energéticas. O resultado são apagões frequentes e constante escassez de combustível, que paralisam o cotidiano dos cubanos. O governo também tomou medidas para cortar as fontes de renda restantes da ilha. Usou coerção diplomática e econômica para pressionar com sucesso países menores a encerrarem programas que envolvem os médicos cubanos, no qual profissionais de saúde cubanos trabalham no exterior para fornecer assistência médica a comunidades vulneráveis.

O turismo cubano, principal indústria do país, sofreu um colapso acelerado após vários anos de declínio devido às medidas agressivas do primeiro governo Trump. O turismo em Cuba atingiu seu pico em 2018, com 4,7 milhões de visitantes. Mas, graças à reinstalação das restrições suspensas por Obama, o setor teve dificuldades para alcançar sequer 2 milhões de visitantes após a pandemia de Covid-19. O bloqueio do petróleo, com a escassez de combustível de aviação reduzindo o número de voos e os potenciais turistas desencorajados pelo medo de constantes apagões, fez com que o turismo caísse quase 50% em relação ao ano passado.

Visitando Cuba no início de maio, pude constatar em primeira mão os danos causados ​​por essas políticas. Cuba continua sendo um país de imensa beleza e conquistas notáveis ​​nas áreas de educação, saúde e ciência. No entanto, caminhando por Havana hoje, encontramos hotéis, atrações e comércios voltados para o turismo operando muito abaixo da capacidade. A visita guiada ao magnífico Capitólio, geralmente lotado, estava sem fila. Um hotel de praia em Varadero tinha relógios marcando os horários de Ottawa e Moscou no saguão, mas não havia turistas canadenses ou russos. As ruas, normalmente repletas dos icônicos carros antigos de Cuba, estavam visivelmente mais tranquilas devido à escassez de combustível.

Qual a motivação para ações tão agressivas, tomadas sem qualquer provocação por parte de Cuba? Como sempre acontece com Trump, as razões são tanto ideológicas quanto descaradamente corruptas e egoístas. O movimento político de Trump está fortemente enraizado na Flórida, a base histórica da comunidade cubana de exilados anticomunistas. Com a nomeação de Marco Rubio, um linha-dura antidiplomacia de longa data, como Secretário de Estado, as demandas do establishment político anticastrista de Miami passaram a ocupar o centro da política externa dos EUA.

Mas Trump também há muito tempo enxerga Cuba sob a ótica de uma oportunidade comercial. Em seu discurso constante sobre a necessidade de “tomar” Cuba, ele exalta o potencial para casas de praia e outros empreendimentos turísticos. Há muitas dessas propriedades em Cuba, mas nenhuma pertencente a capitalistas estadunidenses. Como ficou claro por meio de vazamentos para veículos de imprensa simpáticos ao governo Trump, os objetivos não são “democratizar” a ilha, mas sim submetê-la por meio da privação energética, deixando-a dependente dos Estados Unidos. Podemos esperar que a família e os amigos de Trump colham os frutos de qualquer “acordo” fechado sob a mira de armas.

Trump conseguiu afundar os cubanos na pobreza, mas não obteve a rendição que esperava. É por isso que seu governo agora se prepara para algum tipo de ação militar. A acusação contra Raúl Castro parece preparar o terreno para mais uma operação semelhante à realizada com Maduro. Resta saber se isso é uma encenação política para agradar Miami ou o início de uma campanha mais ampla de mudança de regime.

Mas, apesar do poderio militar estadunidense, Washington não é invulnerável. Trump deseja que Cuba volte a ser o Estado satélite que era antes da revolução, mas o povo cubano permanece orgulhosamente patriota. No último Dia do Trabalho, vi centenas de milhares de cubanos marcharem até a Praça Anti-Imperialista José Martí, em frente à Embaixada dos EUA, para protestar contra essas ameaças. O povo cubano não entregará sua soberania sem lutar.

Enquanto os cubanos enfrentam uma crise causada pelo imperialismo, é fundamental que a esquerda se mobilize em sua defesa. Já vimos o apoio da China fazer uma diferença crucial por meio do fornecimento de energia renovável, particularmente energia solar, para ajudar a combater o bloqueio do petróleo. É vital que a esquerda internacional intensifique seus esforços organizando apoio prático aos cubanos, incluindo doações de assistência médica, alimentos e painéis solares. Devemos ser inequívocos em nossa rejeição ao objetivo de Trump de devolver à América Latina o status humilhante de quintal dos Estados Unidos.

Cuba enfrenta um desastre politicamente provocado, que visa forçá-la a submeter-se ao domínio imperial. A esquerda do mundo todo deve se unir em uma ampla coalizão contra essa política criminosa de fome e guerra contra um povo inocente.

Doug Wilson

é um ativista sindical.l.