POR MATT MCMANUS
TRADUÇÃO
PEDRO SILVA
Via Jacobina
Ao contrário dos mitos da extrema direita de que os “nazistas eram de esquerda”, os fascistas desprezam o socialismo e querem destruí-lo. Eis aqui os motivo pelos quais a esquerda representa uma ameaça tão grande para eles.
Fascismo é um dos termos mais usados em qualquer idioma, a ponto de até mesmo socialistas começarem a se cansar de vê-lo todos os cantos. Na história recente dos Estados Unidos, desde Barack Obama e Kamala Harris até Donald Trump e o movimento MAGA, todos foram chamados de fascistas. Um dos piores desdobramentos disso foram os esforços de comentaristas (principalmente de centro-direita) de sugerir que o fascismo era, na verdade, um movimento da extrema esquerda, ou que os fascistas eram até mesmo socialistas. Do livro “Liberal Fascism”, de Jonah Goldberg, hoje amplamente ridicularizado, a Peter Hitchens chamando os nazistas de “racistas de esquerda”, o gênero é popular o suficiente para ter gerado inúmeras respostas sarcásticas.
Esse argumento foi impiedosamente refutado aqui e em outros lugares, e parece cada vez mais ridículo à medida que mais e mais jovens republicanos se revelam admiradores declarados do fascismo e do nazismo. Portanto, não retomarei essa refutação. Em vez disso, quero examinar a inimizade inerente entre socialismo e fascismo, de onde ela vem e por quê. Obviamente, não pretendo sugerir que os socialistas sejam as únicas, ou mesmo as principais vítimas da maldade fascista: milhões de pessoas LGBTQIA+, com deficiência, judias, ciganas e de outros grupos também foram brutalmente oprimidas pelos coturnos fascistas. Ainda assim, como diz o famoso poema de Martin Niemöller, “Primeiro vieram buscar os comunistas”, e se quisermos entender e combater o fascismo hoje, é vital saber por que isso acontece.
O fascismo e a direita em geral
A relação entre o fascismo e a direita em geral é complexa. No início do século XX, na Itália e na Alemanha, é bem provável que muitos conservadores e capitalistas preferissem uma ditadura conservadora mais convencional, que rejeitasse a política populista de massas — todos aqueles comícios disruptivos, desfiles, lutas de rua e esforços para construir um novo tipo de ordem nacionalista totalizante. Mas isso não os impediu de aderir ao fascismo quando a ameaçadora bandeira vermelha tremulava.
Em seu livro Liberalismo, de 1927, o economista ultracapitalista (e posteriormente admirador de Ayn Rand) Ludwig von Mises aplaudiu o “fascismo e movimentos similares que visam ao estabelecimento de ditaduras” por estarem “cheios das melhores intenções” e por, “por ora, terem salvado a civilização europeia” da tomada do poder pelos comunistas. Como muitos na direita europeia, von Mises ficou horrorizado com a Revolução de Outubro, que levou os bolcheviques ao poder na Rússia, com as revoluções socialistas na Alemanha, que resultaram na República de Weimar, em grande parte construída pelo Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD), e com a ascensão de partidos de esquerda em todo o continente. Nesse sentido, ele via o fascismo como uma necessidade emergencial, um “dispositivo de emergência” — opinião compartilhada por conservadores como Churchill, que chamou Mussolini de “o maior legislador entre os homens vivos”, por algum tempo. Contudo, em Liberalismo, von Mises expressou preocupação com os excessos autoritários e recomendou que Mussolini e outros se apressassem em restaurar ou criar uma sociedade de livre mercado. Para ele, assim como para outros, o fascismo situava-se algures entre uma medida de emergência útil e um mal necessário. Na Espanha e na Romênia, os ditadores conservadores convencionais por vezes elevavam movimentos fascistas locais, como a Falange e a Guarda de Ferro, para reforçar a sua legitimidade — apenas para os marginalizar ou esmagar quando estes se tornavam uma ameaça potencial.
Essas reservas qualificadas não impediram que muitos na direita em geral cooperassem com as tomadas de poder fascistas quando isso lhes fosse vantajoso. Em seu recente livro Fascism: A Quick Immersion [Fascismo: Uma Rápida Imersão], Roger Griffin destaca como, nos primórdios, a orientação ideológica exata do fascismo era debatida, e Mussolini oscilava entre suas convicções socialistas anteriores e o crescente anticomunismo e nacionalismo do movimento. Após outubro de 1922, quando Mussolini se tornou primeiro-ministro, o fascismo italiano “sofreu uma nova mutação, e o próprio Mussolini passou a usar chapéu-coco e um ‘terno burguês’, para além do uniforme militar”. Isso sinalizava aos conservadores que o novo regime estava decididamente do lado deles. Durante sua estadia no poder, o fascismo italiano “desfrutou da conivência ativa da monarquia, da Igreja Católica e de grande parte da burguesia industrial e rural, todas forças profundamente reacionárias”, o que ajuda a explicar “a rápida guinada do fascismo para a extrema direita e sua subsequente nova iteração como um regime totalitário”. Essa conciliação ocorreu em grande parte porque muitos na direita concordavam com Von Mises que os fascistas italianos, embora um tanto rudes, eram muito bons em suprimir comunistas e socialistas. (Para a Igreja, em particular, qualquer coisa era melhor do que a ameaça existencial representada pelo marxismo e seu materialismo “sem Deus”.)
Em A Chegada do Terceiro Reich, Richard Evans observa como, na Alemanha, conservadores do exército, das grandes empresas e de outros setores colaboraram para ajudar os nazistas a chegar ao poder:
Os conservadores que levaram Hitler ao poder compartilhavam muito da sua visão. Eles realmente olhavam para o passado com nostalgia e ansiavam pela restauração da monarquia de Hohenzollern e do Reich de Bismarck. Mas eles deveriam ser restaurados de uma forma expurgada do que consideravam concessões imprudentes feitas à democracia. Em sua visão de futuro, todos deveriam conhecer o seu lugar, e as classes trabalhadoras, em especial, deveriam ser mantidas onde pertenciam: completamente fora do processo de tomada de decisões políticas
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Em outras palavras, eles queriam o melhor dos dois mundos: manter todos os avanços no poder militar e na produtividade industrial que a modernidade havia trazido, ao mesmo tempo que revertiam as mudanças democráticas na estrutura da sociedade que vieram com eles.
Em particular, Evans destaca que os conservadores alemães e as grandes empresas toleraram ou cooperaram com os nazistas expressamente para evitar fazer qualquer concessão ao poderoso Partido Social-Democrata (SPD), embora social-democrata. Richard Paxton é ainda mais enfático em A Anatomia do Fascismo, ao apontar que o movimento nazista poderia ter “acabado como uma nota de rodapé na história se não tivesse sido salvo nos primeiros dias de 1933 por políticos conservadores que queriam se apropriar de seus seguidores e usar sua força política para seus próprios fins”. Chegou ao ponto de o Partido Nacional Popular Alemão, um partido mais genericamente conservador, formar uma coalizão com o NSDAP e apoiar suas ambições ditatoriais.
Compreender essa história de conciliação mais ampla da direita com o fascismo pode nos ajudar a entender por que muitos autoproclamados conservadores ainda cooperam com a extrema direita para combater o que consideram “degeneração esquerdista”. Recentemente, a Heritage Foundation foi criticada por acobertar a conversa de Tucker Carlson com Nick Fuentes, provavelmente o neonazista e negacionista do Holocausto mais proeminente da atualidade. Para aqueles que têm a sorte de não saber, Carlson é notório por propagar o nacionalismo branco e dar voz a revisionistas nazistas. Mas uma conversa amigável com Fuentes ainda chocou muitos (embora não devesse). J.D. Vance também escreveu a recomendação de um livro que elogia explicitamente o general autoritário espanhol Francisco Franco, e recentemente minimizou a revelação de que muitos funcionários do Partido Republicano invocam rotineiramente a retórica nazista, alegando que são apenas “jovens” (muitos deles com 30 anos ou mais) que gostam de humor ácido e de provocar os liberais. Muitos continuam a expressar surpresa com o fato de um movimento conservador, outrora normal, parecer tão disposto a conciliar-se e a idolatrar fascistas. Contudo, se analisarem a história, poucas coisas serão menos surpreendentes. Fascistas e conservadores sempre foram capazes de se unir em torno de seu ódio veemente pela esquerda. Quando se considera como a direita alemã via até mesmo o socialismo liberal e democrático do SPD uma calamidade, ou como muitos republicanos de extrema-direita contemporâneos viam Joe Biden como a reencarnação de Stalin, tudo faz sentido.
O que é o fascismo?
O fascismo jamais teria alcançado poder significativo sem o apoio da direita conservadora mais ampla e tradicional. Mas o fascismo não é apenas conservadorismo ou capitalismo com esteroides. Tampouco pode ser compreendido apenas como uma força contrarrevolucionária ou reacionária definida por suas negações. Uma das fragilidades de longa data das análises de esquerda sobre a direita tem sido a tendência de vê-la puramente como reacionária. Isso implica que a esquerda é a verdadeira agente da história, que propõe e impulsiona mudanças, as quais a direita então tenta retardar ou impedir.
Ora, em certos momentos, é isso que muitos na direita farão. Mas as doutrinas da direita não são definidas puramente por instintos reacionários. Elas são definidas por afirmações e crenças próprias — principalmente, a convicção de que as pessoas (e os povos) são fundamentalmente desiguais, e a melhor sociedade é aquela que reflete as desigualdades naturais ou inatas. Obedecer a um superior real é uma grande virtude social, parafraseando o conservador James Fitzjames Stephen. Esse anti-igualitarismo pode assumir uma forma conservadora, na qual aqueles à direita buscam defender as autoridades hierárquicas existentes que consideram, em geral, legítimas. Mas também pode assumir formas revolucionárias e até utópicas, nas quais a direita radical fantasia sobre restaurar ou criar tipos utópicos de sociedade onde a verdadeira hierarquia “orgânica” se expressará. Muitas vezes, isso é codificado em linguagem restauracionista, como no livro Ride the Tiger [Cavalgar o Tigre], do autoproclamado “superfascista” Julius Evola:
Assim como o verdadeiro Estado, o Estado hierárquico e orgânico deixou de existir. Não existe nenhum partido ou movimento comparável que se apresente como defensor de ideias superiores, às quais se possa aderir incondicionalmente e apoiar com absoluta fidelidade. O atual mundo da política partidária consiste apenas no regime de políticos mesquinhos que, independentemente de suas filiações partidárias, são frequentemente figuras decorativas a serviço de interesses financeiros, industriais ou corporativos. A situação chegou a tal ponto que, mesmo que existissem partidos ou movimentos de um tipo diferente, eles quase não teriam seguidores entre as massas desenraizadas que respondem apenas àqueles que prometem vantagens materiais e “conquistas sociais”.
Mas, como Corey Robin observa em The Reactionary Mind [A Mente Reacionária], a própria radicalidade da nostalgia da extrema-direita significa que alguém como Evola é forçado a admitir que é o futuro, e não o passado, que constitui o horizonte de suas fantasias políticas. O momento presente é percebido como tão podre e corrompido pelo liberalismo, socialismo e democracia que, na prática, não resta nada a ser preservado. Muitos fascistas chegam a expressar hostilidade em relação aos conservadores, embora se sintam compelidos a cooperar com eles. Os fascistas frequentemente veem os conservadores como esclerosados, tímidos e incapazes de reverter a onda de forças decadentes que estão dominando a cultura nacional. Em How to Read Hitler [Como Ler Hitler], Neil Gregor observa como Hitler se radicalizou na cosmopolita Viena. Ele passou a desprezar os social-democratas, os judeus e os marxistas, que considerava uma força singular e corruptora. Mas, como Gregor destaca, ele não culpou apenas a esquerda, mas também a “estupidez e credulidade” das “forças da ‘velha direita’, os ‘dez mil superiores’, cuja incapacidade de resolver ‘o problema social’ tornou possível que o marxismo, e consequentemente os judeus, espalhassem sua influência perniciosa”.
Para alguém como Hitler, a velha direita conservadora não conseguiu realizar o trabalho e falhou em expandir o poder da nação alemã. A ação radical era o que se exigia para alcançar um tipo superior de rejuvenescimento nacional, e é isso que os fascistas oferecem. Dependendo do momento tático, isso significava que os fascistas ora cooperavam com os conservadores mais convencionais, ora os desprezavam. Grande parte da sensibilidade populista e oportunista que define o fascismo, tanto naquela época quanto agora, deriva desse desejo distintamente pequeno-burguês de consolidar a autoridade, ao mesmo tempo que ascende ao topo da hierarquia social, onde os fascistas acreditam que deveriam estar. Quando figuras da extrema-direita moderna, como Fuentes, falam sobre “conservadores covardes” e “Con Inc.” — zombando do establishment do Partido Republicano enquanto tentam, com considerável sucesso, forçá-lo e substituí-lo — isso ecoa essa história.
A definição acadêmica mais amplamente aceita de “fascismo genérico” é a de Griffin. Em seu livro clássico The Nature of Fascism [A Natureza do Fascismo], ele define fascismo da seguinte forma: “O fascismo é um tipo de ideologia política cujo núcleo mítico, em suas várias permutações, é uma forma palingenética de ultranacionalismo populista.”
Em outras palavras, os fascistas projetam a existência de uma “ultranação”, que raramente se conforma às fronteiras e aos cidadãos reais de um Estado-nação existente. Eles insistem que a ultranação é o locus total do significado na vida das pessoas e que precisa ser restaurada. O termo “palingênese” refere-se a renascimento ou recriação. A ultranação frequentemente recebe uma qualidade orgânica, como na obra de Evola, concebida como um superorganismo que transcende os indivíduos que a compõem. Muitas vezes, essa conexão orgânica é feita apelando diretamente à raça e à pseudociência racista para definir uma comunidade ariana de sangue “puro” que corre o risco de infecção. Em Minha Luta, Hitler fez exatamente essas afirmações, descrevendo a saúde racial da nação como vital para a restauração milenar da Alemanha:
O Estado racial deve compensar o que todos os outros negligenciaram nesse campo. Deve colocar a raça no centro de toda a vida. Deve zelar por sua pureza. Deve declarar a criança como o tesouro mais precioso do povo. Deve assegurar que apenas os saudáveis gerem filhos; mas há apenas uma desgraça: trazer filhos ao mundo apesar das próprias doenças e deficiências, e a maior honra: renunciar a fazê-lo. E, inversamente, deve ser considerado repreensível: privar a nação de crianças saudáveis. Aqui, o Estado deve agir como guardião de um futuro milenar diante do qual os desejos e o egoísmo do indivíduo devem parecer insignificantes e submeter-se.
Mas, em sua essência, a ultranação é uma ideia mitológica, uma fé secular (o que não significa que formas de fascismo cristão e religioso não existam, frequentemente combinadas com o exagero nacionalista). Às vezes, os fascistas até demonstram ter consciência de que a ideia da ultranação é simplesmente uma invenção, mas não se importam. O que importa não é a realidade da ultranação, mas o significado que ela proporciona. Como Mussolini disse em um discurso de 1922:
Criamos o nosso mito. O mito é uma fé, uma paixão. Não precisa ser uma realidade. É uma realidade no sentido de que é um estímulo, é esperança, é fé, é coragem. O nosso mito é a nação, o nosso mito é a grandeza da nação! E é a esse mito, a essa grandeza, que queremos traduzir em realidade plena, que subordinamos tudo o mais.
Geralmente, os fascistas evocam com nostalgia e seletividade uma época em que a ultranação era forte, vigorosa e poderosa: o Império Romano, o Segundo Reich Alemão sob Bismarck ou os dias gloriosos em que os húngaros defenderam a Cristandade dos bárbaros otomanos islâmicos. (Ou, para a extrema-direita estadunidense de hoje, uma versão idealizada dos anos 1950, criada em grande parte por meio de propagandas.) Mas, desde então, a ultranação declinou devido à influência nefasta de inimigos internos e externos que semeiam a corrupção, a letargia e a decadência: o socialismo, o comunismo, o materialismo, o feminismo, a democracia, o liberalismo, as formas mais consumistas do capitalismo, invasores e imigrantes estrangeiros, ou todos os anteriores. Os fascistas prometem que um movimento revolucionário restaurará a glória da ultranação. Mas somente se o movimento que representa o povo comum for chancelado com controle quase absoluto.
Os fascistas rejeitam a democracia, mas tendem a abraçar o populismo. O líder — quase sempre um homem vaidoso e dramático — é apresentado como uma figura visionária que personifica a verdadeira vontade do seu povo, o que significa que deve ter permissão para agir sem restrições. Os mecanismos liberais ou democráticos de controle da autoridade do líder fascista são percebidos como neutralizadores da vontade popular e como um risco de regressão política a debates democráticos e intelectuais enfadonhos entre facções rivais.
Uma vez no poder, o movimento e o líder prometem expurgar os inimigos nacionais e tornar a ultranação grande novamente. Para muitos fascistas, isso significou uma expansão imperial em massa, empreendida tanto como meio de empoderar a nação quanto como um fim em si mesma. (A invasão da Etiópia por Mussolini em 1935 se enquadra nessa categoria.) Os fascistas veem a violência e o exercício do poder como espiritualmente edificantes, libertando o povo do egoísmo decadente e intensificando a vivência existencial.
Antissocialismo fascista
A doutrina judaica do marxismo rejeita o princípio aristocrático da Natureza e substitui o privilégio eterno do poder e da força pela massa numérica e seu peso morto. Assim, nega o valor da personalidade no homem, contesta o significado da nacionalidade e da raça e, com isso, retira da humanidade a premissa de sua existência e de sua cultura. Como fundamento do universo, essa doutrina traria o fim de qualquer ordem intelectualmente concebível para o homem.
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Adolf Hitler,
Mein Kampf
Tendo definido o fascismo e o descrito em relação à direita em geral, estamos agora em melhor posição para compreender a história do antissocialismo fascista. Os fascistas desprezam muitas coisas no socialismo. Em particular, e relacionados a isso, estão o seu racionalismo, o materialismo, o universalismo cosmopolita e, sobretudo, o igualitarismo.
Os fascistas desprezam o racionalismo e o intelectualismo do socialismo, associando-os à supressão das aspirações heroicas da personalidade. Parte disso alinha o fascismo a uma repulsa mais ampla da direita pela razão excessiva e à celebração daquilo que Roger Scruton, em The Meaning of Conservatism [O Significado do Conservadorismo], destacou como “pessoas que não pensam”. De modo geral, a direita não gosta que os indivíduos exerçam sua razão em excesso, pois isso tem a perigosa tendência de transformar súditos passivos em cidadãos exigentes. O fascismo difere da direita em geral por aceitar e, às vezes, até mesmo desejar a participação das massas na política, ainda que sujeitas à direção e ao controle do líder populista autoritário. Mas eles ainda associam o intelectualismo excessivo, do tipo que os socialistas sempre defenderam como parte da conscientização de classe e vital para uma sociedade bem administrada, a algo desanimador e confuso. Sob a perspectiva fascista, ele inibe a vontade de agir. O filósofo fascista Giovanni Gentile deixou isso explícito em Origini e dottrina del fascismo [Origem e Doutrina do Fascismo], quando criticou a forma como o intelectualismo “separa o pensamento da ação, a ciência da vida, o cérebro do coração e a teoria da prática. É a postura do falastrão e do cético, da pessoa que se entrincheira na máxima de que uma coisa é dizer algo e outra é fazê-lo; é o utópico quem fabrica sistemas que jamais enfrentarão a realidade concreta […]”. Não são apenas pensamentos específicos que o fascismo desencoraja, mas o próprio ato de pensar.
Mais especificamente, os fascistas consideram os socialistas pouco diferentes dos liberais, pois ambos estão fixados em preocupações econômicas racionalistas e, consequentemente, reduzem a humanidade a um rebanho indiferenciado de gado a ser cuidado pelo que o supremacista branco Sam Francis chamou depreciativamente de um Estado “gerencial” que levará à passividade. Em A Doutrina do Fascismo, de Mussolini (texto foi, na verdade, em grande parte escrito por Gentile), o fascismo é descrito como a “negação resoluta” do “chamado socialismo científico e marxista”, que descreve a história em termos de luta de classes. Ideologicamente, isso ocorre porque os fascistas não compartilham a visão otimista dos socialistas de que, com o fim da luta de classes, virá o advento de uma sociedade mais racional. Politicamente, como vimos, os fascistas frequentemente angariavam apoio das grandes empresas na Itália e na Alemanha prometendo acabar com a luta de classes sem a necessidade de desafiar a propriedade dos meios de produção pelo capital.
O nacionalismo pode pôr fim à luta de classes internamente, mas então o esforço ultranacionalista precisa perseguir novos projetos heroicos em outros lugares. Isso porque os fascistas negam que a precariedade econômica seja o problema social fundamental, e também que usar a razão para conceber um sistema econômico eficiente que garanta o bem-estar de todos seja uma aspiração digna. Mussolini (ou melhor, Gentile falando por meio de Mussolini) insistia que o fascista “acredita agora e sempre na santidade e no heroísmo, isto é, em atos nos quais nenhum motivo econômico — remoto ou imediato — esteja em jogo”.
Frequentemente, os fascistas confundem socialismo e liberalismo como gêmeos bastardos do Iluminismo, nessa fixação com o materialismo metafísico e espiritual. Em sua Introdução à Metafísica, o filósofo nazista Martin Heidegger proclamou que a União Soviética e os Estados Unidos eram “metafisicamente iguais”. Capitalistas liberais e socialistas concordavam que o mundo consistia em matéria em movimento, conduzida por leis científicas que podiam ser compreendidas e manipuladas pela razão humana. O objetivo da vida era, consequentemente, aproveitar o poder da ciência e da tecnologia para satisfazer os desejos humanos. Esse ponto tem sido amplamente mal interpretado por muitos críticos socialistas e liberais, que projetam suas próprias fixações econômicas na ideologia e na práxis fascistas. De modo geral, pensadores e políticos fascistas desprezavam esse economicismo iluminista compartilhado, considerando-o reflexo de uma decadência materialista mais profunda.
Os fascistas viam a economia como uma atividade inferior (frequentemente judaica) que deveria ser subordinada a preocupações políticas e raciais/populares. Em Fascism: Comparison and Definition [Fascismo: Comparação e Definição], o historiador Stanley Payne enfatiza como Hitler não tinha “ideias muito precisas de economia ou estrutura política, exceto que a economia não era importante em si mesma e deveria ser subordinada a considerações políticas nacionais”. Heidegger pensava o mesmo, em termos mais rebuscados. Para ele, o suposto confronto épico entre capitalismo e socialismo não passava de um debate patético sobre como construir e distribuir geladeiras da melhor forma. Em contraste, o movimento nazista havia surgido do povo alemão, mais espiritualmente sintonizado e heroico, uma espécie de espírito coletivo místico, e, portanto, estava destinado a destruir tanto o capitalismo quanto o socialismo para realizar a grandiosa redenção de todo o Ocidente. Essa fantasia atesta a perspicácia de críticos marxistas como Theodor Adorno e Erich Fromm, que enxergaram no “jargão da autenticidade” do fascismo uma tentativa de escapar da realidade e de seu caos para um mundo de fantasia mítica baseado no poder e na ordem.
O universalismo cosmopolita e o pacifismo aspiracional do socialismo também são uma enorme fonte de antagonismo. Os socialistas diferem dos liberais (pelo menos os clássicos) por aceitarem, em grande medida, a inevitabilidade do conflito social, nomeadamente a luta de classes. Isso fez com que filósofos fascistas como Carl Schmitt por vezes expressassem uma preferência relutante pelo realismo socialista em detrimento da ambiguidade liberal. Mas, desde Marx, a luta de classes é geralmente entendida como tendo uma dimensão global profundamente ligada à crença socialista de que um dia até mesmo esse conflito chegará ao fim. Os trabalhadores do mundo se unirão porque todos eles, independentemente de raça ou credo, são explorados pelo capitalismo. Em suas formas menos ambiciosas, os socialistas podem abandonar essa visão historicamente dramática, mantendo ainda uma moralidade universalista. Acreditamos que as obrigações morais são devidas a todos; portanto, uma característica problemática do capitalismo é o seu egoísmo individualista.
Os fascistas desprezam esse “cosmopolitismo desenraizado” e a crença adjacente de que um mundo de paz e harmonia entre todos é alcançável uma vez eliminada a exploração de classe. Em On Hitler’s Mein Kampf: The Poetics of National Socialism [Sobre Mein Kampf de Hitler: A Poética do Nacional-Socialismo], Albrecht Koschorke explica que Hitler descreveu seu antissocialismo como emergindo de um “ódio — e mais, de repulsa — pelos social-democratas, que ‘enganam’ ou ‘seduzem’ os trabalhadores”. Hitler manipulou os trabalhadores para que rejeitassem a ideia socialista de uma comunidade internacional unida na luta contra a exploração global. Em vez disso, deveriam se conceber como um Volk [Povo] especificamente alemão e ariano, onde a luta de classes seria eliminada internamente, mesmo que as classes ainda existissem de fato. Isso porque toda a atividade econômica, inclusive a da iniciativa privada, seria direcionada para o único objetivo digno de uma nação rejuvenescida: a busca pelo Lebensraum (espaço vital) e a imposição de um império por meio da guerra. Assim, o nazismo garantiria a eliminação interna do conflito de classes (mesmo que as classes econômicas reais ainda existissem na Alemanha), e Hitler estava certo de que uma violenta luta global entre “raças” era inevitável e desejável. Tudo isso determinado pelo “princípio aristocrático da natureza”, que sustentava que as raças fortes deveriam dominar as inferiores, ou sub-humanas.
Isso nos leva ao ápice do desprezo fascista pelos socialistas: nosso compromisso com a igualdade. Os socialistas são instintivamente e, muitas vezes, reflexivamente igualitários. Acreditamos que (pelo menos) toda vida humana é igualmente sagrada, o que significa que temos deveres universais para com todos. Isso nos impede de priorizar nossos desejos individuais ou nacionais a ponto de ignorarmos as necessidades dos outros ou até mesmo explorá-los. Os fascistas rejeitam isso completamente. Koschorke observa que, da “perspectiva nacionalista — especialmente na forma extremista e biologista defendida por Hitler —, [se] vê um princípio vertical de separação em ação. Vistos em termos nacionais, todos os membros do povo são, em essência, exultantes. A divisão interna, portanto, equivale a uma traição à sua natureza compartilhada. Da mesma forma, os membros de outros povos permanecem fundamentalmente estrangeiros”. Para os fascistas, muitos seres humanos não têm direito a nada e, portanto, podem ser usados e abusados conforme a necessidade das raças superiores. Ou pior, muitos são considerados simplesmente como “comedores inúteis” ou “vidas indignas de serem vividas”, seja por inferioridade racial, corrupção ideológica, deficiência ou outros motivos. A ultranação orgânica é enfraquecida, até mesmo adoecida, por sua presença, o que justifica o uso de violência massiva contra eles.
Muitos socialistas têm dificuldade em compreender o apelo da visão de mundo fascista; frequentemente a reduzem a um reflexo deturpado de interesses econômicos, e pouco mais que isso. Mas suas dimensões são bastante simples. O fascismo oferece uma narrativa de desapropriação e vitimização, projetando uma visão de mundo paranoica onde progressistas sinistros estariam sempre tentando se apoderar da propriedade conquistada com mérito e da grandeza nacional. A lógica é que, se não fosse pela presença dessas forças decadentes, você, alemão ou italiano comum, seria reverenciado como a raça superior que é. O oposto também é verdadeiro: o fascismo ofereceu e oferece aos homens e mulheres comuns da “ultranação” a sensação de serem aristocratas raciais. Dá a eles um gostinho de poder e status, contanto que se submetam inquestionavelmente ao partido e ao seu líder. Se você adere, de repente não é apenas um trabalhador comum; você faz parte da Grande Máquina de Guerra Ariana Heroica do Destino, ou talvez do Comboio de Trump. Para muitas pessoas, a oferta de igualdade da esquerda nunca será tão sedutora quanto a oferta de superioridade da direita, especialmente quando combinada com o ressentimento de ser uma vítima despojada de seu status aristocrático por aqueles que não o merecem. A combinação fascista de exaltação e vitimização ressentida pode ser inebriante.
Agora podemos ver como, em muitos aspectos, o fascismo constitui a visão de mundo exatamente oposta à do socialismo. Os socialistas partem do princípio de que todas as pessoas são iguais, consideram o chauvinismo nacional e individualista contrário às nossas profundas obrigações morais, enfatizam que temos mais em comum como seres humanos finitos e vulneráveis do que aquilo que nos separa, e desejam usar a razão e a ciência para construir uma sociedade melhor para todos. Os fascistas acreditam que as pessoas são fundamentalmente desiguais desde o nascimento e tornam-se ainda mais desiguais com o tempo, insistem que nações e raças “superiores” têm direitos especiais para se preservarem e se fortalecerem, mesmo às custas dos mais fracos, consideram isso um reflexo da grandeza interior que as distingue das formas de vida inferiores e rejeitam o humanismo e o racionalismo em favor de uma luta pela supremacia e dominação. Sua visão de mundo, portanto, legitima a violência desenfreada contra socialistas e outros inimigos “inferiores”.
A banalidade do mal
O fascismo infligiu enorme sofrimento ao mundo antes de implodir em um fracasso humilhante em meados do século XX e, em seguida, fazer um retorno indesejado. Grande parte dessa violência foi direcionada a seus oponentes socialistas, que — para grande preocupação da direita em geral — pareciam estar ganhando terreno em todos os lugares após a Primeira Guerra Mundial e durante a Grande Depressão. Os fascistas eram antissocialistas e antiesquerdistas tão eficazes que sua reputação na direita permaneceu relativamente intacta mesmo após a Segunda Guerra Mundial.
Mesmo nos Estados Unidos, onde nunca houve um partido fascista significativo que tenha chegado ao poder, movimentos e simpatizantes relacionados causaram danos consideráveis no século XX e em épocas anteriores. Em A Anatomia do Fascismo, Paxton observa, com um tom sombrio, que “um fenômeno antigo que pode ser funcionalmente relacionado ao fascismo é a Ku Klux Klan”. Eles adotaram um uniforme e usaram técnicas de intimidação e violência para subjugar inimigos da raça branca, juntamente com supostos comunistas e outros “vermelhos”. Em Fascism in America [Fascismo nos EUA], Alex Reid Ross observa como grupos simpatizantes do nazismo na década de 1930 buscavam se apresentar como brancos e patriotas, ao mesmo tempo em que repudiavam o governo Roosevelt, que “identificavam com o poder judaico e o comunismo”. Embora, em última análise, tenham fracassado, dada a guinada à esquerda do país na década de 1930, os simpatizantes do fascismo contribuíram para uma tendência isolacionista durante grande parte do início da guerra.
Isso culminou nos esforços do Comitê EUA Primeiro (AFC) para influenciar a opinião pública a favor da Alemanha, ou pelo menos em direção a uma neutralidade benigna. Assim como na Europa, o AFC recebeu considerável apoio das grandes empresas, que buscavam cada vez mais qualquer munição que pudessem usar contra FDR e o New Deal. Em seu artigo para o livro Fascism in America, Matt Specter e Varsha Venkatasubramanian observam como o AFC funcionou como um “grupo de pressão com o objetivo de enfraquecer o Partido Democrata e desacreditar o presidente Roosevelt. Os conservadores anti-intervencionistas temiam que a entrada dos Estados Unidos na guerra desviasse a atenção dos cidadãos das limitações da recuperação econômica e da condução autoritária de Roosevelt na Suprema Corte”. Após a guerra, o antissocialismo e o anticomunismo fascistas continuaram influenciando os assuntos estadunidenses. A infame “Operação Paperclip” trouxe cientistas nazistas aos EUA para ajudar na Guerra Fria. Isso se deveu em grande parte ao seu conhecimento científico. Mas, é claro, também porque eles eram considerados anticomunistas militantes e eficazes, em quem se podia confiar para trabalhar com entusiasmo contra a União Soviética.
Mas, é claro, o verdadeiro dano foi causado na Europa, onde movimentos abertamente fascistas tomaram o poder e puderam executar sua visão ditatorial. Após 1919, o Partido Fascista Italiano organizou esquadrões paramilitares, os “camisas negras”, para servirem como sua força bruta. Os fascistas italianos prometeram trazer ordem a uma Itália dividida por classes sociais. Durante os “Anos Vermelhos”, isso os ajudou a ganhar considerável popularidade como militantes muito eficazes contra operários, socialistas e comunistas. Em Fascismo: Uma Breve Introdução, Kevin Passmore descreve como os fascistas italianos inicialmente conquistaram o “apoio de muitos pequenos camponeses conservadores e trabalhadores rurais sem-terra, que concordavam que as autoridades não os protegiam da esquerda. Os esquadrões fascistas (squadristi) iniciaram uma violenta campanha de intimidação contra católicos e, especialmente, socialistas, na qual centenas foram mortos”. Em Fascism: Comparison and Definition, Stanley Payne descreve o apelo ideológico do fascismo, principalmente entre os jovens. Contra a “revolução socialista antinacionalista”, propôs uma revolução alternativa de um governo nacionalista mais autoritário, liderado por novas elites e que promovesse novos e amplos interesses nacionais.
Essa foi uma das razões pelas quais as elites conservadoras e burguesas estavam dispostas a apoiar Mussolini após a marcha sobre Roma em 1922. No poder, o Partido Fascista Italiano inicialmente implementou muitas medidas pró-capitalistas. Em seu livro A Ordem Capital, a economista Clara Mattei observa como os fascistas foram aplaudidos por capitalistas italianos e internacionais por esmagarem a coalizão entre o Partido Socialista e o Partido Popular, que havia se tornado ameaçadoramente popular, conquistando 32% das cadeiras parlamentares em 1919. Mussolini então implementou políticas pró-austeridade que restringiram os direitos econômicos ao longo da década de 1920, antes de mudar parcialmente de rumo na década de 1930 como resposta à Grande Depressão. O regime de Mussolini prendeu milhares de dissidentes, incluindo socialistas icônicos como Gramsci e Carlo Rosselli, mesmo antes de entrar na órbita de Hitler.
Por outro lado, a maioria dos comentaristas atuais considera o General Franco um autoritário conservador, e não um fascista declarado. Como católico conservador, Franco desconfiava profundamente das dimensões populistas do fascismo e, como muitos conservadores europeus, também desconfiava de suas aspirações utópicas de rejuvenescimento total da sociedade. Mesmo assim, Franco recebeu imensa ajuda das Potências do Eixo para ascender ao poder, cooperou com a Falange espanhola fascista e contribuiu longamente com homens e equipamentos para a causa nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Em Fascists, Michael Mann estima que o número de mortes promovidas por nacionalistas tenha ficado entre 50.000 e 200.000, com centenas de milhares de pessoas presas e torturadas. Muitas das vítimas de Franco eram republicanos, comunistas e socialistas. De forma arrepiante, Mann observa que, quando Heinrich Himmler visitou a Espanha em 1940, ficou “surpreso com as execuções e as prisões superlotadas” e sugeriu a reintegração de militantes à nova ordem. Mann ironiza dizendo que Himmler “parecia não perceber que os militantes da classe trabalhadora eram para Franco o que os judeus eram para ele próprio. Franco recusou os repetidos pedidos de Hitler e Himmler para entregar os judeus espanhóis, mas com os esquerdistas foi implacável.”
Mas foi na Alemanha nazista que o antissocialismo e o anticomunismo atingiram seu ápice de virulência. Desde o início, a violência paramilitar nazista foi fortemente, ou mesmo em grande parte, direcionada contra socialistas e comunistas. Em Fascists, Mann analisou 581 ensaios escritos para o jornal do partido nazista sobre “Por que me tornei nazista”. Os militantes enfatizavam fortemente o desejo de combater inimigos, e “marxistas/comunistas/socialistas”, em vez de judeus ou qualquer grupo racial ou religioso, “eram vistos como o principal inimigo em 63% dos ensaios”. Como Mann afirmou, os “principais inimigos” dos nazistas “tornaram-se bolcheviques, embora frequentemente associados a judeus e ao ‘sistema’ de Weimar”. Quanto mais as coisas mudam, mais permanecem as mesmas, e as teorias da conspiração sobre judeus marxistas insidiosos e outras minorias corrompendo a nação continuam muito presentes em nossa sociedade.
Isso explica por que parte do apelo dos nazistas às elites conservadoras tradicionais era a promessa de excluir e, eventualmente, destruir o Partido Social-Democrata (SPD) e o Partido Comunista (KPD), que haviam conquistado consistentemente um grande número de votos. Ajudou o fato de o SPD ser o maior rival eleitoral dos nazistas, especialmente entre a classe trabalhadora, e ter sido um dos principais fundadores da odiada República de Weimar, de cunho liberal democrático. Não por acaso, os únicos votos contrários à Lei de Habilitação vieram dos 94 deputados do SPD no Reichstag (o KPD comunista já estava efetivamente desmantelado). Em O Terceiro Reich no Poder, Evans observa que, poucos meses após a ascensão dos nazistas ao poder ditatorial, já havia cerca de 45.000 prisioneiros em campos de concentração, e a “grande maioria era composta por comunistas, social-democratas e sindicalistas”. Jane Caplan apresente um vislumbre ainda mais sombrio em Nazi Germany: A Very Short Introduction [Alemanha Nazista: Uma Brevíssima Introdução]. Ela observa como “os colaboradores de elite de Hitler o haviam preparado para resolver sua crise de controle, concedendo liderança e um mandato popular a um governo autoritário […] Hitler cumpriu a primeira parte do acordo na primavera de 1933 com o ataque esmagador dos nazistas ao KPD e ao SPD (ainda paralisados pela hostilidade mútua) e aos sindicatos; sua rapidez e violência deixaram seus membros em estado de choque e desordem”.
Após o início da guerra, a perseguição se intensificou, culminando na imensa Operação Barbarossa, a guerra para derrubar a União Soviética e, com ela, a sede do chamado bolchevismo judaico. Aproximadamente 20 milhões de soviéticos morreram na guerra — o maior número de mortos de qualquer nação combatente. Isso incluiu milhões nos campos de extermínio, além das inúmeras outras vítimas nazistas. A espiral descendente foi retratada de forma devastadora no icônico poema de Niemöller, que começa com “Primeiro vieram buscar os comunistas” — um verso inicial que, com o início da Guerra Fria na década de 1950, era frequentemente omitido nas reimpressões estadunidenses.
A magnitude da violência do fascismo — sua selvageria e brutalidade — é assombrosa. Mas é importante não exagerar na projeção de um poder demoníaco e genialidade nos fascistas, que entrarão para a história como fracassos colossais. “A força faz o direito” é sempre a filosofia do perdedor a longo prazo.
Socialistas autoproclamados cometeram muitos erros. Alguns deles foram brutalmente trágicos e impiedosamente genocidas. Socialistas autoritários como Stalin cometeram atrocidades em massa que servem como um lembrete arrepiante dos horrores que podem ser infligidos por aqueles que proferem clichês bem-intencionados. Mas o núcleo ético do socialismo permanece inspirador porque, em nítido contraste com o fascismo, exige muito mais de nós. Os socialistas querem um mundo onde, mesmo que nem todos sejam felizes, a miséria humana comum substitua o sofrimento desnecessário. Este é um objetivo tão exigente eticamente que ainda não conseguimos construir uma sociedade que o concretize plenamente. Apesar de toda a pompa sobre heroísmo e poder, no fim das contas, o fascismo ressoa porque apela aos nossos instintos mais baixos. É tão tentador imaginar-se um aristocrata racial roubado, em parte porque isso torna muito mais fácil ignorar todas as exigências éticas que se opõem à nossa ganância e sede de poder. Os fascistas lutam inutilmente por uma grandeza que as aspirações medíocres de suas almas jamais alcançarão. O fascismo é o sonho banal de homens insignificantes e merece seu lugar no esgoto da história.
é professor visitante de política no Whitman College. Ele é o autor de "The Rise of Post-Modern Conservatism and Myth" e co-autor de "Mayhem: A Leftist Critique of Jordan Peterson".
