Por Danny Valdes
Via Jacobin
Tradução: Equipe Radar Internacional
Como cubano-estadunidense viajando com um recente comboio de ajuda, fui testemunha das dificuldades diárias que as sanções produzem. Os Estados Unidos devem pôr fim ao seu bloqueio devastador.
No último fim de semana de março viajei para Cuba com o Comboio Nuestra América, junto a uma delegação de cubano-estadunidenses, para entregar ajuda e demonstrar solidariedade ao povo cubano, em um momento no qual um bloqueio energético impulsionado pelos Estados Unidos submete a ilha a uma crise cada vez mais profunda.
Levamos suprimentos médicos essenciais ao Hospital Hermanos Ameijeiras, um dos mais importantes de Cuba, onde profissionais médicos e enfermeiros continuam fazendo milagres com recursos cada vez mais escassos. Entregamos alimentos diretamente a famílias no Parque Maceo, onde a escassez tornou até as necessidades mais básicas difíceis de garantir, e também colaboramos com ativistas LGBTQ para distribuir ajuda.
Esses momentos de conexão e cuidado são o que ficam na memória. No entanto, também fica a realidade que os torna necessários.
Durante a viagem, vimos como a ilha sumia na escuridão após o colapso da rede elétrica. Nossos amigos e familiares ficaram sem luz, sem refrigeração, sem nenhum alívio para o calor. O silêncio que se seguiu foi impactante. Ele nos obrigou a encarar a magnitude da crise de uma forma que nenhuma estatística ou manchete pode captar por completo.
É assim que a escassez se apresenta, em sua forma vivida.
De fora é fácil reduzir a situação de Cuba à política de sempre, a um debate sobre ideologia ou governança. Porém, na prática, o quadro é muito mais humano e muito mais complexo. Conversamos com cubanos de todas as perspectivas políticas. Muitos foram sinceros e até críticos em relação ao seu governo. Essas conversas foram cheias de nuances e, muitas vezes, profundamente pessoais.
No entanto, todas as conversas compartilhavam um mesmo fio condutor: um forte compromisso com a soberania e a independência. A despeito das diferenças políticas, havia um amplo consenso de que a crise atual é causada, em grande parte, pela pressão externa imposta pelos Estados Unidos. Os cubanos querem poder decidir seu próprio futuro sem serem sufocados no processo.
Essa perspectiva frequentemente está ausente das conversas nos Estados Unidos.
Como cubano-estadunidenses, ocupamos uma posição única, e às vezes desconfortável, nessa dinâmica. Muitos de nós crescemos em comunidades nas quais voltar a Cuba ainda é visto como tabu, até mesmo como uma traição. Esse estigma, enraizado em décadas de dor e deslocamento, continua a moldar a forma como nos relacionamos com a ilha e entre nós mesmos.
No entanto, é justamente por causa dessa história que este momento exige algo diferente de nós.
Nos é dito que a política dos Estados Unidos em relação a Cuba reflete a vontade dos cubano-estadunidenses, uma afirmação repetida tantas vezes que passa a ser tratada como fato. Ela, porém, esconde uma realidade mais complicada. Existem milhões de cubano-estadunidenses nos Estados Unidos, e não somos um grupo homogêneo. Cada vez mais, muitos de nós rejeitam a ideia de que políticas de isolamento e pressão econômica falam em nosso nome.
Nesta viagem, essa contradição tornou-se impossível de ignorar.
A crise em Cuba não se resume simplesmente à falta de combustível, embora isso por si só já seja devastador. É sobre tudo o que vem depois. Quando o combustível é escasso, o transporte desacelera ou para. Os alimentos não podem ser distribuídos de forma eficiente. Os hospitais enfrentam dificuldade para manter suas operações. O lixo deixa de ser coletado. Os efeitos se acumulam, afetando todos os aspectos da vida cotidiana.
O que pode parecer uma disfunção à distância é, muitas vezes, resultado de limitações materiais.
Ainda assim, mesmo em meio a esses desafios, há algo profundamente comovente no que persiste. O tecido social de Cuba permanece forte. Existe um profundo senso de responsabilidade coletiva, um compromisso com o cuidado que se manifesta em pequenas, mas significativas ações: vizinhos compartilhando comida, comunidades organizando apoio, artistas e ativistas criando espaços de alegria diante das dificuldades.
Essa é a Cuba que muitas vezes é ignorada: não uma caricatura, não um argumento simplista, mas uma sociedade viva e pulsante que enfrenta enormes desafios enquanto preserva sua humanidade.
Nada disso significa ignorar os problemas internos de Cuba. Como qualquer país, Cuba enfrenta sérias questões políticas e econômicas. Esses debates cabem aos próprios cubanos e já estão acontecendo. No entanto, o que frequentemente fica de fora do debate nos Estados Unidos é o papel desempenhado pela própria política estadunidense na formação das condições em que esses debates ocorrem.
Uma política que restringe o acesso a combustível, limita importações e pune a participação econômica não cria condições para abertura ou reforma. Ela cria escassez. Cria dificuldades. Reduz o espaço em que as pessoas podem imaginar e construir alternativas.
Se o objetivo é um futuro melhor para Cuba, essa abordagem não é apenas ineficaz: é contraproducente.
Já tivemos vislumbres de um caminho diferente no passado. Os períodos de engajamento limitado entre Estados Unidos e Cuba, mesmo que incompletos, levaram a maior atividade econômica, mais intercâmbio e um senso de possibilidade na ilha. Esses momentos sugerem que uma relação diferente não só é possível, como também benéfica.
O que falta é vontade política para segui-la.
Saímos dessa viagem com uma profunda tristeza diante da situação em Cuba. É impossível não sentí-la após presenciar a realidade cotidiana que tantas pessoas enfrentam. No entanto, também saímos com um renovado senso de propósito.
As políticas que contribuem para essa crise não são inevitáveis. São escolhas. E, como estadunidenses - especialmente como cubano-estadunidenses - temos a responsabilidade de questioná-las.
Isso começa com dizer a verdade, mesmo quando ela complica narrativas familiares. Significa rejeitar a ideia de que crueldade e privação são ferramentas aceitáveis de política externa. Significa insistir em uma visão das relações entre Estados Unidos e Cuba baseada em diálogo, respeito e prosperidade mútua.
Por muito tempo, as vozes mais altas que moldaram essa política não representaram toda a diversidade da nossa comunidade. Isso está começando a mudar.
Cada vez mais estamos nos manifestando, nos organizando e dizendo claramente: isso não é feito em nosso nome.
O futuro de Cuba deve ser determinado pelos cubanos. Nosso papel não é ditar esse futuro, mas remover as barreiras que impedem que ele se desenvolva em seus próprios termos.
Danny Valdes é membro do Democratic Socialists of America (DSA) de Nova York.
