ANDANDO PELA VENEZUELA

Luiz Arnaldo Campos

Cineasta e Militante do PSOL

Imagem: Reprodução Brasil de Fato

Estivemos percorrendo a Venezuela, eu e minha companheira Celia, de Santa Elena do Uairén- na fronteira com o Brasil- até Caracas de 14 a 24 de janeiro. Vimos ruas em paz, mercados abastecidos com uma enorme expectativa pairando no ar. A intervenção militar norte-americana e o consequente sequestro do presidente Maduro e da sua esposa, Cilia são sentidas dolorosamente. O bombardeio deixou marcas profundas. Em Caracas, pessoas ainda comentam o fulgor e o barulho das explosões, particularmente na área do Forte Tiúna, o epicentro do ataque, definido por uma moradora, como um “filme de terror real”. Na televisão, a presidente encarregada, Delci Rodriguez fala em conquistar a paz, concordando com o sentimento visível da maioria das pessoas, que não querem enfrentar uma guerra. Mas Maduro e Cilia não foram esquecidas, pelo contrário.

Durante o final de semana que lá estivemos, em todas as praças Bolívar do país, milhares de pessoas se reuniram para entregar e ler cartas para o presidente e sua esposa. Participamos na capital, sentimos a emoção profunda de senhoras, homens e crianças. Nas ruas da cidade, as pinturas murais e displays com a imagem de Maduro e Cilia são onipresentes. Na televisão, diversos clips e peças bem feitos exigem o retorno de ambos. Por vezes em tom doce, exaltando a reunificação do povo com suas lideranças, em outras, com ataques violentos contra o imperialismo norte-americano. No dia 23, uma massiva e combativa manifestação percorreu as ruas da capital venezuelana, exigindo a volta dos dois.

Ao andar se faz o caminho

Em Caracas, a direita desapareceu das ruas. A explicação parece bem natural. Depois do bombardeio, a presença pública de forças associadas à Trump é simplesmente inviável, ainda mais depois do “passa fora” que o presidente gringo mandou para Corina Tellado, a desmoralizando de vez.

Delci governa com inquestionável apoio da base chavista. As prioridades anunciada pelo governo bolivariano são: a conquista da paz, a estabilidade econômica e a estabilidade política, nesta ordem. Existe confiança na melhoria das coisas. O dólar despencou no mercado paralelo, o Conselho Nacional de Economia confirmou estatísticas favoráveis, a produção de ouro aumentou e foram anunciados a injeção de trezentos milhões de dólares, fruto da renda petroleira. A economia segue dolarizada, o bolívar e o dólar são as moedas correntes do país, fato visto como inevitável no combate à inflação. Existe a expectativa do anúncio de reajustes salariais no Primeiro de Maio.

Apesar de que as sanções e o bloqueio seguem- durante nosso regresso um outro petroleiro foi aprisionado pela Marinha estadounidense-o clima geral é a de que a Revolução Bolivariana segue e seguirá no comando e a grande expectativa é exatamente qual será o seu curso. Em dois dias o governo lançou e a Assembleia Nacional aprovou um conjunto de leis, introduzindo mudanças na regulamentação petrolífera, no direito civil, direito penal e outros códigos. Não existe ainda uma avaliação acurada sobre estas mudanças, mas, nas palavras de Jorge Rodriguez, presidente da Assembleia Nacional, ao anunciar estas medidas em rede nacional, elas vão num sentido de favorecer a captação de investimentos e facilitar a presença empresarial. Se não existe dúvidas de que o governo bolivariano negocia com Washington em condições pouco favoráveis, por outro lado a própria Delci tem deixado explícito que não negociará a soberania nacional e acaba de convocar a consulta popular das Comunas, o processo de base, principal sustentáculo da Revolução e que tem no seu horizonte a desconstituição do estado burguês e sua substituição por um estado comunal- a Confederação das Comunas.

São duas dinâmicas operando sob o manto da revolução. Indo por terra de Santa Elena do Uiarén até Caracas se atravessa o Arco Mineiro da Bacia do Orinoco, uma área de mineração de ouro livre, onde convivem empresas estatais e privadas, comunidades indígenas que mineram ou fornecem concessões e garimpeiros ilegais. Em Las Claritas, um povoado, anunciado através de uma placa, como um lugar 100% revolucionário, a paisagem é muito semelhante das áreas de mineração ilegal, no Brasil. Bares, inferninhos, comércio 24 horas, completa desordem urbana e negócios feitos em gramas de ouro, onde cada comerciante possui sua balancinha. A exploração do ouro é uma das maiores apostas do governo em diversificar a economia venezuelana. Delci anunciou que cinco grandes minas já estão funcionando e a sexta voltará a produzir, em breve.

Por outro lado, na contramão da individualista corrida do ouro, se desenvolve o sistema comunal por todo território venezuelano. As Comunas são uma criação de Hugo Chávez. No seu último discurso onde ressaltou a necessidade de um “golpe de timão”, sinalizando a necessidade da Revolução dar um giro à esquerda, encomendou ao seu sucessor, Maduro, a organização de um sistema de comunas, como o caminho da revolução. As comunas são organizações territoriais, integrados por conselhos comunais, reconhecidas em lei, que buscam desenvolver a auto organização popular em todos os sentidos: administrativo. cultural e econômico. A medida que se desenvolvem assumem maiores poderes, como escolher as obras ou serviços que o poder público tem que realizar sob seu controle ou então receber o dinheiro para ela mesmo realizar o trabalho. Em Caracas visitamos duas: a 05 de Março, voltada principalmente para a produção e comercialização de alimentos e a Minka (palavra quéchua que significa trabalho coletivo) com ênfase na ação cultural, que inclui classes de capoeira, vídeo, pintura e outras manifestações artísticas. Nas comunas, sente-se o pulsar forte da transformação social., o ânimo de construir um novo estado, onde o povo seja autônomo politicamente e auto suficiente economicamente. Não por acaso o lema de todas é: Comuna ou Nada!

Desafios à Frente

Tudo permanece em suspenso. O bloqueio econômico e o sequestro de Maduro e Cilia se mantém. Trump canta vitória e faz comentários, que na verdade visam desmoralizar a liderança bolivariana. O governo segue em frente anunciando que em matéria de autonomia e soberania nacional não haverá concessões. Nas ruas e nos bairros o povo se manifesta e se organiza. Na televisão, os partidos de oposição, que fazem parte da Assembleia Nacional (isto num país onde a mídia corporativa brasileira diz não haver liberdade de imprensa) pedem a convocação de novas eleições, fazendo uma interpretação da Constituição de que em até noventa dias a presidenta em exercício teria que convocar novo pleito eleitoral. O governo não responde. Está centrado na exigência do retorno de Maduro e Cilia para que a normalidade constitucional seja restabelecida. Delcy e seus ministros seguem em frente com o apoio do povo.

Algo interessante que verificamos conversando nos taxis, nos comércios, nas ruas é que Hugo Chavez se tornou um elogiado consenso nacional. Seja para os opositores que lembram positivamente do seu governo para desancar Maduro seja pelos militantes que não esquecem seu comandante. Sua imagem continua presente nas paredes, cartazes e murais. Tomara que siga inspirando a Revolução Bolivariana nas difíceis decisões que terá de tomar daqui para a frente.

De Volta para Casa

Voltar a caminhar pela Venezuela, principalmente Caracas foi uma experiência cativante. Não hesitaria em recomendar a todos os ativistas sociais do Brasil. Encanta ver uma cidade coberta de belos murais revolucionários, com um povo politizado que discute nas ruas, pró ou contra, com fervor. Onde se pode assistir na televisão uma longa matéria sobre o aniversário de Lenin e apreciar a carta da companhia aérea Comviasa, que oferece destinos inusuais para os brasileiros como Moscou, São Petersburgo, Guangzhou ou Teerã. A capital venezuelana é movimentada, tensa e respira política 24 horas.

Impressiona passear pelo belo Passeo Los Proceres, onde se homenageia, com estátuas de bronze, os heróis e as heroínas da Independência. Lá, o patriotismo é uma coisa sólida, verdadeira, entranhada na pele das pessoas. De volta a Belém, ficamos na solidariedade, na torcida, com vontade de dizer: Comuna ou Nada!