PRIMEIRO TURNO DAS ELEIÇÕES MUNICIPAIS NA FRANÇA

por Chantal Liégeois

Neste domingo, 15 de março, ocorreu o primeiro turno das eleições municipais na França. As duas principais notícias são: avanço e consolidação da extrema direita e um bom resultado para a França Insubmissa (LFI). O segundo turno será realizado no próximo domingo, 22 de março.

As particularidades do processo eleitoral francês

Na França, as eleições municipais são realizadas a cada 6 anos e as nacionais a cada 5 anos. Essas eleições municipais constituem um grande teste político, antes das eleições presidenciais de 2027.

O sistema de votação é um escrutínio por lista com dois turnos. As listas de candidatos devem ser paritárias, com alternância obrigatória entre uma mulher e um homem. Se um partido não consegue 50% dos votos, se realiza um segundo turno com todos os partidos que conseguiram mais de 10% dos votos no primeiro turno. O segundo turno será no próximo domingo, 22 de março.

Distribuição de cadeiras: A lista vencedora recebe metade das cadeiras. A outra metade é distribuída proporcionalmente entre as listas. No segundo turno podem ocorrer alianças e fusão de listas entre partidos.

Nas 3 grandes cidades, Paris, Marseille e Lyon, o processo eleitoral é distinto. A eleição para prefeito nestas cidades é indireta, diferente do modelo brasileiro. O sistema foi modificado em 2025. Os cidadãos têm uma votação dupla, para vereadores e para conselheiros de distritos ou setores. Em Paris, uma votação para conselheiros distritais e para conselheiros de Paris que elegem o prefeito da cidade. A atual prefeita é Anne Hidalgo, do Partido Socialista, que governa a cidade desde 2014. Em Lyon, tem uma terceira votação para os conselheiros da metrópole. Os conselheiros elegerão o prefeito, depois do segundo turno.

Primeiros resultados

Este domingo 15 de março, foram a votar um 56 % das 48,7 milhões de pessoas habilitadas, uma porcentagem maior que em 2020 (durante a pandemia), mas menor que em 2014 (63,55%). Com uma taxa de abstenção sem precedentes (42,8 %), as mídias falam de “crise da democracia”.

Á diferencia das eleições de 2022, a esquerda está dividida entre socialistas, ecologistas e a França Insubmissa (LFI), o que pode favorecer candidatos da direita, que se unificaram em várias listas e siglas diferentes a nível local.

De maneira geral, a extrema direita avança, as esquerdas resistem, a direita se apaga.

A extrema direita representada pelo partido Reunião Nacional (RN), partido de Marine Le Pen, presidido atualmente por Jordan Bardella, fortalece sua posição no primeiro turno, particularmente em seus redutos no Norte e Sudeste do país.

O partido de esquerda França Insubmisa (LFI), que por primeira vez se presentava solo nas eleições municipais teve bons resultados, conseguindo ganhar no primeiro turno em Saint Denis, a segunda municipalidade na periferia de Paris.

A coalizão presidencial de Macron (Em marcha) ficou bastante invisível, dentro de alianças de direita, para não sofrer derrota, em vista de sua grande impopularidade.

Os ecologistas resistem, mas não têm a certeza de conservar as cidades que dirigem há seis anos – Lyon, Estrasburgo ou Bordéus. Nas eleições municipais de 2020, os prefeitos do Partido Verde foram impulsionados pelo movimento cidadão massivo, muitas vezes liderado por jovens, que se mobilizou nas ruas da França em 2018 e 2019. Esse movimento retrocedeu.

O balanço é contrastante. A situação é bastante confusa, tudo vai depender dos jogos de alianças e fusões para a segunda volta.

Cresce a votação para o RN, de extrema direita.

À frente de dezessete municípios desde 2020, quase todos os prefeitos da RN foram reeleitos no primeiro turno ou estão a caminho da reeleição no segundo turno. A começar por Louis Aliot, vice-presidente do partido, reeleito em Perpignan, a única cidade com mais de 100 mil habitantes governada por um prefeito do partido de extrema-direita, com 51 % dos votos.

Além de Marselha (35%), outras cidades importantes do Sudeste foram alvo do partido de Marine Le Pen: Nice, (43% para a extrema direita UDR com apoio de RN) vencendo a direita que ficou com 30%. Em Toulon (42%) e Nîmes (30%). Nos municípios menores, prefeitos do RN foram reeleitos no primeiro turno, a maioria deles tendo enfrentado apenas um outro candidato.

O voto no RN está aumentando principalmente em municípios onde a direita se radicalizou, e se consolida na região sudeste do país onde estava já implantada. A direita francesa, que perdeu suas principais siglas tradicionais e ficou fragmentada, tem responsabilidade, normaliza sua ideologia e seus discursos com a extrema direita.

Os votos da esquerda

A batalha interna entre as forças de esquerda ainda não terminou. O Partido Socialista (PS) e seu aliado Praça Pública obtêm resultados sólidos em muitos dos seus bastiões, declaram: «No primeiro como no segundo turno, não haverá acordo nacional com a França rebelde. Mas depois da votação de domingo, o secretário nacional do Partido Socialista, Olivier Faure, havia suavizado sua posição em relação ao movimento a LFI, conclamando seus camaradas a se "unirem com clareza e respeito" pelos princípios e valores socialistas. Mas sem vetar explicitamente uma fusão de suas listas.

A França Insubmisa (LFI) confirma, sem atingir as alturas dos últimos compromissos nacionais, a sua fixação nas metrópoles e nos subúrbios populares, com resultados melhores do que o esperado, principalmente nas cidades onde compete diretamente com o Partido Socialista (PS). O exemplo mais notório é Saint-Denis, (segunda cidade da periferia de Paris, com 150 mil habitantes) onde Bally Bagayoko venceu no primeiro turno. Poderia ter novas vitórias em cidades operárias no segundo turno. Na região Norte, em Roubaix, o deputado David Guiraud é o favorito absoluto. Os bons resultados podem formar os outros partidos de esquerda a negociações, ou mesmo fusões, apesar das duras críticas dirigidas ao partido nos últimos meses.

Manuel Bompard, coordenador nacional de LFI, reconhece que “a extrema-direita é capaz de conquistar várias comunas: não nos resignamos. [... ] Chegou o momento da responsabilização. É por isso que estamos estendendo a mão para as outras listas de esquerda para a segunda rodada, chamando a criação de uma frente antifascista no segundo turno das eleições municipais!”

Nas 2 principais cidades

Todas essas alianças do segundo turno são parcialmente ofuscadas pela situação nas duas maiores cidades da França, Paris e Marselha. Em ambos os casos, o Partido Socialista (PS), no poder, obteve uma larga vantagem no primeiro turno. Em ambos os casos, a LFI pode permanecer na disputa com uma pontuação ligeiramente acima do limite de 10%. Em ambos os casos, o PS recusou qualquer acordo.

PARIS: o candidato Emmanuel Grégoire – coalizão de esquerda sem LFI- chega em primeira posição. Representa a continuidade da atual administração municipal. Se coloca na frente da candidata Rachida Dati, de direita tradicional, ministra da Cultura de Macron. A candidata de LFI ficou em quarto lugar, com 12%. O segundo turno não está ganho para a esquerda.

MARSELHA: na segunda cidade do país que se inclinou para a esquerda em 2020 após vinte e cinco anos de governo de direita, o atual prefeito Benoît Payan (de uma coligação de esquerda e do Partido Verde) está praticamente empatado (37 %) com o candidato de extrema-direita da Reunião Nacional, Franck Allisio (35 %). O candidato da LFI que obteve 12% dos votos, declarou em comunicado que estava " estendendo a mão " a Benoît Payan para formar uma " frente antifascista " no segundo turno , a fim de impedir que o RN assuma o controle de Marselha. Diante da recusa de Payan, LFI denunciou a atitude como " uma posição irresponsável que poderia entregar as chaves de Marselha à Reunião Nacional " .

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