Trump aprofunda giro autoritário

Por André Freire e Helena Cunha

Imagem: Reprodução Brasil de Fato


Nesta semana, a ofensiva política do governo Donald Trump entrou em uma nova etapa. No dia 16 de julho aconteceu em Washignton a “Reunião Ministerial sobre o Ressurgimento do Terrorismo Político”. Presidida pelo Secretario de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, esse evento reuniu representantes de cerca de 60 países com o objetivo declarado de “fortalecer a coordenação, ampliar o intercambio de informações e reforçar a cooperação internacional de segurança” diante do que eles chamam de “terrorismo político de extrema-esquerda”.


Essa reunião acendeu um alerta entre organizações de direitos humanos e setores democráticos porque a ampliação do conceito de "terrorismo" pode significar o aumento de perseguições a movimentos sociais, feministas, antirracistas e anticapitalistas.


Já vimos esse filme antes. Ao longo da história, a classificação de adversários políticos como "terroristas" foi utilizada por governos autoritários para justificar vigilância, perseguições, prisões, restrições à liberdade de organização e criminalização da oposição.


Os efeitos da cúpula podem ultrapassar as fronteiras dos Estados Unidos. Com dezenas de governos presentes, existe o risco de fortalecimento de mecanismos internacionais de cooperação em segurança que, dependendo de sua aplicação, possam ser utilizados para ampliar o monitoramento de organizações políticas e movimentos sociais em diversos países. Isso levanta preocupações sobre possíveis impactos nas liberdades de associação, manifestação e expressão. Uma nova Operação Condor?


No plano interno, o endurecimento do discurso de Trump também merece atenção. Trump vem intensificando ataques contra setores progressistas, organizações da sociedade civil e lideranças identificadas com a esquerda norte-americana. Entre os alvos frequentes está o Democratic Socialists of America (DSA), organização socialista que atua principalmente no interior do Partido Democrata e que tem conquistado espaço em governos locais, como em Nova York, com a prefeitura de Zohran Mamdani, e legislativos estaduais. Candidaturas apoiadas pelo DSA, como a disputa pela prefeitura de Washington, D.C., com Janeese Lewis George, tornaram-se objeto de ataques políticos e foram apresentadas por aliados de Trump como exemplos de uma suposta ameaça ideológica ao país.


Nos últimos anos, os Estados Unidos também têm sido alvo de críticas e denúncias sobre tentativas de influência em processos políticos de outros países. Governos e setores políticos da Colômbia e de Honduras, por exemplo, já fizeram acusações de interferência externa em seus processos internos, tema que permanece objeto de intenso debate político e diplomático.


O Brasil também integra esse cenário de preocupação. As recentes tensões entre Trump e o governo brasileiro, envolvendo críticas públicas, disputas comerciais, tarifas, manifestações sobre decisões do Judiciário brasileiro e declarações de apoio a setores da oposição bolsonarista, alimentam receios de que as eleições brasileiras possam tornar-se alvo de crescente pressão política internacional. Embora seja importante diferenciar declarações políticas de evidências de interferência direta, a defesa da soberania eleitoral exige vigilância permanente diante de qualquer tentativa externa de influenciar processos democráticos.


É preciso ampliar a resistência


Diante desse contexto, torna-se ainda mais relevante a mobilização da sociedade civil em defesa das liberdades democráticas. Nos Estados Unidos, iniciativas como o movimento No Kings expressam a oposição de parte da população à concentração de poder e às tendências autoritárias do governo Trump. Em âmbito internacional, o fortalecimento das instituições democráticas, da transparência eleitoral e do respeito aos direitos fundamentais permanece como condição indispensável para impedir retrocessos, bem como a solidariedade aos países sufocados pelo bloqueio econômico estadunidense, como Cuba e Venezuela.


A história demonstra que democracias não são destruídas apenas por golpes abruptos. Muitas vezes, elas são gradualmente enfraquecidas pela normalização da perseguição a adversários políticos, pela deslegitimação das eleições e pela concentração crescente de poder.


Não existe “terrorismo de esquerda”. O que está acontecendo agora é a volta do macartismo e da criminalização da política, agora em escala global. Mais do que nunca, a unidade da classe trabalhadora e a solidariedade internacional são fundamentais para a garantia das liberdades democráticas e da dignidade dos povos do mundo.