POR MANUEL AFONSO
Via Esquerda.net
O que distingue esta história de tantas outras semelhantes, mas invisíveis, é o fator organização. Maricarmen era apoiada pelo Sindicato de Inquilinas, organização que junta inquilinos e inquilinas de todo o Estado Espanhol para lhes prestar apoio, ajudar a resistir a despejos e lutar por políticas que favoreçam o direito à habitação.
O Estado Espanhol vive uma explosão social maciça em torno da luta pela habitação. Manifestações de massas, acampadas, barricadas e uma Greve Geral em preparação.
Quase 70% da população, segundo os estudos de opinião, apoia a intervenção do Estado para regular o preço das rendas. Inclusive os eleitores de direita e da extrema-direita. Medidas que há poucos meses poderiam ser vistas como radicais, ao ponto de não fazerem sequer parte do discurso político e do debate público, estão hoje no centro de muitas conversas. É o caso da proposta de expropriação dos fundos imobiliários, por exemplo.
O despejo de Maricarmen, uma idosa de 87 anos, que foi expulsa da casa onde vivia há sete décadas por um desses fundos abutres, que pretendia mais que quintuplicar a sua renda de 500€, parece ter sido a centelha que fez arder a pradaria. E foi, em certa medida. A morte de Maricarmen semanas depois, no hospital apenas tornou mais visível o que é a verdadeira ação da ditadura de mercado na vida de tantos se nós, gente trabalhadora. Há várias formas de matar uma pessoa e a violência nem sempre tem a forma de um bastão e um rosto neofascista. O extremo-centro mata e só isso explica o estado das democracias liberais.
Muita gente se pergunta, e bem, sobre oque teve este caso de particular? Tanto no Estado Espanhol como deste lado da Península há centenas de outros casos assim. Mais de mil despejos são contabilizados anualmente em Portugal. Não poucos deles carregam histórias duras, trágicas, como esta. Mas foi este, e não outros, em Espanha e não em Portugal, que incendiou a revolta.
Há quem atribua a diferença à cultura política espanhola, alegadamente mais propícia à combatividade. Pode haver aí uma ponta de verdade, mas não mais do que isso. Assim como assim, haveria que perguntar porque têm os espanhóis essa cultura e nós não, assumindo não se trata de uma questão genética e que a História recente marcada por uma longa ditadura e pelo peso das ideias conservadoras também não nos diferencia. É uma investigação a ser feita, mas, nestas linhas, não vou por aí.
Penso que ganhamos mais em pensar o caso de outra perspectiva: porque ganhou visibilidade o despejo de Maricarmen? E porque inspirou à revolta?
Não creio que tenha sido o interesse repentino da comunicação social espanhola que viabilizou o caso. O que distingue esta história de tantas outras semelhantes, mas invisíveis, é o fator organização. Maricarmen era apoiada pelo Sindicato de Inquilinas, organização que junta inquilinos e inquilinas de todo o Estado Espanhol para lhes prestar apoio, ajudar a resistir a despejos e, ao mesmo tempo, lutar por políticas que favoreçam o direito à habitação. O factor chave foi a organização. A visibilização, a resistência e a transformação de um caso particular num símbolo nacional nasceram da organização prévia. Do trabalho invisível do Sindicato de Inquilinas que lá estava antes das câmaras e da comoção geral.
Além disso, Maricarmen não foi uma vítima, foi uma lutadora. Organizou-se e, de alguma forma, disponibilizou-se a ser o rosto de uma luta maior. E o Sindicato de Inquilinas parece ter entendido esse potencial. Tratou não apenas de resistir ao despejo, mas de fazer desta luta uma plataforma de ampliação, de transformação de um combate defensivo individual numa contra-ofensiva coletiva. Vítimas individuais podem inspirar empatia e solidariedade, mas é menos provável que acicatem lutas de massas. Mostrar força, em vez de vulnerabilidade, é essencial. Ninguém se mobiliza por coitadinhos; é a força que inspira. Essa lição tem um alcance estratégico para a esquerda que extravasa o campo da luta pela habitação.
Por isso, foi tão importante a resistência por todos os meios, inclusive físicos. Inclusive usando os corpos das e dos ativistas contra a polícia e a lei. A desobediência como estética, como fim em si mesma, não tende a gerar simpatia para lá de curtas bolhas ativistas. Mas é comum partir dessa premissa verdadeira para uma generalização abusiva, que conclui que o cumprimento das regras impostas pelo poder é a única maneira de disputar a opinião pública e, assim, obter vitórias. A História prova que não é assim. Desde Rosa Parks à presente revolta estudantil em França, sabemos que a força da desobediência, no momento certo, constrói legitimidades superiores à da lei e da ordem. Quando a desobediência coletiva converge com um sentimento alargado de injustiça e com a sede maciça de mudanças, ela arrasta milhões. A força mobiliza, a obediência e o respeito pelas regras do jogo do poder transparece, ao fim de um tempo, mera impotência. Com o tempo, gera desânimo. Por isso, a resistência física ao despejo de Maricarmen, ainda que não o tenha travado, foi essencial. Sem ela, seria apenas mais uma história trágica de uma mulher, coitada, despejada, que provaria a impotência coletiva, reiterando o senso comum sobre a ausência de alternativas.
A radicalidade é essencial. E não só nos meios, na forma da luta. É-o, sobretudo, no conteúdo. As exigências do Sindicato de Inquilinas dirigem-se à raiz do problema: a propriedade. Porque o problema, em última instância, é sempre esse. Por o sabermos, somos socialistas. Defenderam regulação, proteção, travões aos abusos. Mas, além disso, a expropriação – dos fundos imobiliários, neste caso. Certamente passaram anos sem ser grandemente ouvidas. Vistas como radicais, líricas na melhor das hipóteses. Porém, pareciam saber que o objetivo da luta não é ser aceite pelo senso comum vigente, é mudá-lo. Não sabemos que vitórias conseguirão nesse terreno. Sabemos, contudo, que já ampliaram, desta vez para a esquerda, a famosa “Janela de Overton”, ou seja, moveram o espectro das ideias políticas aceitáveis no debate público, desta vez na direção das ideias anticapitalistas. Não é só a extrema-direita quem pode mover esta janela, aprendamos.
Conflito, radicalidade, mas, sobretudo, organização. Organização, organização, organização, esse deve ser o nome da esquerda, política e social. O tempo lento da organização não pode ficar escondido sob o afluxo de acontecimentos rápidos que sucederam ao despejo de Maricarmen. Se tudo pôde acelerar, foi porque houve anos de um trabalho lento, silencioso, imagino que muitas vezes aparentemente infrutífero. Mas que, a dada altura, acelerou: o tempo lento da organização não é a aceitação do gradualismo, mas a preparação sustentada de momentos de rutura.
É verdade que, muitas vezes, explosões sociais acontecem sem que haja esse trabalho, essa sustentação prévia, lenta, invisível, ingrata, cinzenta. Todos já vimos explosões sociais espontâneas de grande dimensão. E também já todos as vimos diluírem-se rapidamente, voltando à estaca zero como Sísifo. Pode ser que desta vez não seja assim, que a luta vença na política, conquistando medidas concretas pela habitação, mas sobretudo na aposta estratégica: que mais gente se organize e que infraestrutura humanas permanentes das classes populares, organizações de bairro, de cidade, de região e à escala nacional, se fortaleçam ampliem. Essa é a pergunta a ser feita no fim de cada luta: saímos mais ou menos preparados, organizados, para continuar a luta? É provável que a questão, hoje, no Estado Espanhol, seja respondida positivamente. Que o seja, por Maricarmen.
