Kay Mann
Via Viento Sur
As manifestações massivas “No Kings!” no dia 28 de março e os preparativos ambiciosos para as mobilizações de 1º de maio mostram a crescente união das forças que se opõe a Trump. Essa convergência acontece no contexto dos ataques de Trump contra os direitos democráticos nos Estados Unidos e contra a soberania de outros países – o exemplo mais recente é seu ataque irresponsável contra o Irã – e no contexto da queda do seu índice de popularidade.
Desde que Trump foi eleito para um segundo mandato, surgiram três polos de resistência popular e da classe trabalhadora. O primeiro gira em torno do coletivo Indivisible, que é formado predominantemente por ONGs e que convocou uma nova série de manifestações para o dia 28 de março de 2026. Cerca de 25 milhões de pessoas saíram às ruas por todo o país nas últimas manifestações. Elas têm permitido expressar a rejeição ao Trump em muitas frentes, como demonstraram as marchas e os cartazes, principalmente em defesa de imigrantes, em solidariedade à Palestina (ainda que Indivisible, em seus cartazes oficiais, não tenha mencionado nem Gaza nem Palestina), em defesa das comunidades LGBTIA+, do meio ambiente e, certamente em oposição geral à política de Trump que conduz ao autoritarismo.
O movimento contra o ICE
A segunda frente de resistência contra Trump é o movimento contra o ICE, a polícia migratória. A resistência das redes anti-ICE em Minneapolis, frente à chegada de mais de 3000 agentes do ICE, atraiu a imaginação de antifascistas e antiautoritaristas do mundo inteiro. Um amplo movimento de protesto foi desencadeado pelo assassinato de Renee Good, ativista em apoio a imigrantes e cidadã estadunidense, feito pelos agentes do ICE em Minneapolis, perto de onde George Floyd foi assassinado por um policial em 2020, e pelo assassinato de Alex Pretti, também cidadão estadunidense e branco. Essas manifestações massivas e as redes que participam delas formam um novo movimento social de massas que reúne todas as características de um movimento social. A primeira dessas características é sua magnitude. Não apenas as manifestações de rua reuniram muita gente, mas a participação nas redes de solidariedade também foi muito alta. Entre 25% e 50% da população de Minneapolis e St. Paul (cidade vizinha) participou das mobilizações e das redes de apoio mútuo, uma proporção excepcional.
A criação de novas organizações também é típica de um movimento social. O movimento anti-ICE gerou novas organizações e integrou coletivos e redes militantes já existentes, em particular associações de bairro e redes criadas durante a mobilização que ocorreu após o assassinato de George Floyd em 2020. Além das próprias redes, surgiram alianças entre grupos anti-ICE – novos e antigos –, como em Chicago, onde foi fundada uma coalizão que agrupa uma centena de organizações de toda a cidade, a Immigrant Coalition for Immigrant and Refugee Rights. Esses grupos se articularam com ativistas anti-ICE de Minneapolis. Em alguns casos, isso foi conseguido graças a vínculos já existentes estabelecidos pelos sindicatos.
O movimento anti-ICE está presente não apenas em Minneapolis e em cidades como Los Angeles e Chicago, onde tem ocorrido um estabelecimento muito relevante do ICE, mas também em cidades como Milwaukee, que por enquanto não receberam a chegada em massa dos agentes do ICE, mas em que já se desenvolve um movimento anti-ICE, em preparação para tal possibilidade.
As ações concretas do movimento
Esse movimento tem demonstrado um nível de organização impressionante e um uso de métodos tradicionais dos movimentos sociais, como as manifestações e o boicote, e de variantes originais dessas táticas. Nos bairros, as redes de reação rápida criaram grupos no aplicativo de mensagens Signal para manter ativistas em contato (muitas pessoas participavam pela primeira vez) e organizar a defesa coletiva através de diversas formas de ajuda mútua, como a entrega de comida, para que imigrantes possam escapar das patrulhas do ICE. Quando o ICE é visto em algum lugar, isso é avisado nos grupos do Signal e todo mundo se apressa para ir ao lugar para gravar as atividades deles e ajudar quem precisa. Os números de matrícula dos veículos são divulgados para que ativistas os sigam com seus carros. As pessoas utilizam apitos para alertar a presença do ICE. A forma de organização das atividades para seguir de carro os veículos do ICE lembra os piquetes móveis que foram montados durante a greve nacional do setor têxtil de 1934 e durante a famosa greve de caminhoneiros de Minneapolis de 1934.
Organizam um boicote contra a empresa de aluguel Enterprise e contra os hotéis Hilton, que alugaram veículos para o ICE e alojaram seus agentes. Trata-se de adaptações dos métodos usados desde os anos 80 para pressionar as empresas de forma indireta, apontando para seus clientes. Em todo o país, estudantes secundaristas e universitários se negaram a frequentar as aulas para protestar contra as batidas do ICE, e novas mobilizações estão previstas para o 1º de maio.
Numerosos sindicatos, entre os mais importantes do país, como o Sindicato Internacional de Empregados de Serviços (SEIU), o Sindicato de Trabalhadores de Automóveis (UAW) e sindicatos de docentes locais e nacionais, como a Federação Americana de Docentes (AFT) e a Associação Nacional de Educação (NEA), assim como a própria AFL-CIO (Federação Americana do Trabalho e Congresso de Organizações Industriais), expressaram sua oposição ao ICE. Em Minneapolis, esses e outros sindicatos apoiaram as manifestações dos dias 23 e 30 de janeiro.
May Day Strong
O terceiro polo de resistência é o May Day Strong (MDS), que reúne sindicatos de esquerda e seções sindicais, como o sindicato de docentes de Chicago (CTU) ou as seções combativas do SEIU em Minneapolis. O MDS está preparando uma jornada de ação para o 1º de maio (May Day em inglês) que consiste em uma greve geral, uma greve estudantil e uma greve de consumo. 3000 pessoas participaram de uma videoconferência organizada recentemente pelo MDS para debater as ações para o dia, principalmente as greves e o boicote econômico. A mobilização do 1º de maio desse ano certamente não será uma greve clássica com paralisações convocadas pelos sindicatos por causa das leis que proíbem greves políticas e aos acordos coletivos em que sindicatos renunciaram à greve. Mas a agitação a favor de uma greve geral vai estimular o debate em torno da questão da mobilização nos centros de trabalho, as greves de massas e a necessidade de se opor a leis que restringem a ação sindical.
É bem possível que as ações desse 1º de maio se pareçam um pouco com as de 2006 durante o Dia sem latinos, que contou com manifestações massivas em cidades como Los Angeles e Milwaukee – cidades onde vive uma importante população de origem mexicana e latina – assim como greves de fato em que trabalhadores disseram estar doentes e faltaram ao trabalho ou simplesmente não justificaram a falta e foram para a manifestação.
A esquerda radical estadunidense e o movimento anti-Trump
Além da atividade local contra o ICE em Minneapolis e em outros lugares, e das manifestações “No Kings!”, as organizações de esquerda radical organizaram manifestações contra as agressões de Trump contra a Venezuela e o Irã e em apoio ao movimento anti-ICE. A organização dessas manifestações esteve dominada por organizações de orientação campista, como o Partido para o Socialismo e a Libertação e a Organização Socialista Freedom Road (FRSO). Outros grupos também participaram, entre eles o Solidarity, uma organização socialista e revolucionária.
Até agora, a organização mais importante da esquerda estadunidense, Democratic Socialists of America (DSA), se dedicou mais para intervenção eleitoral do que para os protestos de massas no geral e as manifestações contra a guerra. Mas as coisas estão mudando. Algumas seções da DSA participaram de ações sobre a Venezuela e o ICE e parece que a DSA irá se envolver com a oposição à guerra que Trump está realizando no Oriente Médio.
Perspectivas de unificação do movimento anti-Trump
O clima social e político atual no país criou um espaço enorme para a resistência. Nem a campanha contra as pessoas imigrantes nem a guerra contra o Irã irão desaparecer com o caso Epstein nem irão fazer com que as classes populares se esqueçam do custo de vida, que seguirá subindo com o aumento do preço do petróleo provocado pela guerra que afeta todo o Oriente Médio. Diferentemente da operação levada a cabo na Venezuela, a guerra contra o Irã promete continuar. As pesquisas já mostram que o ataque estadunidense conta com pouco apoio e é fortemente rechaçado. A guerra também aumentará o descontentamento com Trump entre seus seguidores da MAGA (Make America Great Again) e entre alguns representantes republicanos a quem Trump havia prometido por um fim em aventuras militares como a guerra do Iraque.
O movimento anti-ICE em Minneapolis e em todo o país se enraizou profundamente nos bairros populares. Esses episódios recentes deixarão uma marca indestrutível na consciência de milhões de pessoas e muitas se tornarão receptivas a análises e programas radicais social e politicamente.
O fato de que a população imigrante latina nos Estados Unidos forme parte, em sua grande maioria, das classes populares, torna possível uma evolução da consciência das massas, partindo de uma simples defesa das pessoas que são suas vizinhas (que é a perspectiva atual de grande parte de quem participa do movimento anti-ICE) para avançar a uma oposição a Trump sobre uma base de classe mais evidente. Anticapitalistas e sindicalistas de luta devem destacar o caráter de classe dos ataques de Trump e a composição popular e trabalhadora das comunidades imigrantes que sofrem com essa ofensiva.
Unificar os diferentes componentes da coalizão de massas “No Kings!”, que refletem a resistência global e setorial a Trump, com o movimento anti-ICE, e dotá-los de uma direção democrática e trabalhadora independente do Partido Democrata, seria um grande avanço para o movimento anti-Trump. Mas os desafios estão pela frente. Indivisible é uma organização vertical onde as decisões são tomadas pelas ONGs e não democraticamente, pelo movimento. Seus dirigentes mostram abertamente sua simpatia pelo Partido Democrata e sua intenção de usar as manifestações em apoio do Partido Democrata.
May Day Strong talvez pudesse atuar para conectar as manifestações “No Kings!”, com seus diferentes elementos de esquerda, e o movimento anti-ICE, para construir um amplo movimento anti-Trump em que os sindicatos e as classes populares assumiriam a direção. Os organizadores das manifestações do dia 28 de março concebem sua ação como um passo em direção ao 1º de maio, que contribuirá com essa unidade. Mas depois do 1º de maio, haverá um grande esforço por parte de Indivisible para orientar o movimento em apoio ao Partido Democrata frente às eleições de metade de mandato de novembro de 2026, o que teria um efeito desmobilizador.
O potencial dos três componentes da resistência a Trump reside em seu caráter de massas, em seu uso de táticas tradicionais e novas do repertório de protestos e em seu próprio enraizamento nas classes populares e nas comunidades oprimidas dos Estados Unidos, e em sua independência em relação ao Partido Democrata. E, dado o que está em jogo nas eleições de metade de mandato em novembro, preservar a independência do movimento vai ser uma tarefa especialmente importante.
Kay Mann é membro da Solidarity, uma fração estadunidense da Quarta Internacional, e professora de sociologia na universidade.
