Por Ivan Longo
Via Revista Forum
Temperaturas recordes na Alemanha, França, República Tcheca e Polônia resultam em centenas de mortes acima do esperado e causam danos severos a estradas, ferrovias e redes elétricas.
De BERLIM | Uma onda de calor sem precedentes vem atingindo a Europa desde o início da última semana, levando países como Alemanha, França, República Tcheca e Polônia a registrar temperaturas históricas e provocando, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 1,3 mil mortes desde o dia 21 de junho.
O calor extremo não poupou a infraestrutura: estradas “estouraram”, trilhos de bonde derreteram e uma usina nuclear reduziu sua geração por falta de água fria suficiente para os reatores. Cientistas da rede World Weather Attribution (WWA) concluíram que um evento dessa magnitude seria praticamente impossível há 50 anos sem as mudanças climáticas provocadas pela ação humana.
Onda de calor na Europa: mortes e temperaturas recordes
Mais de 1,3 mil mortes foram atribuídas à onda de calor na Europa desde 21 de junho, segundo a OMS. Só na França, a agência de saúde pública contabilizou cerca de mil mortes desde 24 de junho, com 85% das vítimas com 65 anos ou mais e um aumento de 40% nas mortes em domicílio, concentradas sobretudo na região de Paris. Os números ainda não são definitivos, pois se baseiam em atestados de óbito eletrônicos, que representam aproximadamente 60% da mortalidade nacional.
Na Alemanha, o domingo (27) foi o terceiro dia consecutivo em que o país bateu seu próprio recorde histórico de temperatura. Dados preliminares apontaram 41,7°C em Coschen, no estado de Brandemburgo, perto da fronteira com a Polônia, superando os 41,5°C registrados em Drewitz no sábado e os 41,3°C em Saarbrücken na sexta. A República Tcheca atingiu 41,1°C em Doksany, ao norte de Praga, também pelo segundo dia seguido, enquanto a Polônia quebrou seu recorde histórico com 40,5°C na cidade de Słubice.
O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, resumiu o quadro em publicação nas redes sociais: “O estresse térmico costuma ser chamado de assassino silencioso, e as casas, os locais de trabalho e as escolas da Europa não foram projetados para essas temperaturas.”
Impactos na infraestrutura e serviços essenciais
O calor extremo não ficou restrito aos termômetros. Em Paris e Viena, hospitais e serviços de emergência registraram aumento expressivo na demanda, levando autoridades locais a adotar medidas emergenciais para atender a população. Na capital francesa, a prefeitura chegou a proibir o consumo de bebidas alcoólicas em vias públicas e cancelou a Parada LGBTQ+, que estava prevista para o sábado, para aliviar a pressão sobre os serviços de emergência.
Na Alemanha, o calor provocou danos físicos visíveis à malha viária. Estradas de concreto “estouraram” em fenômeno conhecido como blow-up, quando o material se expande com o calor, levanta e parte sob o peso do tráfego. Trechos das Autobahn foram bloqueados em vários estados, incluindo Brandemburgo, Baviera e Renânia do Norte-Vestfália. Para tentar conter os danos, autoridades mobilizaram caminhões normalmente usados para remover neve no inverno, agora despejando água fria sobre o asfalto. Em Leipzig, o revestimento ao redor dos trilhos do bonde se liquefez com o calor intensificado pelo atrito dos veículos, obstruindo os desvios e forçando a suspensão do serviço de transporte sobre trilhos até a madrugada de segunda-feira (29). Parte da frota de ônibus da cidade também foi retirada de operação.
Na Hungria, a usina nuclear de Paks reduziu sua geração de eletricidade porque as águas do rio Danúbio aqueceram além do limite permitido para o resfriamento dos reatores, evidenciando como o calor extremo pode comprometer até a segurança energética de um país.
A crise climática como fator determinante
A conexão entre a onda de calor e as mudanças climáticas não é especulação: é o resultado de um estudo de atribuição publicado pela rede World Weather Attribution (WWA), que reúne cientistas climáticos de diversas instituições ao redor do mundo. Segundo a WWA, a atual onda de calor seria “praticamente impossível” há 50 anos sem o aquecimento global provocado pela ação humana. Uma onda semelhante em junho de 1976, quando alguns dos recordes europeus anteriores foram estabelecidos, seria 3,5°C mais fria durante o dia e 2,4°C mais fria à noite do que o que se registra agora.
O fenômeno foi favorecido por um padrão atmosférico chamado “bloqueio ômega” ou “cúpula de calor”, que retém uma massa de ar quente sobre uma região e impede a entrada de ar mais frio. Samantha Burgess, vice-diretora do Serviço de Mudança Climática Copernicus da União Europeia, explicou que, embora as cúpulas de calor sejam um fenômeno meteorológico natural, a mudança climática causada pelo homem está tornando as ondas de calor mais severas e mais propensas a atingir temperaturas recordes. O diretor-geral da OMS reforçou o alerta: a Europa aquece a um ritmo duas vezes superior à média global, e o fenômeno das ondas de calor “uma vez em uma geração” está ocorrendo quase anualmente. O estudo da WWA acrescenta ainda um dado preocupante: o El Niño, iniciado oficialmente em 11 de junho, não tem ligação forte com as ondas de calor no norte da Europa, o que significa que o pior pode estar por vir nos próximos meses sob a influência do fenômeno.
Repercussões e alertas
Mesmo com a queda das temperaturas prevista para o início da semana, as autoridades de saúde não deram o episódio por encerrado. A ministra da Saúde da França, Stéphanie Rist, afirmou ao jornal La Tribune que os efeitos do calor extremo podem continuar sendo sentidos por até dez dias após a redução dos termômetros. Em entrevista à emissora BFM, ela foi direta: “O episódio ainda não acabou.”
“Tem as marcas da crise climática por toda parte. É o preço mais recente a pagar pela poluição de combustíveis fósseis que está aquecendo o nosso planeta. Enquanto a humanidade não parar de queimar enormes quantidades de carvão, petróleo e gás, o calor extremo continuará piorando.”
A declaração é de Simon Stiell, chefe do clima da ONU, e resume o que especialistas vêm repetindo com crescente urgência: eventos como este tendem a se tornar mais frequentes, mais duradouros e mais intensos. As consequências econômicas de longo prazo, que vão além dos custos imediatos com saúde e reparos de infraestrutura, ainda estão sendo dimensionadas. Na região de Berlim e Brandemburgo, a queda acentuada das temperaturas prevista para a segunda-feira (29) deve vir acompanhada de tempestades, fortes chuvas e granizo, com risco de inundações e quedas de árvores. A Europa sai do pico de calor para enfrentar, possivelmente, um novo ciclo de danos.
