Por Imre Szijarto, no Sin Permiso | Tradução: Antonio Martins
Via Outras Palavras
Queda de Orbán enfraquece projeto de Trump, Milei e Bolsonaros. Quem é e o que defende Magyar, o futuro premiê. Qual a situação da esquerda. Por que mobilização social será decisiva para desfazer legado autoritário do governo derrotado nas urnas.
“Conseguimos. Libertamos a Hungria e recuperamos nosso país”, proclamou na noite de ontem, às margens do Rio Danúbio, Peter Magyar, candidato do Tisza (Partido Respeito e Liberdade), que acabava de vencer as eleições parlamentares do país. Dezenas de milhares de pessoas, a maioria jovens, estavam reunidas para ouvi-lo. Magyar derrotou Viktor Orban, que ocupou o posto de primeiro-ministro por 16 anos. Nesse período, o país viveu uma sequência de contrarreformas políticas que deformou o sistema eleitoral, subordinou o Judiciário ao partido governante (o Fidesz) e corroeu direitos civis.
Liderado por Magyar, um dissidente do orbanismo, o Tisza superou estas barreiras e está próximo de formar uma maioria de dois terços no Parlamento, que se confirmada lhe permitirá reverter as medidas autoritárias. Até a manhã de hoje, as apurações asseguravam-lhe 137 cadeiras, contra apenas 55 do Fidesz. Nada menos de 77% dos eleitores compareceram às urnas, um recorde absoluto no país e um índice elevadíssimo para sistemas em que o voto não é obrigatório.
Embora habitada por apenas 10 milhões de habitantes (metade da região metropolitana de São Paulo), a Hungria tornou-se há anos um baluarte da extrema-direita. Orbán foi participantes ativo das reuniões internacionais da CPAC (Conferência de Ação Política Conservadora), que reuniram entre outros Donald Trump, Javier Milei, Marine Le Pen e os Bolsonaro). Promoveu em março deste ano, em Budapeste, um encontro europeu do agrupamento. “Estamos combatendo pela alma do Ocidente, declarou na ocasião, investindo contra os não-brancos, os imigrantes, o Islã e os movimentos LGBT+. Encontrou-se diversas vezes com Jair Bolsonaro, que chegou a refugiar-se na embaixada húngara em Brasília numa das ocasiões em que temeu ser preso. Recebeu, às vésperas da eleição deste fim de semana, uma visita especial do vice-presidente dos EUA, J.D.Vance, que compareceu a diversos atos de sua campanha. Num deles, Vance colocou ao vivo a voz de Donald Trump, que cravou: “I love Orbán”. Foi inútil.
No texto a seguir, publicado originalmente na revista digital espanhola Sin Permiso, o sociólogo húngaro Imre Szijarto apresenta os desafios que o sistema político e a sociedade civil húngara terão de superar, para se livrarem da herança autoritária de Orbán. Relata os métodos do antigo primeiro-ministro. Mostra como Magyar serviu-lhe uma dose de seu próprio veneno. Debate os dilemas da esquerda, muito enfraquecida. E sustenta que só a mobilização social será capaz de empurrar o país adiante, exigindo do novo governante – ele mesmo um homem de centro-direita — que cumpra seu programa democratizador. (A.M.)
As eleições de domingo finalmente destituíram Viktor Orbán do poder. As forças de oposição uniram-se em torno do candidato da oposição, Péter Magyar, menos por acreditarem em sua plataforma do que por desespero diante da deriva autoritária do país.
Desde que o partido de extrema-direita Fidesz, de Viktor Orbán, chegou ao poder com uma vitória esmagadora em 2010, as instituições democráticas da Hungria têm enfrentado pressão constante. Orbán chamou sua vitória de “revolução nas urnas” e passou a desmantelar sistematicamente a maioria dos mecanismos institucionais de controle do seu poder pessoal. Adotou uma nova Constituição. Colocou o Tribunal Constitucional sob controle partidário, mudou o sistema eleitoral e redesenhou os distritos eleitorais para dar ao seu partido uma vantagem significativa.
Há mais. Orbán usou seu poder político para enriquecer amigos e familiares, consolidou a maior parte do mercado de mídia nas mãos de seus aliados, transformou a TV pública em uma ferramenta de propaganda e instrumentalizou o Estado para intimidar ONGs, acadêmicos, sindicatos e os remanescentes da imprensa independente e silenciosa.
Embora as eleições sejam tecnicamente livres, estão longe de ser justas. A distorção sistemática do cenário político em favor do Fidesz resultou em três supermaiorias consecutivas nas eleições parlamentares de 2014, 2018 e 2022.
Na votação deste 12 de abril algo distinto ocorreu. Meses antes do pleito, as pesquisas já prognosticavam a vitória da oposição. Magyar liderava também nas casas de apostas, o que levou as autoridades a proibir a Polymarket, por “facilitar jogos de azar ilegais”, logo no início da campanha. Em outro sinal da indecisão das elites, caíram persistentemente, nas últimas semanas da campanha, as ações negociadas em bolsa de empresas ligadas a Orbán e seu grupo.
Para piorar a situação do então primeiro-ministro, uma série de escândalos abalou a Hungria às vésperas da votação. Em dezembro, vídeos vazados revelaram casos graves de abuso infantil em orfanatos estatais. Em fevereiro, veio à tona como o governo permitiu que a Samsung expusesse trabalhadores a produtos químicos tóxicos em uma fábrica de baterias. Alguns trabalhadores teriam sido obrigados a trabalhar em turnos rotativos nas áreas mais contaminadas, uma prática que lembra os trabalhos de limpeza na zona de exclusão de Chernobyl. Em março, um integrante do Departamento Nacional de Investigação revelou um plano do serviço secreto do país para infiltrar e enfraquecer o Partido Húngaro (Tisza de Magyar) por meio de intimidação, chantagem e suborno.
(Contra)populismo
A ascensão meteórica de Magyar e do seu Partido Tisza transformou o panorama político húngaro. Em 2024, o público soube que a presidente Katalin Novák havia concedido indulto a um homem que cumpria pena de prisão por acobertar abuso sexual infantil. Magyar ganhou destaque após divulgar uma gravação da sua esposa, a ministra da Justiça, na qual outros políticos de renome estavam envolvidos no escândalo.
Poucos meses depois, o novo partido desse ex-membro do Fidesz, até então pouco conhecido, conquistou quase 30% dos votos nas eleições europeias de 2024 e contribuiu para o colapso quase total da fragmentada oposição liberal de esquerda. O Magyar posicionou-se no centro-direita, adotou uma postura mais pró-UE e pró-OTAN em política externa e uniu-se ao Partido Popular Europeu, composto por partidos como a União Democrata Cristã Alemã, no Parlamento Europeu.
O Partido Tisza promete algo para cada bloco eleitoral, incluindo cortes de impostos para contribuintes de baixa renda, aumento das aposentadorias e pensões, manutenção dos populares incentivos fiscais de Orbán para famílias, complementados por maiores transferências de renda, além de manter a disciplina fiscal e evitar grandes déficits. Essas políticas deixariam os húngaros da classe trabalhadora em melhor situação do que no cenário atual, mas, como o aumento do imposto de renda para os mais ricos não está na agenda, elas também manteriam o sistema tributário de Orbán, notoriamente regressivo, praticamente intacto.
O programa eleitoral de Tisza promete cortes de impostos, aumento das transferências e melhoria dos serviços públicos. Sugere ainda que medidas anticorrupção, um imposto sobre a riqueza dos 0,2% mais ricos, o confisco dos bens ilícitos dos oligarcas e o acesso a fundos da UE atualmente congelados por violações do Estado de direito tornarão essas políticas fiscalmente sustentáveis. Magyar afirma transcender as polarizações tradicionais com slogans populistas como “Não existe esquerda nem direita, apenas húngaros”. Se o marxista húngaro G.M. Tamás ainda estivesse entre nós, provavelmente repetiria sua citação favorita: “Quem não consegue decidir se é de esquerda ou de direita, está de direita”.
A ascensão do Magyar coincidiu com, e contribuiu para, o declínio fatal de diversas formações liberais de esquerda. Muitos partidos menores, como o Partido Socialista Húngaro, o Movimento Momentum (neoliberal), o Jobbik (antigamente de extrema-direita), o Partido Verde e o Diálogo, do prefeito de Budapeste, Gergely Karacsony, estão entre os afetados. O Partido Verde anunciou que não participaria das eleições deste ano para aumentar as chances do Tisza pôr fim ao longo governo de Orbán. Embora a maioria dos esquerdistas e liberais tenha reservas em relação ao Tisza, a maioria dos principais formadores de opinião liberais tende a reconhecer que esta não é uma eleição democrática normal e que Magyar pode ser sua única chance de impedir uma deriva ainda maior ao autoritarismo.
A promessa de Magyar de restaurar os padrões democráticos básicos parece ser suficiente para mobilizar liberais desesperados em torno dele, enquanto sua retórica nacionalista lhe permite conquistar apoio entre eleitores socialmente conservadores nos redutos rurais do Fidesz. Os dois pequenos partidos à esquerda de Magyar que ainda estão em atividade são a Coalizão Democrática do ex-primeiro-ministro Ferenc Gyurcsány, cujas políticas de austeridade impopulares contribuíram diretamente para a primeira supermaioria de Orbán, e o satírico Partido do Cão de Duas Caudas.
Em muitos aspectos, o segredo do sucesso de Magyar reside em fazer Orbán “provar do próprio veneno”, defendendo um novo estilo de populismo adaptado à era do TikTok. Orador carismático, ele frequentemente evoca as lutas heroicas das revoluções húngaras de 1848 e 1956, enquanto contrapõe os “húngaros comuns” à elite cleptocrática de Orbán.
Inicialmente, Magyar publicava vídeos curtos de si mesmo em situações cotidianas: na cozinha, na academia ou na barbearia. No entanto, à medida que a campanha eleitoral se aproximava, seu conteúdo passou a apresentar uma imagem mais de estadista.
Enquanto Orbán cultiva o apoio de outros líderes antiliberais na região, como o primeiro-ministro eslovaco Robert Fico, Magyar retrata isso como uma traição às minorias de língua húngara nos países vizinhos, apresentando-se como um nacionalista mais credível do que Orbán. Em relação à imigração, o Tisza promete manter políticas restritivas, incluindo a cerca de arame farpado ao longo da fronteira sul da Hungria, mas critica o governo por permitir que empresas multinacionais contratem trabalhadores migrantes de fora da UE com vistos temporários.
Sociedade civil e mobilização de massas
A atual oportunidade de democratização da Hungria não decorre apenas de mudanças na política partidária. Depende também da capacidade da sociedade civil de se mobilizar, tanto para evitar manipulação eleitoral quanto para garantir que Magyar cumpra sua palavra quando estiver no poder. Mobilizações em massa já desempenharam um papel significativo na criação do cenário que levou à derrota de Orbán. Em março de 2025, já em declínio nas pesquisas, o governante anunciou uma ampla repressão aos remanescentes da mídia independente e da sociedade civil na Hungria. Ele também alertou os organizadores da Parada do Orgulho LGBT de Budapeste que qualquer dinheiro ou esforço gasto no evento do ano seguinte seria um desperdício.
O efeito desses anúncios foi o oposto do que o governo pretendia. Em vez de aterrorizar os atores da sociedade civil e forçá-los à submissão, o espectro de uma deriva rumo a uma autocracia aberta os revigorou. A mobilização subsequente obrigou o governo a reconsiderar sua prometida “limpeza de primavera”.
Para piorar ainda mais a situação para o governo, a Parada do Orgulho LGBT de Budapeste não só aconteceu apesar da proibição oficial e das ameaças, como se tornou uma das maiores manifestações públicas da história recente da Hungria.
Embora a proibição da parada provavelmente tivesse como objetivo pressionar Magyar a tomar uma posição sobre uma questão controversa, ele se manteve fora da polêmica, permitindo que o prefeito do Partido Verde, Karácsony, assumisse a liderança para tornar a proibição de Orbán inexequível.
A importância dessa participação massiva vai muito além de uma demonstração de solidariedade com a comunidade LGBTQ+ da Hungria. Líderes autoritários têm fortes incentivos para se manterem no poder a qualquer custo, especialmente em uma cleptocracia como a Hungria, onde a perda do controle do sistema judiciário poderia expor as elites corruptas a processos criminais. Nesse contexto, a marcha também sinalizou que qualquer tentativa de subverter as eleições seria uma aposta arriscada, que poderia não dar certo, principalmente para aqueles com fundos substanciais em contas bancárias no exterior.
A estrada traiçoeira à frente
Apesar da conjuntura favorável de uma oposição forte e uma sociedade civil mobilizada, o caminho da Hungria para a democratização permanece estreito e traiçoeiro. O campo de Orbán recorreu a artimanhas sujas por desespero.
Magyar alertou o público de que um kompromat ao estilo russo poderia ser usado contra ele. Ele suspeita que alguém o filmou secretamente em uma situação íntima. No atual clima geopolítico, táticas de intimidação sobre a escalada da guerra na Ucrânia foram também ensaiadas, para levar parte dos eleitores a apoiar o governo. O Fidesz divulgou um vídeo gerado por inteligência artificial que retratava a execução pública de prisioneiros de guerra, insinuando que a Hungria poderia envolver-se no conflito caso os eleitores levassem um novo governo ao poder.
No domingo de Páscoa, uma semana antes da votação, as autoridades sérvias alegadamente descobriram um plano para explodir um gasoduto crucial para o abastecimento energético da Hungria. Tanto Magyar como um antigo agente de contraespionagem sugeriram que a ameaça à segurança, convenientemente cronometrada, poderia ser uma operação de falsa bandeira destinada a dar a Orbán uma vantagem de última hora.
Embora em grande parte isolado dentro da UE, Orbán ainda conta com aliados poderosos no exterior, de Moscou a Washington. A Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC) deste ano, na Hungria, reuniu figuras importantes da extrema-direita internacional, como Javier Milei, Alice Weidel, Eduardo Bolsonaro e Geert Wilders. Donald Trump assegurou a Orbán seu “apoio total e irrestrito”; Benjamin Netanyahu agradeceu-lhe por “defender a civilização ocidental contra essa onda de muçulmanos radicais e fanáticos”. JD Vance chegou a visitar a Hungria apenas cinco dias antes da eleição para apoiar Orbán, alertando também para uma possível interferência de “Bruxelas”.
Mesmo com uma mudança de governo, a democratização está longe de ser garantida. Reverter a maioria das mudanças antidemocráticas introduzidas por Orbán exigirá uma supermaioria parlamentar. Um novo governo também terá que governar ao lado de milhares de apoiadores do Fidesz profundamente enraizados em instituições em todos os níveis da administração estatal.
Os primeiros resultados sugerem que uma supermaioria para o Tisza não é impossível. Tal resultado permitiria ao novo governo implementar as reformas institucionais necessárias para restabelecer o Estado de Direito, como a restauração da independência dos tribunais superiores, a remoção de nomeações políticas do sistema judicial que atualmente garantem a impunidade de agentes corruptos e a adesão à Procuradoria Europeia. Contudo, também poderia levar Magyar a tentar assumir o controle da mesma estrutura de poder construída por Orbán e a estabelecer-se como o próximo líder autoritário da Hungria.
Neste clima de incerteza, as organizações da sociedade civil que impediram a Hungria de deslizar para um cenário “bielorrusso” em 2026 devem permanecer vigilantes. Elas precisarão pressionar o governo húngaro a implementar as reformas aprovadas pelos eleitores.
Um momento de risco e oportunidade
As próximas semanas reservam riscos significativos e oportunidades históricas para os democratas húngaros. A saída de Orbán não será uma vitória para a esquerda. No entanto, é um duro golpe para a extrema-direita global e pode oferecer uma esperança muito necessária aos cidadãos de democracias fragilizadas em todo o mundo.
