POR QUERALT CASTILLO
Via Esquerda.net
Na noite eleitoral, o ex-presidente admitiu a derrota perante a Lista Estudantil, que surgiu no calor do movimento estudantil que se levantou contra o Governo após a tragédia de Novi Sad.
Faltavam poucos minutos para as dez da noite, hora local, quando, na Sérvia, o até então presidente do país, Aleksandar Vučić, admitiu a derrota perante a Lista Estudantil, a candidatura surgida do movimento universitário e criada na sequência do acidente, em 2024, na estação ferroviária de Novi Sad, a segunda cidade mais importante do país e onde morreram 16 pessoas na sequência do desabamento de uma cobertura. Embora o incidente tenha sido investigado como um “acidente”, a população sérvia, sobretudo os mais jovens, apontou a corrupção do Governo no que diz respeito aos contratos públicos. A falta de controle nas obras, bem como os interesses tanto políticos como empresariais, têm sido também argumentos centrais nos protestos destes últimos dois anos. A erosão da pluralidade democrática, bem como dos meios de comunicação social, e o enfraquecimento das instituições têm estado muito presentes neste mandato do já ex-presidente.
Desde então, têm-se registado dezenas de manifestações por todo o país. Liderada por estudantes do ensino secundário e universitário, a mobilização tem sido constante e o resultado de anos de corrupção concretizou-se neste resultado eleitoral, considerado histórico. Embora as sondagens dos últimos dias apontassem para uma vantagem mínima da Lista Estudantil, esta lista, composta por membros da sociedade civil, na sua maioria sem experiência política, conseguiu impor-se ao todo-poderoso Partido Progressista Sérvio (SNS), liderado por Vučić.
Nestas eleições, o governante não se candidatou ao cargo de presidente, mas sim ao de primeiro-ministro. Anunciou a sua demissão e a convocação antecipada de eleições no passado dia 27 de junho, numa manobra com a qual pretendia, através de uma reorganização do poder, manter-se no comando do país. O já ex-líder exerceu funções como vice-primeiro-ministro entre 2012 e 2014, tendo-se tornado primeiro-ministro entre 2014 e 2017. Em 2017, foi eleito presidente e foi reeleito em 2022, em eleições que muitas organizações internacionais de observação eleitoral questionaram e classificaram como “fraudulentas”. Antes disso, tinha exercido funções como ministro de Milošević. Agora, porém, a história reservou-lhe uma reviravolta que não esperava.
“Ainda não temos os resultados finais, mas com base numa amostra estratificada, é claro que perdemos estas eleições. A Lista Estudantil venceu, terá entre 135 e 140 assentos e nós teremos 105. Mais ninguém entrou no Parlamento”, afirmou Vučić no seu discurso.
O resultado destas eleições, já consideradas históricas — não pelo tempo que Vučić esteve no poder (12 anos), mas pelo que significa para o país destroná-lo — assemelha-se ao que aconteceu em abril passado na Hungria, quando Viktor Orbán foi derrotado por Péter Magyar. A diferença, no entanto, reside em quem saiu vencedor: no caso da Sérvia, uma lista criada pela e para a sociedade civil, nascida do povo e de um movimento estudantil que não desistiu nestes dois anos; no caso da Hungria, Magyar tinha sido um dos homens fortes de Orbán e situa-se no campo conservador.
Queralt Castillo Cerezuela é jornalsista do El Salto. Artigo publicado em El Salto.
