México e uma oposição violenta e intervencionista


A oposição das direitas mexicanas aos governos do Morena aproveita o ataque dos Estados Unidos contra a Venezuela para exigir uma iniciativa semelhante em seu país. Diferentemente de outras direitas continentais que apostaram no caminho eleitoral, no México elas buscam chegar ao poder por meio da violência e do intervencionismo imperial.



O artigo que segue é resultado do trabalho da turma de 2025 do Diploma Superior em Mutação da Dominação no Capitalismo Contemporâneo, organizado pela CLACSO e pela Revista Jacobin. A edição de 2026 do Diploma já está a caminho, não perca!



Em 3 de janeiro deste ano ocorreu o fato possivelmente mais significativo em matéria de política internacional desde o início do século XXI: a intervenção militar da Venezuela por parte da administração de Donald Trump. Embora claramente tenham ocorrido outros eventos bastante estarrecedores em matéria de política externa por parte do governo dos Estados Unidos nos últimos anos, a intervenção na Venezuela reaviva as preocupações sobre a possibilidade de retornar a algumas experiências vividas na América Latina durante o século XX (golpes de Estado, regimes militares e repressão à esquerda). Além disso, está claro que o fato constitui uma ruptura da ordem baseada no direito internacional.



Diferentemente do que ocorreu nos golpes de Estado e nas intervenções militares realizadas pelos Estados Unidos durante os séculos XX e XXI, desta vez o governo estadunidense não quis gastar energias para tentar convencer a comunidade internacional de que a intervenção contra a Venezuela não era por recursos naturais, já que o próprio Donald Trump disse explicitamente que era pelo petróleo. Inclusive, embora tenha acusado instrumentalmente o presidente venezuelano Nicolás Maduro de 'narcoterrorismo' para sequestrá-lo e bombardear Caracas, o governo estadunidense depois admitiu que o famoso 'Cartel dos Sóis' não existia e removeu a maioria das acusações contra Maduro como líder dessa organização. Isso reforça a ideia de que o ataque na Venezuela foi realizado não por razões humanitárias, mas para entregar o petróleo venezuelano às empresas dos Estados Unidos.


A intervenção na Venezuela também indica o retorno da doutrina Monroe (agora conhecida como 'Donroe', em referência a Donald Trump), bem como uma redefinição da política externa estadunidense em relação à América Latina e ao Caribe. Embora anteriormente tenha sido possível perceber seu intervencionismo por meio do apoio aos golpes de Estado em Honduras e na Bolívia em 2009 e 2019, respectivamente, assim como com o apoio explícito de Trump a candidatos presidenciais como Javier Milei na Argentina e Jair Bolsonaro no Brasil, o ocorrido em 3 de janeiro marca a culminação de uma radicalização da política externa estadunidense, ao mesmo tempo que abre um novo capítulo na história da relação dos Estados Unidos com o resto do continente.


No entanto, é importante compreender que as ações que os Estados Unidos estão tomando na atual administração trumpista não são uma anomalia na política externa estadunidense, pois vêm sendo gestadas desde administrações anteriores. Mas agora os Estados Unidos viram-se na necessidade de mostrar mão dura e uma política imperialista sem pudores para enfrentar o crescente mundo multipolar e garantir seu domínio no hemisfério ocidental, posição apresentada sem ambiguidades pelo atual secretário do Departamento de Estado, Marco Rubio.


É sob esse contexto de crescente intervencionismo militar na região, juntamente com a ascensão global das ultradireitas, que uma oposição mexicana radicalizada após o triunfo de Morena e de Andrés Manuel López Obrador (AMLO) nas eleições presidenciais de 2018 se posiciona como um ator fundamental para a facilitação da intromissão estadunidense no México (país que Donald Trump apontou como um dos que 'continuam na lista').


O caso da Venezuela e a radicalização da oposição mexicana


O discurso pró-intervencionista da direita mexicana não pode ser analisado como um fenômeno que surgiu apenas como resultado da eleição de AMLO em 2018, mas sim como um processo de radicalização ideológica que vem se gestando desde anos anteriores. Ainda assim, o triunfo da esquerda eleitoral marcou um ponto de inflexão dentro da direita mexicana, que pela primeira vez em décadas se viu deslocada do poder e obrigada a redefinir suas estratégias políticas em um contexto regional marcado pelo avanço da ultradireita e pela intensificação do intervencionismo estadunidense.


Em primeiro lugar, é necessário assinalar que, desde o ano de 2006, a Venezuela tem sido apresentada como uma ameaça simbólica dentro da política mexicana. Foi naquele ano que o Partido Ação Nacional (PAN), o predileto da direita mexicana desde sua fundação, encarregou-se de fazer uma campanha de descrédito contra a candidatura de López Obrador, acusando-o de ser um 'perigo para o México'. O PAN utilizou em 2006 uma estratégia de guerra de spots com o objetivo de prejudicar a imagem de AMLO e semear medo na população. Nessa conjuntura, a Venezuela começa a ser utilizada como um possível cenário do que poderia ocorrer com o México caso o candidato do Morena fosse eleito, mostrando-o como análogo à figura de Hugo Chávez. O Centro de Liderança e Desenvolvimento Humano (CELIDERH), com claros vínculos com o PAN e receptor de financiamento da Confederação Patronal da República Mexicana (COPARMEX), também participou da campanha de descrédito político por meio da veiculação de vários anúncios televisivos.



Essa estratégia de campanhas de medo e descrédito não foi exclusiva de 2006, ano em que Felipe Calderón (PAN) venceu a presidência da República e mergulhou o México em uma guerra sangrenta contra o narcotráfico, mas se manteve inclusive nas campanhas de López Obrador nos anos de 2012 e 2018. A cobertura midiática negativa sobre o processo da Revolução Bolivariana também implantou uma visão nociva sobre tudo aquilo que fosse levemente associado à esquerda, ao socialismo ou ao marxismo. Isso não se observa apenas no México, já que políticos como Gabriel Boric (Chile), Gustavo Petro (Colômbia) e Luiz Inácio 'Lula' da Silva (Brasil) têm enfrentado acusações semelhantes.



Esse espantalho anticomunista utilizado pelos meios de comunicação e partidos de direita no México e na América Latina como um todo é um exemplo claro da utilização do comunismo — ou de qualquer movimento emancipatório — como sinônimos de 'autoritarismo', 'pobreza' e 'violência' e, portanto, como algo incompatível com o 'mundo livre'. Também funciona como uma forma de justificar a intervenção militar estadunidense na região, pois se impregna a visão de uma Venezuela mergulhada em uma ditadura que não pode ser recuperada por vias democráticas e nem mesmo por meio de uma insurreição interna. Ou seja, a única forma de libertar a Venezuela acaba sendo a intervenção militar realizada por potências estrangeiras. Também se tem usado essa narrativa para silenciar aqueles que criticam a ingerência militar estadunidense na Venezuela, acusando seus críticos de serem 'simpatizantes de Maduro', apesar de que mesmo dentro da esquerda mexicana o apoio a Nicolás Maduro é quase nulo. Essa narrativa tem obrigado as esquerdas a buscarem se desvincular da Revolução Bolivariana por medo de serem associadas ao chavismo.


Agora, como reagiu a direita mexicana diante da intervenção estadunidense na Venezuela? O líder do PAN, Jorge Romero, viu com bons olhos a captura ilegal de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, definindo seu governo como uma 'ditadura'. O Partido Revolucionário Institucional (PRI) emitiu um comunicado no qual 'apoia a queda da narcoditadura terrorista e comunista da Venezuela'. Por sua vez, os legisladores de ambos os partidos questionaram a decisão da administração da presidenta Claudia Sheinbaum de condenar o ataque estadunidense contra Caracas, acusando o Morena de mostrar simpatia por Nicolás Maduro. O bilionário Ricardo Salinas Pliego, que vem se posicionando como uma figura importante da oposição, valendo-se de seu conglomerado midiático TV Azteca, classificou o sequestro de Maduro como 'uma esperança para o México', aludindo a que um cenário semelhante poderia ocorrer no país.



É evidente que a direita mexicana não apenas não critica a ingerência militar estadunidense na Venezuela, mas inclusive celebra esse fato e o translada para o âmbito da política nacional. No entanto, não é novidade que a oposição de direita recorra a apelos à intervenção estadunidense. Em 2025, a senadora Lilly Téllez (PAN) foi convidada para uma entrevista na Fox News, um dos principais meios associados à direita estadunidense, na qual solicitou 'ajuda' ao governo dos Estados Unidos no combate ao narcotráfico no México. Nesse espaço, Téllez classificou o México como um 'narcoestado', o que se alinha com a retórica trumpista sobre o país. Em seguida, dirigentes tanto do PAN quanto do PRI expressaram seu apoio a essas declarações de Téllez, e o ativista alinhado ao trumpismo Eduardo Verastegui, líder da Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC) no México, reconheceu que pediu pessoalmente a Donald Trump que interviesse militarmente no país.


A oposição de direita também tem trabalhado para instalar a noção de que os governos do Morena representam uma ameaça à democracia. A coordenadora do PAN no Senado, Guadalupe Murguía, classificou o Morena como 'a ditadura do México' e Alejandro 'Alito' Moreno, dirigente do PRI, denunciou o Morena por supostamente empreender uma campanha de 'perseguição política' contra seus opositores, afirmando inclusive que busca instaurar uma ditadura.


Atualmente, a administração de Claudia Sheinbaum busca impulsionar uma reforma eleitoral na qual se reduza o número de legisladores eleitos por via de representação proporcional, bem como o financiamento aos partidos políticos. Diante disso, o PAN e o PRI denominaram essa reforma de 'Lei Maduro', apesar de ambas as agremiações terem tentado reduzir ou eliminar esse tipo de legislador durante suas respectivas administrações. Jorge Romero inclusive desafiou o Morena a que, no âmbito da reforma eleitoral, se proponha anular eleições ou até mesmo retirar o registro dos partidos políticos que receberem dinheiro do crime organizado, e ameaçou empregar a resistência civil caso a reforma 'prejudique a democracia'.


Como se pode observar, o PAN e o PRI tiveram como objetivo nos últimos anos difundir a ideia de que, sob a liderança do Morena, o México está 'se tornando uma ditadura' e de que é um 'narcoestado', o que resulta irônico se lembrarmos que ambos os partidos já foram acusados de exercer fraude eleitoral e de ter vínculos com o narcotráfico. Da mesma forma, têm utilizado a retórica trumpista sobre o México como um 'narcoestado', que precisa da 'ajuda' do governo estadunidense, com pleno conhecimento de como a administração de Trump designou vários cartéis de drogas mexicanos como grupos 'terroristas', o que tem claras implicações geopolíticas, já que, sob as leis estadunidenses, isso lhes permite intervir militarmente no âmbito da guerra contra o terrorismo (a mesma justificativa que tem utilizado para suas incursões militares no Oriente Médio, no Sahel, no Chifre da África e em outras regiões).


Impotência eleitoral e intervencionismo


Cabe então perguntar por que a oposição de direita aposta por uma intervenção militar estadunidense em vez de tentar ganhar eleições como seus homólogos na Argentina e no Chile. Alguns dos elementos que diferenciam a direita mexicana de outras da região, como as representadas por José Antonio Kast, Javier Milei ou Nayib Bukele, passam pela falta de apoio popular e de capacidade de mobilização dos eleitores.


Atualmente, o populismo (tanto de direita quanto de esquerda e de centro) tornou-se um tema de debate nos círculos acadêmicos e na mídia. O historiador Steven Forti explica que a definição mais aceita de populismo é aquela proposta por Cas Mudde, que considera o populismo mais como uma ideologia, enquanto Ernesto Laclau vê o populismo mais como uma retórica e uma estratégia política. Diante disso, Marc Lazar e Ilvo Diamanti falam do conceito de pueblocracia, no qual consideram que, em razão da crise dos partidos políticos, a política se personalizou e os partidos têm uma menor estrutura e enraizamento territorial. Diante disso, o marketing desempenha um papel fundamental. Os partidos já não são organizações de massas que mobilizam militantes e têm presença territorial, e muitas das últimas eleições tiveram como protagonista a estratégia de comunicação política nas redes sociais. Da mesma forma, o personalismo tem tido um papel importante na popularidade de partidos políticos e candidatos, o que tem definido eleições. Como propõe Claudio Katz, grande parte da ascensão da extrema direita a nível global tem sido graças a essa estratégia política com tintas populistas, como se pode observar com a ascensão de Donald Trump e Javier Milei.


Agora, o Partido Ação Nacional jamais teve um grande número de militantes, nem tampouco uma cobertura geográfica ampla. Inclusive no México chegou a receber o apelido de 'partido de pavimento' devido ao fato de sua base de eleitores se concentrar em zonas urbanas e entre a classe média, o que continua ocorrendo atualmente. Hoje o PAN enfrenta uma crise interna e tem tido dificuldade para aumentar seu quadro de militantes (que hoje deve girar em torno de 256 mil) para poder disputar as eleições intermediárias de 2027. Desde o relançamento do PAN com seu novo líder, Jorge Romero, e sua guinada à ultradireita sob o lema 'Pátria, Família e Liberdade', seu quadro de filiados cresceu cerca de 1%. Além disso, figuras históricas do panismo, como os ex-presidentes Vicente Fox, Felipe Calderón ou a ex-candidata presidencial Xóchitl Gálvez, recusaram-se a se filiar. O PRI, por sua vez, perdeu a maioria de seus membros desde a presidência de Enrique Peña Nieto. Mas a redução em termos de militância não é a única prova da falta de apoio que sofre a oposição. Em relação às eleições presidenciais, desde 2012 o PAN não conseguiu ultrapassar a barreira dos 30% dos votos, mantendo-se em resultados que oscilam nos vinte e poucos pontos percentuais. Quanto ao PRI, pela primeira vez em sua história não apoiou um candidato próprio rumo às eleições de 2024, já que decidiu se coalizar com o PAN.


O PAN e o PRI têm experimentado um desgaste tremendo em suas marcas políticas. O PRI tem sido associado ao autoritarismo, à repressão e aos escândalos de corrupção, e o PAN à guerra contra o narcotráfico do ex-presidente Calderón, que mergulhou o país em uma espiral de violência, portanto não surpreende que sua retórica de advertência sobre uma suposta 'ditadura' com as administrações do Morena não pareça ter efeito sobre o eleitorado. Além disso, nenhum dos dois partidos conseguiu formar quadros que façam frente ao Morena. Em resumo, ambas as organizações não rejeitaram seu passado e tampouco quiseram aderir à retórica populista e supostamente 'antissistêmica' de suas contrapartes latino-americanas e europeias, por isso hoje não conseguem se conectar com os eleitores. Isso tem provocado que a direita mexicana veja como atrativa a retórica da interferência militar estadunidense, assim como ocorreu com a direita venezuelana, que foi incapaz de lograr uma mudança de governo em seu próprio país.


Assim, a direita mexicana tem mais semelhanças com a direita venezuelana do que com as direitas populistas latino-americanas e europeias. Não porque não existam outras direitas que busquem a intervenção estadunidense em seus respectivos territórios, mas em outros países da América Latina a oposição direitista tem tido maiores oportunidades de triunfo eleitoral do que nos casos do México e da Venezuela. No entanto, o fato de uma direita buscar triunfar por meio de um processo eleitoral, um golpe de Estado ou uma intervenção militar direta depende muito do nível de apoio que possui entre a população, bem como de sua capacidade de mobilização e de organização. Sem forçar semelhanças entre a situação política do México e da Venezuela, é importante analisar suas coincidências para compreender as implicações para o México do ataque estadunidense de 3 de janeiro e a forma como isso se entrelaça com outros processos neocoloniais a nível mundial.


Direitas que buscam normalizar a violência


Nesse contexto, é importante compreender o fenômeno do astroturfing, uma prática política na qual se busca criar a aparência de um movimento popular espontâneo, utilizada com o objetivo de gerar a ilusão de que há um apoio ou oposição majoritária a uma causa, quando na realidade por trás do movimento há grupos com grande capacidade financeira que têm outros interesses.



No México, o exemplo mais notório e recente desse fenômeno foi o da suposta marcha da Geração Z, que não tinha como assistentes majoritários pessoas dessa geração, mas sim políticos, ativistas e simpatizantes da direita, os mesmos que puderam ser observados em outras marchas como a da chamada Marea Rosa, durante o sexênio de López Obrador. O jornalista Jesús Escobar Tovar denunciou que houve grupos dentro da marcha que utilizaram métodos violentos para provocar os corpos de segurança, gerar uma repressão por parte da polícia e criar uma imagem de um Estado 'ditatorial' que oprime a sociedade civil. Cabe mencionar que a marcha da Geração Z não foi realizada apenas para a audiência mexicana, mas também para prejudicar a imagem do governo do Morena a nível internacional.


Isso tem semelhanças com a questão das guarimbas na Venezuela (o termo guarimba é usado coloquialmente para se referir a barricadas de rua ou bloqueios de vias utilizados em protestos da oposição para gerar pressão contra o governo), que em alguns casos derivaram em episódios de violência urbana. Há pessoas dentro da oposição venezuelana que se opõem às guarimbas e inclusive houve críticos de Maduro que denunciaram que os guarimberos atacam aqueles que questionam seus métodos. Além disso, várias das mortes em marchas antigoverno têm sido atribuídas a ações de guarimberos e opositores ao governo venezuelano.


Sem tirar o mérito de várias das reivindicações de setores da população que fazem parte desses protestos, tanto no México quanto na Venezuela (porque algumas são reais e não devem ser desconsideradas como se fossem apenas provocações), o certo é que a maioria das pessoas que participa não o faz de maneira violenta. No caso da marcha da Geração Z, foram levantadas pautas críticas à insegurança que o México enfrenta, e que a própria administração de Claudia Sheinbaum não conseguiu conter em sua totalidade. Quanto à Venezuela, tem havido uma crise econômica sem precedentes, sobre a qual o sociólogo Malfred Gerig sustenta que, embora seja verdade que as sanções estadunidenses têm prejudicado gravemente a economia do país, não se pode atribuir a elas a principal responsabilidade pela atual depressão econômica, já que sua origem está em elementos estruturais que o chavismo não conseguiu resolver.


Diante disso, fica claro que tanto dentro dos governos do Morena quanto nos da Revolução Bolivariana houve erros que precisam ser corrigidos, pelos quais existem críticas legítimas. No entanto, as direitas e os interesses financeiros têm buscado se apropriar dessas demandas para desestabilizar e criar narrativas que propiciem uma intervenção estrangeira. O fato de a direita mexicana estar adotando as técnicas empregadas pelos guarimberos marca uma virada nos métodos que ela vinha utilizando anteriormente, passando a justificar o uso da violência como forma de oposição ao governo.


Somado a isso, há outro ponto que liga a direita mexicana à venezuelana, bem como a outros processos a nível global: a utilização de uma retórica neocolonial na qual se fala de povos do 'Sul Global' que são incapazes de se governar a si mesmos e que, portanto, necessitam da 'supervisão' e intromissão de potências estrangeiras supostamente 'civilizadas'. Sobre esse ponto, o acadêmico curdo Serhat Tutkal explica que esse neocolonialismo estadunidense não surgiu do nada, mas tem sido promovido por círculos acadêmicos e assessores de extrema direita desde a primeira campanha presidencial de Donald Trump. O autor também menciona que esse projeto transnacional é assumido por um movimento de extrema direita que transcende as fronteiras estadunidenses e ressalta que se tem buscado justificar o neocolonialismo sob a premissa de que os povos colonizados se beneficiam da tutela colonial, já que são incapazes de se governar a si mesmos (em troca, claro, deveriam conceder benefícios econômicos aos estados coloniais por sua 'generosa' intervenção, especialmente na forma de acesso a recursos naturais).


Tutkal aponta três exemplos de neocolonialismo que ilustram a monstruização e desumanização dos povos do 'Sul Global': Gaza, Rojava e Venezuela. Atualmente em Gaza, o governo dos Estados Unidos, juntamente com o de Israel, está focado em criar uma administração gestada por atores estrangeiros com a colaboração de alguns setores locais, com o objetivo de criar uma 'Riviera do Oriente Médio' que traria benefícios econômicos às potências neocoloniais por seu 'duro trabalho'. O autor menciona que o mesmo ocorre na Venezuela, já que a administração Trump busca permanecer no país até que se 'produza a transição adequada'. Somado a isso, explica que o objetivo que se persegue em Rojava por parte dos governos da Síria, Turquia e Iraque, que são apoiados pelos EUA, não é apenas a destruição de sua administração autônoma (e o eventual genocídio contra o povo curdo), mas também a eliminação de uma alternativa democrática no 'Sul Global'. Tutkal argumenta que os Estados Unidos preferem se aliar a grupos supremacistas que são antigos inimigos (como o ISIS e a Al Qaeda), já que estes se encontram mais disponíveis para aceitar um papel subordinado dentro de uma nova fase neocolonial.


Quanto ao caso mexicano, Trump comentou que Sheinbaum 'não governa o México' já que, segundo ele, quem está no comando são os cartéis de drogas. Isso é comparável à retórica estadunidense sobre a Venezuela e Gaza, pois se constrói a noção de um México 'ingovernável' devido ao narcotráfico, de modo que seria necessária a 'bondosa' intervenção estadunidense para poder resolver o problema.


Washington tem utilizado a figura dos governos 'narcoterroristas' para justificar a intervenção militar na Venezuela, bem como para uma escalada nas sanções contra Cuba. A oposição mexicana, por sua vez, aproveita essa conjuntura para pedir aos Estados Unidos que intervenham em seu país. É importante compreender que a retórica do 'narcoterrorismo' na América Latina é o equivalente ao monstro 'terrorista islâmico' que os Estados Unidos utilizaram para desumanizar os muçulmanos e criar consentimento entre a população estadunidense para as incursões no Iraque, Afeganistão e outros países. Os Estados Unidos estão fazendo uso da mesma tática para gerar apoio para as próximas intervenções que tem planejadas na América Latina, bem como para semear terror contra os migrantes latino-americanos que se encontram em território estadunidense e que agora são vítimas da violência policial do ICE.


Ciente disso, a oposição mexicana desempenha o papel dos setores locais que se aliam à potência neocolonial, mas (assim como no Oriente Médio) a retórica contra o 'narcoterrorismo' é apenas isso: retórica. Isso se demonstra com o indulto trumpista ao ex-presidente hondurenho acusado de narcotráfico Juan Orlando Hernández. Os EUA também admitiram que o 'Cartel dos Sóis' não é uma organização real, mas sim apenas uma 'cultura de corrupção' na qual se encontra o narcotráfico. Com isso, admite indiretamente que Maduro não foi líder daquela organização, já que a mesma nunca existiu. Por sua vez, isso implica que o argumento foi utilizado como desculpa para capturar ilegalmente Maduro, assim como ocorreu no Iraque com a acusação sobre as 'armas de destruição em massa'. Somado a isso, nos arquivos de Jeffrey Epstein encontra-se uma acusação anônima sobre a participação de Trump em festas com membros do Cartel de Sinaloa, o que lança dúvidas sobre sua verdadeira relação com grupos de narcotraficantes.


A intervenção estadunidense na Venezuela não pode ser lida, então, como um fato isolado, mas sim como parte de uma reconfiguração do intervencionismo em um contexto de crise hegemônica e de disputa multipolar. Nesse cenário, os Estados Unidos abandonaram o discurso liberal com o qual historicamente justificaram sua política externa para assumir de forma aberta o uso da força como mecanismo de reafirmação de seu domínio no hemisfério ocidental.


O relevante para o caso mexicano é que setores da oposição não apenas não condenaram o fato, mas o celebraram e o incorporaram ao seu próprio repertório discursivo. A caracterização do México como um 'narcoestado', a equiparação do Morena com o chavismo sob a consigna de que é um governo 'totalitário' e os apelos explícitos à ajuda estrangeira mostram que o caso venezuelano funciona como um referencial que legitima o pró-intervencionismo como alternativa política, diante da incapacidade de construir uma base social ampla pela via eleitoral. Assim, a Venezuela deixa de ser um referencial distante para se tornar um espelho que revela as tensões internas da política mexicana e os riscos que implica a normalização de discursos que colocam a soberania nacional como um obstáculo prescindível na disputa pelo poder.

HANS ALEXANDER RAZO URÍAS

Hans Alexander Razo Urias é graduado en Administração Pública e Ciência Política pela Universidade Autónoma da Baixa Califórnia. Atualmente é estudiante de mestrado em Estudos de Asia e África com especialização en Japão no Colégio do México. Seus temas de interesse principais são o (neo)nacionalismo japonês, o xintoísmo estatal e o estudo das direitas.