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Diante da agressão de Trump à Venezuela e do sequestro do presidente Nicolás Maduro, a França Insubmissa participou da convocação de atos em toda a França em solidariedade ao povo venezuelano. Veja, a seguir, a tradução completa da fala de Jean Luc Mélenchon no ato realizado em Paris no dia 03 de janeiro de 2026.
"Com a intervenção dos Estados Unidos da América na Venezuela, entramos numa nova fase dramática da história do nosso mundo, aquela em que os Estados Unidos da América, retomando os seus hábitos imperiais mais detestáveis, intervêm no país vizinho e ameaçam todos os outros. Mais uma vez, o petróleo é a verdadeira causa dessa intervenção. A luta contra o narcotráfico é apenas um pretexto. O petróleo que já justificou tantas intervenções, tantos danos, tantas mortes, no Afeganistão, no Iraque e, desta vez, na Venezuela, de tal forma que, com o sequestro do presidente Maduro e a tomada do controle deste país pelos Estados Unidos da América, que o reivindicam, como soubemos pela boca do próprio Trump, fica claro que se trata de uma espécie de controle ampliado que os Estados Unidos da América exercem sobre o recurso que fundamenta seu poder e nada mais. Portanto, puro imperialismo.
É consternador ver que, nesse contexto, se verifica a mesma indiferença em relação ao fato de que, nessa situação, há dois pesos e duas medidas: haveria invasões boas e invasões ruins. A Venezuela seria uma invasão boa e a que ocorreu na Ucrânia, com razão, é uma invasão ruim. Da mesma forma que consideramos que a que ocorre em Gaza é uma invasão ruim. NÃO, Só existem invasões ruins. Não podemos aceitar isso de forma alguma, e digo isso com toda a solenidade necessária. Não se trata de uma aventura particular em um canto do mundo.
O direito internacional é a única garantia de paz que temos. Neste momento, 126 nações, ou seja, 75% das nações, estão envolvidas em conflitos fronteiriços com seus vizinhos. 55 delas já estão em estado de guerra. Portanto, não se deve aceitar nenhuma derrogação. Mas quem está em condições de fazer respeitar tais regras quando os membros permanentes do Conselho de Segurança as violam e proíbem que sejam aplicadas aqui e ali? Essa é a situação.
Nesse contexto, é lamentável ver que a França não se pronuncia, que o presidente da República Francesa delega ao seu lamentável ministro das Relações Exteriores declarações confusas que não apontam os responsáveis, nem os culpados, nem dizem a quem se deve apoiar. A França tem outra possibilidade na cena internacional que não seja ser totalmente, radicalmente independente, ou seja, não alinhada? Por que essa subserviência ao império, por que essa servilidade europeia que, mais uma vez, se manifestou pela boca da comissária europeia para as Relações Exteriores? Tudo isso é terrível. É inaceitável que nosso país esteja ausente dessa forma.
É preciso exigir, sem hesitação, a libertação e o retorno imediato de Nicolás Maduro à Venezuela. Assim como, é claro, de sua esposa, que nesta história é uma espécie de refém do Império para impressionar seus adversários. É assim que as coisas estão. Tudo isso é terrível. Os franceses não devem acreditar que tudo isso, por acontecer longe, não os diz respeito diretamente. Neste momento, podemos nos perguntar se ainda existe uma ordem internacional, se é possível referir-se a ela, se é possível desejar a paz.
De todo modo, nos grandes debates que se anunciam em nosso país, a questão da paz e da guerra não poderá mais ser tratada com a indiferença com que foi tratada até agora, em que as decisões são tomadas solitariamente, por uma figura não menos solitária, que decide isso ou aquilo e não leva mais em conta as regras que devem ser impostas no plano internacional. É assim que os insubmissos vêem esta situação. Não escondo que é um momento doloroso para muitos ver o que acabou de acontecer. Muito doloroso.
Os Estados Unidos, aproveitando seu ímpeto, embriagados com as palavras de Trump, agora também ameaçam o México. No passado recente, já haviam roubado metade do seu território. Ameaçam a Colômbia, onde já possuem nove bases militares. O que mais? Existe, então, um senhor nesta parte do mundo? SIM, foi o que Trump disse em suas últimas declarações sobre a nova doutrina de segurança nacional que ele afirmou. As Américas são sua propriedade, tanto no Sul quanto no Norte, e a Europa anexada ao chamado mundo ocidental, da mesma forma. Estamos entrando em um momento de grande perigo, já que cada um se sente autorizado a fazer o que bem entender com os meios de que dispõe.
Exorto meus compatriotas a compreenderem bem que eles também são afetados e ameaçados pelos impérios. Não existe um império bom e um império mau. O que é mau é a dominação de uns sobre os outros, e o que é mau é o que põe em causa a soberania nacional de cada um dos Estados e povos, independentemente do que pensem aqui ou ali os governos. A política se constrói com base em realidades, e as realidades são as nações, e as nações são seus povos. Agredir é sempre agredir um povo. E veremos isso, infelizmente, nas próximas horas.
Afirmo nossa total solidariedade com o povo venezuelano e com seu governo legítimo, bem como com todos aqueles que hoje estão ameaçados por Trump. O governo do México, nossos amigos, o governo da Colômbia, nossos amigos, o governo do Brasil e convido cada país a refletir bem, e em todo caso, nossos líderes, sobre as ameaças que Trump já fez a uns e a outros, incluindo a França. Obrigado."
