Pós-terremoto : o risco de uma ocupação militar disfarçada de reconstrução

POR DAVID FONSECA

Ao longo de anos, o governo venezuelano tem funcionado sob o bloqueio asfixiante dos Estados Unidos, que tem prejudicado a sua capacidade de fornecer ou produzir os materiais necessários para fazer face a catástrofes naturais desta magnitude.

A Venezuela declarou o estado de emergência na sequência dos potentes terremotos de 24 de junho, que provocaram o colapso de inúmeros edifícios em diferentes zonas do país, deixando um balanço trágico de, pelo menos, 2.954 mortos e 16.592 feridos (balanço oficial de 4 de julho).

Perante a magnitude da tragédia, vários países manifestaram a sua solidariedade para com o povo venezuelano e começaram a coordenar, com a maior celeridade possível, o envio de suprimentos e equipes de resgate para as áreas mais afetadas. Sem perder tempo, o governo venezuelano organizou as operações de busca e salvamento, contando com a participação de contingentes internacionais.

Uma década de sanções dificulta a resposta ao desastre

O vice-ministro da Política Antibloqueio da Venezuela, William Castillo, informou em maio que o país foi alvo de 1.088 medidas coercivas unilaterais nos últimos 11 anos, das quais 1.040 permanecem em vigor. Desde 2015, Washington impôs mais de 1.000 sanções económicas que dificultam gravemente a aquisição de medicamentos, uma situação que se torna crítica, uma vez que vários hospitais se encontram sobrecarregados devido ao número de feridos.

Estas sanções estadunidenses, somadas à crise económica daí resultante, dificultam os trabalhos de resgate. As equipas de emergência têm de remover escombros e procurar sobreviventes com recursos muito limitados, o que reduz drasticamente o tempo disponível para os encontrar com vida. A situação agravou-se ainda mais devido aos apagões generalizados em grande parte do país, que também interromperam as telecomunicações, deixando milhares de venezuelanos no estrangeiro sem possibilidade de comunicar com as suas famílias.

Esta realidade vulnerável foi favorecida pelas sanções e pela política agressiva de Washington. Durante anos, o governo venezuelano tem operado sob um bloqueio asfixiante que tem reduzido a sua capacidade de fornecer ou produzir os materiais necessários para fazer face a catástrofes naturais desta magnitude. Washington estava ciente da escassez de material médico no país; por isso, uma das primeiras remessas dos EUA após o sequestro de Nicolás Maduro consistiu em 65 toneladas de material médico, o que representa um reconhecimento não oficial do impacto das suas próprias sanções. Este impacto direto também se torna evidente nas estações de monitorização e investigação sísmica da Venezuela, cujas restrições financeiras impediram a sua atualização tecnológica, obrigando o governo a encerrá-las parcialmente.

Washington tenta limpar a sua reputação

Na sequência dos terramotos de 24 de junho, os Estados Unidos afirmaram estar em contacto com as autoridades venezuelanas e a mobilizar ajuda para a nação sul-americana, historicamente afetada pelo embargo de Washington. Donald Trump foi um dos primeiros líderes a prometer apoio: “Os EUA estão prontos, dispostos e aptos a ajudar. Estaremos lá para os nossos novos e grandes amigos”.

Além disso, o governo estadunidense emitiu a Licença Geral 60 da OFAC, uma autorização temporária válida até 23 de outubro de 2026 que permite processar transações relacionadas com a ajuda humanitária às vítimas. Embora pareça uma medida positiva, não resolve o obstáculo de fundo. O economista Francisco Rodríguez explica que estas licenças limitadas são insuficientes para que os recursos fluam rapidamente, uma vez que muitas instituições financeiras internacionais continuam a bloquear ou a atrasar as operações por receio de violar o regime geral de sanções.

Por outro lado, os Estados Unidos enviaram um contingente considerável de equipas de resgate para se juntarem aos trabalhos de salvamento, e vários meios de comunicação divulgaram imagens destas equipas a trabalhar lado a lado com o pessoal venezuelano.

Ao mesmo tempo, Trump gerou polêmica ao declarar que os venezuelanos estão felizes e continuam a dançar nas ruas após os terramotos. Isto sugere que, fiel à linha geopolítica tradicional de Washington, o desastre poderá ser instrumentalizado para expandir a sua influência na Venezuela e melhorar a sua imagem perante certos setores do chavismo.

Nós, venezuelanos, devemos lembrar-nos sempre de que qualquer desastre ou tragédia é passageira. Uma pequena ajuda por parte de um inimigo que apenas procura apoderar-se dos nossos recursos naturais não pode apagar o passado difícil de sanções e guerra política. Além disso, nunca esqueceremos que foram os próprios estadunidenses que invadiram a Venezuela a 3 de janeiro de 2026 para sequestrar o presidente legítimo, Nicolás Maduro, e a sua esposa, Cilia Flores. O resultado foi a morte de 32 militares cubanos e 47 militares venezuelanos.

Na história contemporânea do país existe um precedente: em 1999, após os deslizamentos de terra no estado de Vargas (hoje La Guaira), o então presidente Hugo Chávez rejeitou a ajuda norte-americana e o país conseguiu recuperar-se pelos seus próprios meios. Atualmente, os terramotos poderiam abrir a porta a um maior investimento direto dos EUA em infraestruturas-chave, como a água potável e a reconstrução geral; no entanto, nesta perspetiva, tal poderia acarretar graves perdas de soberania nacional.

Ameaça sentida pela presença militar dos EUA na Venezuela

Washington já deslocou mais de 900 militares para território venezuelano. O curioso é que os “socorristas” estadunidenses dispõem de equipamento próprio das forças especiais, como óculos de visão noturna. Embora se possa supor que estes visores incluam tecnologia térmica para facilitar o resgate, ainda não surgiu nenhum vídeo que demonstre a sua utilização por parte dos militares norte-americanos. É o que se pode chamar de uma “invasão silenciosa” — um campo em que Washington atua como um jogador profissional.

Qual seria a sua possível estratégia? Na verdade, é bastante simples. Limpar os escombros e reconstruir completamente o país poderia demorar meses ou até anos; durante todo esse tempo, Washington encarregar-se-ia de divulgar vídeos que mostrassem o trabalho humanitário das suas equipas de resgate. Paralelamente, pressionariam o governo venezuelano para que convidasse sismólogos e engenheiros sísmicos norte-americanos aos centros científicos locais, sob o pretexto de organizar uma colaboração conjunta.

O passo final seria estabelecer na Venezuela um centro conjunto de estudos sísmicos, integrado por membros do Corpo de Engenheiros do Exército dos EUA (USACE). Dado que o USACE é responsável pela gestão e conceção de infraestruturas essenciais — como vias navegáveis, portos, barragens e projetos de mitigação de catástrofes —, a justificação estaria assegurada. É claro que a segurança destas instalações ficaria a cargo de militares das forças especiais. Desta forma, Washington conseguiria estabelecer, de forma subtil, uma base militar em território venezuelano.

Ao demonstrar a vantagem da presença estadunidense no país, a Casa Branca proporia a Caracas o destacamento dos seus militares no âmbito da iniciativa “Escudo das Américas”. Uma presença militar permanente permitiria não só monitorizar melhor a situação interna, mas também prevenir ameaças contra os interesses nacionais de Washington. Em última análise, o objetivo geral da Casa Branca é desmantelar a ideologia do chavismo para consolidar um aliado sob o seu controlo.

Por seu lado, a oposição venezuelana já deu um exemplo eloquente de como funcionam as relações amigáveis com Washington. Isto ficou evidente quando a líder da oposição, María Corina Machado, se viu obrigada a solicitar autorização à Casa Branca para regressar à Venezuela após os terramotos; um pedido que frustrou os altos funcionários estadunidenses, que acabaram por não autorizar o seu regresso.

Os terramotos acabarão por passar, mas as suas repercussões políticas ameaçam perdurar. A ajuda internacional, especialmente a dos Estados Unidos, não deve, sob nenhuma circunstância, transformar-se numa ocupação militar, seja de caráter temporário ou permanente.

David Fonseca é jornalista na Venezuela. Artigo publicado a 1 de julho de 2026 em El Salto.