POR HARALD WOLF
Via Esquerda.net
Die Linke quebrou dois tabus centrais da política alemã: o apoio incondicional ao governo de Israel e o princípio de não se tocar na propriedade capitalista. Objetivo da campanha é desacreditar o partido e impedir o SPD e os Verdes de formarem uma coligação com ele.
O sucesso eleitoral do Die Linke [A Esquerda] em Berlim alarmou os partidos burgueses, os meios de comunicação social de direita, o lóbi imobiliário e os investidores. Há semanas que o partido se encontra sob enorme pressão. O Chanceler alemão Merz exigiu, em tom de ultimato, que o SPD e os Verdes interrompessem imediatamente as conversações sobre a formação de um governo com “este partido de esquerda radical”. Afirma que em Die Linke existe um “antissemitismo amplamente difundido”. Do SPD também surgiram exigências para que não fosse formada uma coligação com este partido. A ministra federal da Economia chegou mesmo a alertar para uma Machtergreifung [tomada do poder] pela esquerda – uma expressão que, na Alemanha, está inconfundivelmente identificada com a conquista do poder de Hitler e a instauração da ditadura fascista.
Simultaneamente, a candidata do Die Linke à presidência da Câmara de Berlim, Elif Eralp, é alvo de ataques violentos. É-lhe apontado o facto de ter sido membro da “organização de extrema-esquerda Rote Hilfe [Socorro Vermelho]”, uma organização que apoia ativistas de esquerda contra a repressão estatal e em processos judiciais. Também a acusam de ter tido conversações com associações curdas, entre as quais uma alegada “organização de fachada do PKK”, que lhe são imputadas como contactos com terroristas.
Esta campanha de grande envergadura pretende desacreditar Die Linke e impedir o SPD e os Verdes de formarem uma coligação com este partido. É notável a veemência destes ataques – sobretudo quando comparada com as reações moderadas à eleição de um extremista de direita para presidente do parlamento com votos da CDU e à previsível eleição de um político da AfD para ministro-presidente na Saxónia-Anhalt.
Habitação a preços acessíveis e solidariedade com a Palestina
A fúria com que a reação burguesa ataca Die Linke não é, contudo, surpreendente. O partido quebrou dois tabus centrais da política alemã: o apoio incondicional ao governo de Israel, designado pela Staatsräson (razão de Estado) alemã, e o princípio de não se tocar na propriedade capitalista. Porém, Die Linke caracteriza a guerra contra os palestinianos como genocídio e exige a socialização dos grandes grupos imobiliários.
No centro dos ataques encontra-se a organização distrital de Die Linke em Neukölln. Neste distrito vivem muitas pessoas com antecedentes migratórios. Ao mesmo tempo, Neukölln acolhe a maior comunidade palestiniana da Europa. Muitos dos seus habitantes têm familiares e amigos em Gaza ou na Cisjordânia e lamentam numerosas vítimas entre eles.
Por isso, muitos deles também têm pouca compreensão por certos aspetos do debate alemão, como, por exemplo, a invocação da chamada Staatsräson. Avaliam a política de Israel e o papel da Alemanha de forma diferente das pessoas alemãs que, a partir do assassínio de seis milhões de judeus pelos seus antepassados, deduzem uma responsabilidade especial perante Israel.
Die Linke enfrenta estas contradições. É o único partido a opor-se claramente à guerra genocida de Israel em Gaza e critica a corresponsabilidade do Governo Federal pelas suas vítimas. Simultaneamente, Die Linke combate o ódio, o antissemitismo e todas as formas de hostilidade contra pessoas por pertencerem a determinados grupos da sociedade.
Suportar politicamente este campo de tensões não é fácil, sobretudo quando setores do movimento de solidariedade com a Palestina glorificam indiscriminadamente o massacre de civis de 7 de outubro de 2023 como um “ato de resistência”. Neste contexto, também foram cometidos erros: alguns membros de Die Linke nem sempre estabeleceram limites claros perante declarações deste tipo. A direção do partido e o partido no seu conjunto, porém, condenaram este ataque de forma clara e inequívoca.
A mentira do antissemitismo
Apesar disso, foi desencadeada uma campanha massiva que acusou Die Linke de antissemitismo, sem hesitar em recorrer a deturpações, exageros desmedidos e mentiras. As tomadas de posição de intelectuais judeus e de investigadores do antissemitismo que defenderam o partido contra esta acusação pouco alteraram a situação: Die Linke ficou na defensiva. O SPD e os Verdes exigiram que, antes das negociações para uma coligação, fosse esclarecida a sua posição relativamente ao antissemitismo. Em vez de discutirem as tarefas centrais de um futuro governo progressista em Berlim – rendas acessíveis, socialização dos grandes grupos imobiliários ou investimentos necessários nas infraestruturas públicas e sociais – os três partidos passaram quatro rondas de negociações a discutir uma declaração conjunta contra o antissemitismo.
Para além de muitas afirmações consensuais sobre a proteção da vida judaica, esta contém passagens problemáticas. Assim, rejeita o “antissemitismo relacionado com Israel”, sem definir o conceito. Isto é delicado, porque, na Alemanha, este conceito é frequentemente utilizado para estigmatizar a crítica à política israelita como antissemita. Ao mesmo tempo, a declaração afirma a necessidade de denunciar claramente as violações do direito internacional e os crimes de guerra, bem como de defender o direito à autodeterminação do povo palestiniano.
Uma novidade é o acordo segundo o qual os três partidos tratarão conjuntamente os “incidentes antissemitas nas fileiras dos grupos parlamentares da coligação”. Um órgão composto por três peritos, designados por consenso entre os grupos parlamentares, deverá examinar os casos e aconselhar o respetivo grupo parlamentar sobre possíveis consequências. No interior de Die Linke, esta medida suscitou fortes críticas. Muitos receiam que este mecanismo possa estigmatizar críticas legítimas à política israelita e limitar a autonomia de Die Linke na decisão sobre quem pode pertencer ao seu grupo parlamentar.
Estas objeções devem ser levadas a sério. Para o futuro, dois aspetos serão decisivos: em primeiro lugar, através do princípio do consenso, Die Linke poderá exercer uma influência considerável sobre a composição deste órgão. Em segundo lugar, a direção nacional do partido voltou a esclarecer que Die Linke não aceitará que outros lhe ditem nem a forma como lida com o antissemitismo nem a composição do grupo parlamentar do seu partido.
Novas manobras do SPD e dos Verdes
A reunião constitutiva do novo grupo parlamentar de Die Linke deu, nesse sentido, um sinal claro. O SPD e os Verdes tinham exigido que uma deputada de Neukölln não fosse admitida no grupo parlamentar, entre outras razões porque esta tinha afirmado, num evento público, que não existe um direito dos Estados à existência, mas apenas das pessoas. Com esta afirmação – segundo o SPD e os Verdes – teria posto em causa a existência de Israel. Die Linke não acatou esta exigência, pelo que o SPD e os Verdes acusaram Die Linke de não ter respeitado o acordo estabelecido no documento conjunto das conversações exploratórias. Contudo, o acordo conjunto estabelecia expressamente que a decisão sobre a pertença ao grupo parlamentar permanecia, naturalmente, no âmbito da autonomia do respetivo grupo parlamentar ou partido.
O facto de as negociações serem interrompidas porque Die Linke não excluiu ninguém do seu grupo parlamentar, depois de todos os seus deputados terem reafirmado uma vez mais o seu compromisso com a luta contra o antissemitismo, é um sinal de que se trata mais de uma tentativa de disciplinar Die Linke do que de combater o antissemitismo. Die Linke fará bem em não continuar a envolver-se nestes jogos de poder partidários e em colocar no centro das suas preocupações os verdadeiros desafios.
Die Linke quer falar sobre a política para Berlim
A política orçamental errada do governo anterior deixou um défice de milhares de milhões de euros. Para Die Linke, uma coisa é clara: a resposta não pode ser a austeridade, como exigem setores do SPD. Pelo contrário, são necessários impostos mais elevados sobre os detentores de grandes patrimónios e investimentos financiados através do recurso ao crédito nas infraestruturas sociais, na educação e nos transportes públicos locais.
O conflito provavelmente mais difícil diz respeito, porém, a uma promessa eleitoral central de Die Linke: a concretização do referendo popular sobre a socialização dos grandes grupos imobiliários. Já em 2021, uma maioria dos habitantes de Berlim votou a favor da sua expropriação. Os Verdes defendem a sua concretização, enquanto o principal candidato do SPD a rejeita, apesar de resoluções aprovadas pelo congresso do seu partido a favor da socialização. Contudo, não será apenas de setores da social-democracia que se deverá esperar resistência. A intervenção na propriedade capitalista mobilizará o bloco dominante: todos os meios jurídicos, mediáticos e políticos serão utilizados contra esta medida.
Tanto mais importante é, por isso, que Die Linke não se limite a negociar de forma consequente com o SPD e os Verdes. Para vencer a resistência do lóbi empresarial deve, simultaneamente, construir, em conjunto com o movimento dos inquilinos, os sindicatos e as associações sociais, uma pressão social a favor da socialização e de um custo de vida acessível para todas e todos.os.
