Alemanha: AfD fortalece sua ala radical

Por Chantal Liégeois

O partido Alternativa para a Alemanha (AfD), aproveitou seu congresso federal anual, realizado em Erfurt, no leste da Alemanha, neste 3 e 4 de julho, para demonstrar suas ambições de chegar ao poder. A AfD, partido de extrema-direita, anti-imigração e pró-Rússia, assumiu a liderança como a principal força de oposição do país nas eleições parlamentares de 2025. Reeleita líder do partido, Alice Weidel afirmou que a AfD estava agora pronta para governar o país, citando pesquisas que colocam o partido de extrema-direita em níveis historicamente altos. " Somos a principal força política. Somos um partido com 30% de apoio popular. E governaremos", disse a líder aos delegados.

A Alemanha resistiu por muito tempo à ascensão eleitoral da extrema direita, mas a crise migratória de 2015, os atos de violência islâmicos, os crimes cometidos por estrangeiros e uma profunda crise do modelo econômico alemão alimentaram sua popularidade, especialmente no leste do país.

Alice Weidel confirmada como líder do partido

Os delegados reelegeram a dupla liderança da AfD. Alice Weidel, figura central do partido nas eleições parlamentares de 2025, obteve 81,3% dos votos, melhorando ligeiramente seu resultado anterior. Seu copresidente, Tino Chrupalla, no entanto, sofreu um revés significativo, recebendo apenas 70% dos votos. Além de sua reeleição, Alice Weidel saiu fortalecida do congresso graças à eleição de vários de seus aliados próximos para o novo comitê de liderança federal. Esse desenvolvimento consolida sua influência sobre a direção política do partido.

Uma direção marcada pela extrema direita

A composição do novo comitê diretivo confirma a crescente influência das facções mais radicais dentro do partido. Seis dos quatorze membros eleitos vêm de federações regionais classificadas como "extremistas de direita comprovados" pelas autoridades alemãs responsáveis ​​pela proteção da Constituição.

Entre os novos líderes está Jean-Pascal Hohm, presidente da organização juvenil "Generation Deutschland". Considerado próximo ao movimento de extrema-direita, ele já havia causado controvérsia devido às suas ligações com certos círculos radicais.

Outra nomeação notável é a de Stefan Möller, um dos aliados políticos mais próximos de Björn Höcke, líder da ala nacionalista do AfD na Turíngia (região do leste de Alemanha). Möller será responsável por assuntos relacionados às relações do partido com os serviços de segurança alemães.

O conflito com os serviços de inteligência

O Escritório Federal Alemão para a Proteção da Constituição (Bundesamt für Verfassungsschutz) continua sendo um dos principais alvos de críticas do AfD. Em diversos estados, incluindo Brandemburgo, Baixa Saxônia, Saxônia, Saxônia-Anhalt e Turíngia, o partido é oficialmente classificado como uma organização de extrema-direita. Em outras regiões, bem como em nível federal, é monitorado como um movimento extremista suspeito.

As autoridades acusam certos membros do partido de fazerem declarações hostis à democracia parlamentar, à independência do judiciário e ao princípio da igualdade para todos os cidadãos, particularmente em relação a imigrantes, muçulmanos e negros. O próprio Stefan Möller gerou controvérsia ao escrever na rede social X em julho de 2023: "Ser alemão se decide entre as orelhas, não no papel".

Um congresso sem divisões aparentes

Ao contrário dos congressos anteriores da AfD, frequentemente marcados por confrontos internos espetaculares, o encontro de Erfurt ocorreu em um ambiente relativamente disciplinado. Essa estratégia de unidade se explica, em particular, pelas importantes eleições regionais previstas para 2026. A AfD espera, sobretudo, conquistar a liderança de um governo regional pela primeira vez, notadamente na Saxônia-Anhalt e em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental.

Poucas propostas concretas

Alice Weidel ofereceu poucos detalhes sobre o programa do partido. Seu discurso focou-se principalmente em uma crítica geral às políticas alemãs das últimas duas décadas. Ela denunciou o que considera uma série de políticas de resgate — para o euro, refugiados, mudanças climáticas e Ucrânia — que, segundo ela, enfraquecem a economia alemã.

O partido AfD continua a defender, entre outras coisas: o retorno à energia nuclear; a retomada das importações de gás russo; o abandono de certas políticas climáticas; e a cessação do apoio militar alemão à Ucrânia. Em seu discurso de encerramento, Alice Weidel conclamou seus apoiadores a se mobilizarem, invocando as cores nacionais alemãs: "Vamos hastear preto, vermelho e dourado por todo o país. Preto, vermelho e dourado: essas são as nossas cores."

Apesar do protesto de Miles de opositores frente ao lugar do congresso da AfD, o partido saiu desse evento com uma liderança consolidada, um discurso mais homogêneo e a ambição declarada de transformar seu progresso nas urnas em poder político real.

Dezenas de milhares de manifestantes antifascistas nas ruas, contra o congresso da AfD

O congresso também foi marcado por uma significativa mobilização de opositores da AfD. A polícia contabilizou 31 mil manifestantes, enquanto os organizadores estimaram pelo menos 50 mil pessoas manifestaram-se nas ruas de Erfurt, atendendo ao chamado de sindicatos, igrejas, partidos políticos e organizações da sociedade civil. Convergiram para a cidade em enormes comboios de ônibus. Bloquearam importantes vias e interrompendo o transporte público, em uma tentativa de cancelar o congresso anual do partido de extrema-direita.

A aliança, denominada "Resistência", bloqueou o acesso à cidade, com alguns manifestantes descendo de rapel de uma ponte rodoviária, enquanto vários grupos se reuniram nas principais ruas e praças do centro da cidade, segundo jornalistas da AFP.

“É importante enviar um sinal contra a guinada para a direita”, afirmou Lene Krug, de 19 anos, natural de Gera, a leste de Erfurt. “A AfD é um partido antidemocrático que espalha o ódio”, acrescenta a jovem estudante de enfermagem, para quem esta é a primeira manifestação de sua vida.

Alguns membros do AfD pareciam quase se deleitar com a perspectiva de um confronto. "A contagem regressiva para a guerra civil em Erfurt começou", escreveu a deputada do AfD, Beatrix von Storch, esta semana no X. Com milhares de policiais mobilizados para proteger o congresso, as manifestações foram pacíficas, apenas confrontos menores foram relatados.

Dever de lembrar

Para os críticos do AfD, combater o partido é um dever, dado o peso do passado nazista e o que consideram os esforços do AfD para desmantelar a política de memória da Alemanha. "É importante enviar um sinal contra a guinada à direita", disse à AFP a manifestante Lene Krug, de 19 anos. "O AfD é um partido antidemocrático que espalha ódio", acrescentou.

Outra manifestante, Ella, fazia parte de um grupo que se posicionou junto aos trilhos do bonde em uma praça da cidade. "O que aconteceu entre 1933 e 1945 jamais deve se repetir", disse a mulher de 44 anos, referindo-se ao período em que os nazistas estavam no poder no país.

Alguns consideram a realização do congresso da AfD em Erfurt no dia do centenário de um infame congresso nazista na vizinha Weimar como uma provocação deliberada, o que o partido nega, alegando mera coincidência de datas.

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